A MAESTRINA



Ela percebeu que seu concerto chegava ao fim.


Em movimentos delicadamente precisos com a batuta, avisou as cordas para irem baixando a força das ondulações, a percussão para reduzir o ritmo dos tambores e cortar os pratos, o sopro para transformar sua ventania de Allegros em brisas leves de Adagio. Seu concerto chegava ao fim.


Sob as luzes nostálgicas que irradiavam daquela sala de espetáculo, a maestrina lembrou dos momentos do seu próprio. Foram muitos. Os acordes transbordaram felicidade, tristeza, raiva... todos os sentimentos. As notas se converteram em sustenidos, mas em bemóis também, afinal, o que seria de um sem o outro? Sua música teve de tudo. Tantas inspirações perceberam-se nela. Quase um século de inspirações dos mais diversos compositores e gêneros musicais. Sua música contou histórias. E, de uma forma magistral, ela havia conseguido costurar basicamente todos os andamentos, tempos e tons naquela apresentação. Sua música fez história.


A plateia, estranhamente conhecida, mesmo que nunca tivesse realmente olhado para todos ali às suas costas, havia mudado bastante ao longo do espetáculo. Muitos saíram e muitos entraram. Num movimento quase que constante, reparou agora olhando para trás. Eles choraram, riram, se irritaram. Sentiram tudo o que lhes permitiu aquele concerto e, de certa maneira, fizeram também parte dele. Eles seriam os responsáveis por levar a música para muito além do seu final, ao eterno. Para sempre ela tocaria em alguma parte da memória de cada um ali. Sim, o concerto chegava ao fim. A música nunca.


A orquestra havia sido igualmente extraordinária. Que orquestra. Dela, também muitos saíram e muitos entraram, mas todos agregaram tanto. Em acertos e erros, eles transmitiram sua música. Auxiliaram-na a tirar a melodia do patamar subjetivo, levaram-na das partituras aos ouvidos. Trouxeram-na à vida. Cada músico de uma forma singular, cada instrumento contribuindo do seu jeito. Sim, eles admiraram e se deixaram tocar pela obra como a plateia, mas, quase como em retribuição, tocaram-na também. Uma dinâmica que nem ela percebeu qual a causa e qual a consequência, muito fluida. A melodia os compôs tanto quanto eles a haviam composto. Também a orquestra seria responsável por manter presente seu concerto simplesmente se lembrando dele. Mais, se cativando por ele, usando todos os ensinamentos que, naquela sala, adquiriram para compor suas próprias partituras. Suas histórias, existências e inspirações levariam sempre um pedaço daquela apresentação.


Nesse seu pensamento sobre o desfecho, não havia nenhuma sensação de “finalmente” nem de “mas ainda é cedo”. A música se encerrava, não porque fora obrigada a tal, mas porque sua melodia não tinha mais nada a dizer. Já havia dito tudo que lhe era essencial. Aquela coleção de trompas e trompetes, violinos e violoncelos, baterias e sinos, musicistas, músicos e espectadores haviam sido conduzidos por ela, a maestrina, ao exato ponto no qual desejavam chegar. Ao exato ponto no qual, inevitavelmente, toda música um dia chega. Ao fim. Um fim que nada tem de final, pois a música ecoa, senão pela física, então pela metafísica, pelo subjetivo.


Os últimos acordes se aproximavam e ela sentia muito ao mesmo tempo, impossível descrever. No entanto, prevalecia a sensação de realização. Remorsos? Nenhum. Cada acorde, cada viagem do som pelas claves, cada renovação da tonalidade não havia sido “certo” ou “errado”. Havia, puramente, sido. Seu concerto não seria seu concerto caso algum desses tivesse se perdido num ideal de “correção”, de “bom” ou “ruim”. E que força a dela ao compreender isso. A certeza e a precisão na condução tomavam todo o espaço e tempo. Tanto que ninguém ali duvidou, por um sequer momento, que escutava algo diferente da sua música. Gostar ou não é de cada um, mas não havia dúvidas que aquela maestrina tinha total regência sobre a própria obra.


Era hora de concluir. A percussão se esvaiu aos poucos, seguida do sopro. As cordas continuaram, não por insistência, mas porque ela ainda as conduzia. Ela conduzia tudo e todos naquela sala.


As cordas pararam. O escuro tomou conta do ambiente por um momento. Uma troca de fases, um estabilizador. Todos entenderam que chegara o fim. Em uma imprecisão poética entre voltarem as luzes e começarem os aplausos, ela riu com leveza. Sua música havia terminado, se retirado dela para o mundo. Em plena luz. Agora, com a plateia de pé, ela virou e agradeceu lentamente com a cabeça, recebendo cada palma como um agradecimento pela apresentação, e, mais ainda, pela lição. Voltou-se à orquestra e admirou cada um ali. Seus compositores e composições ao mesmo tempo. Aplaudiu-os com o olhar e com o coração.


Plena, pousou a batuta em cima da partitura. Olhou uma última vez para cima, para aquela sala, a morada de seu espetáculo, e a reverenciou silenciosamente. Desceu do pódio com a mesma elegância com a qual subiu e regeu nele e caminhou até a saída. Não olhou para trás, não precisou. Ela sabia que todos ali ainda a aplaudiam, inclusive os músicos, inclusive a sala. E o fariam por muito tempo, até depois que parassem. Sorrindo, ela partiu.


Seu concerto chegou ao fim.


Foi um dos maiores que já tive o privilégio de assistir, e até mesmo de tocar um pouco.




Foto de capa: Sgc.goiás

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