A MINHA GUERRA CONTRA O AMOR

O texto de hoje reflete sobre como, muitas vezes, criamos inimigos imaginários por medo de perdermos uma batalha que só existe em nossa cabeça. Através de um relato pessoal a respeito de sua visão sobre o amor, nossa membra de projetos, Gabriela Pinheiro, traz à luz a importância de conhecer a si próprio antes de decidir quem são seus inimigos.


Eu perdi a conta de quantas vezes eu usei "A Arte da Guerra" como o guia prático para a minha vida. Sim, "A Arte da Guerra", como guia para a vida, no século considerado o mais pacífico na história. Parece meio esquisito, agressivo também e, de certa forma, é, e muito. Mas, confesso que não sei se seria a pessoa que sou hoje sem esse livro, que tanto me ensinou. Por muito tempo, o considerava "O Grande Livro da Minha Vida". Mas, hoje me sinto apta para dizer que, ao mesmo tempo que "A Arte da Guerra" me ensinou a sempre estar preparada para o pior, constantemente na defensiva, o "inimigo" tão citado no livreto, para mim, não era um exército, uma graduação, uma pessoa, ou algo mais "comum". Não. O meu grande inimigo era o amor.


Ora, mas por que o amor? Isso não é tão relevante assim, então irei resumir a estória em três: a primeira parte é mais familiar, de uma parente próxima, na qual cresci ouvindo que uma entrega à paixão a arrastou para uma cidade desconhecida, longe de toda a vida que conhecia e a abandonou; a segunda envolve uma irritação por amigos que me largaram para sair com seus companheiros constantemente; e a terceira, minha idolatria por figuras individuais. Essas três fases me deram as regras que guiaram o planejamento estratégico do meu conflito.


Uma das minhas frases preferidas de Sun Tzu é que "guerreiros vitoriosos ganham antes de ir para a guerra". Na minha guerra contra o amor, meu planejamento era razoavelmente simples, baseado nas três regras, ou afirmações, tidas como verdades absolutas. Estas sendo:


  1. Se entregar é uma armadilha

  2. Você estará presa

  3. Companhia é sinônimo de fraqueza


E assim parti pelo mundo. Conheci bastante gente, fiz muita coisa, cumpri metas, encontrei novos hobbies, era feliz. Mas também, restrita. Meu planejamento me limitava e me restringia sob pretexto de controle. Afinal, se está tudo organizado por mim, certamente estou no controle da minha vida, sem distrações, sem fraquezas, sem a vida de ninguém além da minha. Que ilusão bonita né? Ou não também, porque é justamente essa falha perfeita do planejamento de vida nunca poder ser exatamente o desejado que nos ensina as maiores lições. Como diz Tzu, "a desordem veio da ordem, o medo veio da coragem, a fraqueza veio da força". Meus planos nunca davam inteiramente certos, meu medo de se entregar me corroía por inteira e eu me via cada vez mais encurralada, até que cedi.


Não sei bem como aconteceu, mas quando parava pra rabiscar sobre os acontecimentos do meu dia ou motivos pelos quais estava feliz, esse fator mais humano estava cada vez mais presente. Aos poucos, percebi o quanto o afeto, especialmente aquele, me fazia bem, o quanto era necessário. E quando parei para me debruçar sobre o que, exatamente, me assustava tanto pra me manter tanto na defensiva, eu não consegui responder. Afinal, o que, de fato, seria a pior coisa que poderia acontecer?


O amor não era meu inimigo, eu era. O maior conselho de Sun Tzu diz respeito a conhecer seu inimigo, mas também se conhecer. Prevenir que eu me entregasse e me deixasse levar criou um inimigo imaginário, porque não me deixou se conhecer naquela situação. Quantas vezes será que não fazemos isso? Você realmente conhece seu inimigo? Será que você realmente tem um inimigo?


Não há problema em viver sempre na defensiva, desde que você saiba, exatamente, de quem está se defendendo. Eu não conheço direito o amor, não sei se alguém sabe por certo como ele funciona. Talvez seja eu mesma quem o defina. Mas sei que na verdade, não é Ele que me prendia, foi tudo eu.



Foto de capa: Sieu Tran

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