A ESCRITA CRIATIVA EM DESNUDAS, DE CRIS VAZQUEZ



Em uma sexta-feira de manhã, um amigo me presenteou com um livro. Disse que eu ia gostar, porque a autora era feminista. Nesse dia, eu saí da GV, peguei um metrô até a Barra Funda e comecei a ler o livro sentada no portão de embarque da rodoviária, à espera de um ônibus para a minha cidade natal. Fazia tempo que eu não lia. A faculdade e a nova vida em São Paulo ocupavam muito do meu tempo e a última vez que tocara em um livro havia sido no ano novo, quando peguei covid e tive que passar 5 dias na cama.


Naquele dia na Barra Funda, li primeiro a sinopse e então as orelhas. Já no ônibus, li o primeiro conto acompanhado do primeiro relato. Fiquei encantada. Lembro de mandar passagens que me fizeram rir àquele meu amigo pelo menos três vezes em um intervalo de vinte minutos. O livro me conquistou desde esse momento no ônibus até o momento em que li a página de agradecimentos.


Desnudas é uma coletânea de relatos sobre a vida de uma porção de mulheres que, ao longo de suas vidas, tiveram que enfrentar alguma questão relacionada a sua identidade de gênero. Cada relato é antecedido por um conto que aborda lindamente algum aspecto da realidade. As histórias abordam o câncer de mama, a transexualidade, a negritude, a paraplexia, a violência doméstica e o abuso sexual. O livro foi escrito por Cris Vazquez, advogada e Mestre em Literatura pela UFSC e em Escrita Criativa pela PUCRS. Em junho deste ano, Cris concordou em conversar comigo para sanar algumas dúvidas a respeito do processo criativo de sua escrita. A Gazeta Vargas agradece a disponibilidade e a delicadeza da autora.


De onde saiu a ideia de escrever o livro nessa estrutura de conto intercalado com relato?


Cris Vazquez: Sou uma pessoa que sempre fica em dúvida entre dois caminhos. Acabo, às vezes, tomando partido disso. O primeiro romance que escrevi tem diários, narrações, contos e cartas. Faço coisas meio híbridas. Tenho uma amiga que até me perguntou quando eu escreveria um livro mais tradicional.


Em relação a Desnudas, eu queria fazer algo que destacasse a oralidade. Queria escrever um livro de contos sobre mulheres desde o princípio, abordando temas que considero tabus. Para tomar conhecimento dessas vivências, logo me dei conta de que teria que entrevistar pessoas. E eu também pretendia escrever contos em forma de monólogos. Achava bastante genuíno expressar a fala da personagem mulher em primeira pessoa. Me vinha à cabeça uma peça, A Casa dos Budas Ditosos, com a Fernanda Torres, sobre o livro do João Ubaldo Ribeiro. Na peça, a personagem principal, que é interpretada pela Fernanda, fala o tempo todo em forma de monólogo. Sabia que queria escrever algo inspirado no teatro, com a presença de uma personagem central contanto toda a sua história.


Quando fiz a primeira entrevista, que foi com a Lisa, amiga que tem câncer de mama metastático, percebi que sua história tinha tantas coisas interessantes que ficcionalizar aquilo não daria o mesmo impacto ou a mesma beleza, não ficaria tão legal. Decidi fazer uma adaptação dos depoimentos que ouvi, mas não sabia o nome técnico disso. Durante o mestrado, descobri a autora bielorrussa de Vozes de Tchernóbil, Svetlana Aleksiévitch, uma jornalista e escritora que se apaga nos textos para ouvir a voz de seus entrevistados. Achei que meu trabalho neste livro podia guardar similaridade com o que ela costuma fazer. Os relatos de Desnudas acabam sendo um tipo de autobiografia escrita a quatro mãos. Eu não podia dizer que aquelas histórias eram de minha autoria, mas também precisei fazer uma adaptação literária, uma recriação daquilo que elas me contaram. Poderia mudar a ordem cronológica dos acontecimentos para tornar a história mais literária, começando pelo meio, por exemplo. Seja como for, o nome adequado é relato de vida, gênero em que há uma colaboração autobiográfica entre o redator e aquele que viveu a história, e que a conta pela metodologia da história oral.


Os contos fictícios inspirados nos relatos vieram depois, pois comecei a me sentir uma ghostwriter e não uma autora literária. Senti falta de mostrar os aspectos de cada relato que mais me tocaram e atravessaram as minhas obsessões como mulher e escritora. Afinal, já eram temas que estavam na minha mira.


Como você encontrou as mulheres que entrevistou?


Cris Vazquez: Uma amiga sugeriu que eu escrevesse sobre mulheres, pois havíamos percebido que cada uma de nós tinha um problema diferente, que se relacionava ao fato de sermos mulheres, como as questões referentes à maternidade, por exemplo. Mas, quando comecei a fazer as entrevistas, percebi que minhas amigas tinham histórias muito específicas, e que, provavelmente, não gostariam que fossem reveladas, o que poderia acontecer com a publicação do livro. Assim, comecei a listar temas fortes que eu tinha curiosidade de conhecer, e as amigas indicaram pessoas cujas histórias combinavam com essas temáticas. Algumas das entrevistadas não tinham narrativas que batiam exatamente com os temas que eu pensei, mas, de alguma forma, continham a mesma essência e substituíram minha curiosidade inicial.


