A VIDA DO PASSADO






Ele acordou desnorteado no ônibus. O podcast no seu fone de ouvido continuava a rodar enquanto se espreguiçava estreitamente no seu assento da janela, no fundo do coletivo. 06h48 de uma terça-feira, mais um dia de trabalho. Era mais um daqueles tipos clássicos; católico (ia à igreja uma vez por ano), com raiva por dentro, à caminho do Centro. O tão pronunciado niilismo da cidade grande supostamente havia vencido. Degladiando-se naquele ônibus lotado, teve uma epifania: como é que fui me meter aqui?


Todos falavam que os seus 30 anos seriam os melhores anos de sua vida. Olhando ao redor, parecia verdade: seus amigos e conhecidos aparentavam estar razoavelmente felizes, contentes com os momentos que se encontravam em suas vidas. Alguns tinham filhos, outros não; muitos estavam namorando, casados ou morando juntos, mas também tinha amigos felizes em estar solteiros. Viver no Brasil da nova era é desolador, é verdade, mas se perguntava - por que todas aquelas pessoas, de algum modo, conseguem e eu não?


Muitas vezes, se pegava pensando no passado. Mais especificamente, em 2008. Foi seu melhor ano na universidade, no qual fez questão de aproveitar todos os dias, fossem eles letivos ou não. Era uma época diferente, quando a melhor dupla de ataque do Brasil era Borges e Dagoberto, e não Gabigol e Bruno Henrique, e o Parque Antártica ainda existia; quando as locadoras e as bancas ainda não haviam sido condenadas ao ostracismo. Rememorava também a figura do seu falecido pai, e se divertia pensando no que o velho acharia do Pix, do Whatsapp e das outras coisas impossíveis de explicar para quem nasceu quando o cinema ainda era mudo. Aquele ano era um marco óbvio, mas quando as horas da noite passavam morosamente, e só restavam os devaneios do que já se foi, qualquer ilustração do passado já servia.


Doze horas depois, sua raiva ao acordar foi certeira: seu dia tinha sido horrível. Para piorar tudo, ainda pegou a famigerada chuva de peão saindo do trabalho - justo no dia que esqueceu o guarda-chuva - e chegou ensopado em casa. Tentou contornar a situação tomando um banho quente e pedindo comida, que demorou duas horas e chegou fria. Jogado no sofá, visou emular os velhos tempos, onde bebia cerveja assistindo um filme naqueles canais que só passam filme o dia todo, mas esqueceu que tinha cancelado esse pacote, ficando só com os canais abertos. Eram nove horas da noite, e ele dormiu ali mesmo.




Com o nascer do sol, seus olhos abriram novamente. Mas ao invés da casa que estava já cansado de andar quando acordava, estava na morada dos seus pais. O céu parecia diferente: a poluição era perceptível mas as cores eram diferentes, se assemelhando às da sua juventude. Quando foi à porta, viu o jornal, que marcava 2008. Achou estranho, e suas dúvidas foram sanadas quando saiu para a rua, onde encontrou uma cidade completamente diferente. Um espaço urbano que parecia um sonho, etéreo e lúcido, mas bem mais bonito do que se tornou. Andando pela rua, viu um orelhão tocar, cena que não via fazia anos. Suas reminiscências do que foi o passado, marcado pelas esquetes de comédia da MTV, estavam certas - o pretérito era mais interessante.


Falando em MTV, sorria toda vez que lembrava um novo detalhe do que já havia sido aquele país: revelar fotos era hábito comum, assim como alugar um filme na locadora. Os comerciais de carro já haviam vencido, sempre imaginando uma cidade utópica; encontrava um insólito conforto naquele voice-over piegas que ficava de fundo. Pegar táxi na rua era bem mais emocionante do que nos aplicativos, e a emoção de assistir um clássico na torcida visitante fazia falta. Aquele mundo, onde o analógico e o digital ainda conviviam pacificamente, o agradava mais.


Mas mais do que qualquer capricho estético, estar de novo ali ressignificava muitas coisas, várias das quais ele nem fazia ideia. Por um minuto, o mundo entrou em uma outra rotação, e de estranhas maneiras, as coisas poderiam parecer certas de novo. Podia passar mais tempo com seu pai e sua mãe, sem a impiedosa iminência da idade. Sempre soube que em um determinado momento iria ficar sozinho no mundo, ainda mais sendo filho único, mas certo dia essa certeza deixou de ser um capricho literário e se tornou uma realidade, uma agonia que o visitava cada dia um pouco mais.


Em uma outra página, não via a hora de voltar à cidade universitária, onde se formou como gente e fez um nome para si mesmo. Mesmo sendo um adulto inegável - as entradas no rosto não mentiam: ia ficar calvo - ainda rememorava os dias de juventude, as noites alcoolizadas, que em toda sua vocação estúpida e pretensiosa, pareciam eternas e únicas, como se devessem ser imortalizadas no Olimpo.


Em 2008, a música era melhor e as pessoas também. A certeza de que vivia em um desses filmes de diálogos intelectuais era um denominador comum no seu grupo de amigos, o que unia todos em uma comunhão juvenil desmedida em sinceridade. Poderiam não ser as melhores pessoas do mundo, mas eram razoáveis, e isso bastava. As sextas e os sábados pareciam dignos de se viver; estar com outras pessoas era motivo de felicidade. Ainda namorava, e mesmo que se considerasse um romântico, naquela época a denominação pelo menos fazia sentido. Não importa - cada encontro com ela era como escutar aquela parte da sua música favorita, com você sorrindo sozinho deitado no seu quarto, só de estar ali. Com o passar das estações, se descobriram como navios perdidos no mar que colidiam em sequência, até que o tempo tornou tudo tão banal que não foi preciso as correntezas os separarem. Mas quando você vive um grande amor, ninguém pensa nisso.