Você chegou a estabelecer algumas perguntas às mulheres que entrevistou ou deixou que elas contassem suas histórias livremente?


Cris Vazquez: Eduardo Coutinho, o documentarista, apenas chegava para seus entrevistados e dizia “E aí? Me conta”. Eliane Brum, a jornalista, maravilhosa na área de não ficção, também afirma que tenta não falar muito. Mas, meu orientador de mestrado da PUCRS propôs que eu estabelecesse algumas perguntas, para ter algo mais concreto para passar pelo comitê de ética da instituição de ensino. No começo, eu estranhei. Afinal, como faria as mesmas perguntas a mulheres com histórias tão diferentes? Contudo, após elaborar perguntas gerais que levassem as entrevistadas a contarem as situações críticas pelas quais passaram e seu contexto, tive a feliz surpresa de que, embora feitas as mesmas perguntas, cada mulher deu uma resposta muito particular à sua experiência.


Que estratégia você usou para transcrever cada uma das entrevistas?


Cris Vazquez: Me baseei nos métodos de transcrição da metodologia da história oral, que são três: a própria fala, transcrição exata com todos os seus vícios orais e repetições, a transcrição a meio caminho da fala, que é mais utilizada por sociólogos, ficando menos grotesca, com os cortes necessários para tornar o texto mais fluido, mas ainda demonstrando a oralidade, e a reelaboração literária, em que um jornalista ou escritor transforma as entrevistas numa narrativa literária, geralmente em terceira pessoa.


Eu fiquei nesse lugar entre o meio caminho da fala e a reelaboração literária. Houve uma reelaboração, por exemplo, no conto Eu Caguei a Morte. A entrevistada, que enfrentou o câncer de mama, não começou me relatando o acontecimento em que foi ao toalete pela primeira vez após voltar do hospital, mas achei que iniciar assim seria impactante. A mulher que sofreu a violência doméstica já havia me contado algumas coisas sobre sua história antes da entrevista. Coisas que eu incluí ao final do texto, sem deixar transparecer que já sabia delas desde o começo, pois achei que seria mais interessante ao leitor ter conhecimento daquelas informações apenas no desfecho da história. E também adotei o meio caminho da fala para eliminar os excessos da oralidade, como repetições, vícios de linguagem ou passagens muito extensas.


Outro aspecto que eu acho muito interessante a respeito do relato de vida é que ele é um tipo de autobiografia. Há espaço para a reflexão. Assim, a pessoa que conta no presente (o eu reflexivo) analisa a história da pessoa que viveu os fatos no passado (seu eu executivo). As mulheres que entrevistei refletiram sobre suas histórias ao mesmo tempo em que as relatavam a mim.


Mesmo tratando de temas extremamente sérios, tinham momentos de descontração que muito me cativaram ao longo do texto. Isso foi intencional?


Cris Vazquez: Sim. Tem que dar uma relaxada, né? Fiz perguntas do tipo: “Qual a parte mais engraçada, mais feliz, mais interessante da história?”


O que as mulheres que você entrevistou acharam sobre o livro e sobre a sua repercussão?


Cris Vazquez: Elas gostaram muito de participar, gostaram do resultado. No final da entrevista, algumas disseram que se sentiram numa sessão de psicanálise, outras que tinham a intenção de que seu relato ajudasse outras mulheres. Eu gosto de todos os relatos. O da mulher que teve câncer de mama é o que recebo mais feedbacks, pois somos amigas próximas e temos leitoras amigas e conhecidas em comum. A mulher que sofreu violência doméstica ficou muito satisfeita com o livro, chegou a comprar exemplares para presentear. Todos com quem converso têm opiniões distintas. O relato preferido de alguém pode ser aquele que menos agrada outra pessoa e assim por diante. Pode ter a ver com o aspecto geracional, intelectual, enfim. E o que eu acho bacana: tem leitor que não consegue distinguir o que é relato e o que é conto.


Fim


Ao final da entrevista, Cris perguntou se eu achava que garotas da minha idade considerariam seu livro ultrapassado por tratar de temas que, com a militância contemporânea em volta da questão de gênero, talvez não afetassem a juventude na mesma proporção que afetaram a geração dela. Eu respondi que não. Que a violência física e emocional contra a mulher ainda é um tema que faz parte das rodas de conversa das quais faço parte, mesmo que se manifeste mais discretamente. Com 19 anos, consigo usar todos os dedos de uma de minhas mãos para contar o número de amigas que sofreram algum tipo de abuso relacionado a sua identidade de gênero.


O que mais me agradou no livro foi justamente poder entrar em contato com histórias que eu mesma, mesmo sendo mulher, nunca irei vivenciar. Esse tipo de oportunidade é legal especificamente para mim, que gosto de conhecer os pormenores da experiência feminina. Ao mesmo tempo em que os relatos de vida estão lá para expor ao leitor a realidade nua e crua, os contos provocam a imaginação e estimulam belas reflexões. Eu diria que Desnudas, mesmo que conte histórias de mulheres um tanto mais velhas do que nós, universitárias, é um livro extremamente atual, importante e urgente.


Autoria: Beatriz Nassar

Revisão: Artur Santilli e Guilherme Caruso

Imagem de capa: Editora O grifo


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