Por algum motivo, enquanto caminhava, lembrou dos políticos daquele tempo. Era irônico observar como a cidade, mesmo tendo mudado muito, era a mesma - os prédios gigantescos, a correria nas ruas, os restaurantes lotados. Mas algo parecia errado. Se perguntava constantemente se tinha algo de errado consigo mesmo, mas a cidade parecia funcionar a partir de um outro registro, com cores estranhas, como se a composição imagética dos espaços partisse de fotos apagadas de revistas perdidas em um porão. Porém, as pessoas pareciam normais, o que o acalmou.


Foi em busca dos seus pais. Mesmo tendo acordado na casa deles, eles não estavam ali. Só tinha uma opção de lugar para procurar os dois - a casa do seu tio. Chegando lá, a porta estava aberta. Um coro se anuncia: Bem vindo de volta! Não entendeu pois, tirando seu pai e alguns tios, todos seus familiares estavam vivos. Tinha os visto semana passada, inclusive. O pai foi prontamente abraçar seu querido filho, em um enlace de força incomum. Seus olhos pareciam mais cansados, e estava vestido como um padre. Sua mãe estava de canto, apenas sorrindo, muda, o que não é do seu feitio. E seus tios o olhavam fixamente, como se estivessem esperando alguma resposta. Até aceitou um pedaço do pavê que estava sendo servido - que, por algum motivo, era de maracujá - mas assim que terminou a sobremesa, saiu correndo da casa, suando frio.


O céu fechava, ao mesmo tempo que o sol tentava invadir as nuvens cinzas, com algum sucesso. No fim da avenida, a mais longa da América Latina, o céu estava azul cor do paraíso. Ficou ainda mais nervoso e decidiu que precisava encontrar logo seus antigos amigos e sua antiga namorada. Ligou de um orelhão, e enquanto observava o seu entorno, percebeu que a rua parecia estar se esvaziando, situação pouco usual para uma cidade tão grande. Marcou de ir em uma praça que sempre iam quando não tinham nada para fazer.


Eles pareciam mais novos, e fizeram questão de sacanear o amigo: "Meu Deus, você ficou muito feio!". Realmente não precisava daquela dose de grosseria gratuita naquele momento, mas prontamente se pôs a explicar a situação para os seus amigos: tinha acordado, sem motivo aparente, em 2008, e queria aproveitar de novo com seus antigos amigos, os quais se arrependia de ter magoado no passado. Eram dois naquela praça: o primeiro deu uma desculpa qualquer para não ter aquela conversa, e saiu correndo. O outro foi mais honesto:


Cara, eu não sei como você apareceu aqui. Eu tenho um filho para cuidar agora, e definitivamente não consigo parar meu dia onde tenho que conciliar ser pai, marido e o meu emprego para passar o dia com você, fazendo sabe se lá o que. É incrível, você continua um inconsequente e um completo egoísta; nossa, seria tão melhor se você fosse simplesmente esquecido por todos, por todo mundo, sabe? Você é um idiota.


Olhou pro céu. Continuava cinza, e agora começou a fazer frio. Seu amigo sumiu na neblina que surgiu, o deixando sozinho ali. Sua cabeça palpitava, como se uma insistente música eletrônica o atormentasse por dentro. Não tinha tido êxito algum em revisitar o passado, mas tinha até a noite para tentar sua melhor sorte. Em um ônibus vazio, sua antiga namorada chegou. Assim como nos livros e nos filmes, subiu sem pressa a tortuosa ladeira. Parecia saída de um funeral; a própria noiva cadáver.


A gente já teve essa conversa.


O quê? Qual?


A de você encher o meu saco para a gente voltar, aí você se ajoelha nos meus pés, se desculpando até o fim dos seus dias…


Eu juro que não é isso, sério. Quer dizer, mais ou menos. É que eu vim parar aqui em 2008 de novo, por alguma viagem no tempo maluca, e achei que ia ser legal da gente conversar, sei lá.


Ah, então você quer conversar de novo...eu sabia. De novo, eu estou bem melhor agora, eu realmente não entendo qual o ponto de você voltar 13 anos no tempo apenas para encher o meu saco.


Não, não é isso...eu só queria saber como você tá, como estão as coisas…


Já disse, estou bem, sério. Olha, eu gosto muito de você, de verdade. Mas não deu certo, a gente já falou sobre isso. E você fica idealizando um passado que já passou, um presente impossível, e um futuro que só te deixa preso no passado. Você precisa seguir em frente. E eu preciso ir agora, mesmo.


Enquanto ligava o carro, sentiu um mal-estar. Todas as suas decisões até agora deram incrivelmente errado. Para o homem machucado, sobrava apenas dirigir sem rumo pela necrópole, escutando uma música triste e desafinada. Olhando mais atentamente as ruas, percebeu que elas estavam completamente vazias. Não tinha sequer uma alma viva, todo mundo havia desaparecido. Sua temperatura aumentou muito e começou a ofegar fortemente. Deu voltas e voltas pelos quarteirões, tentando se acalmar. Frente ao bizarro, decidiu realizar um sonho de criança: entrar em uma Lojas Americanas vazia, onde poderia pegar tudo sem ninguém para o incomodar.


Ironicamente, a loja tinha aspecto de cheia, diferente das atuais, com seu opressivo clima de desabastecimento. Pegou alguns DVD's e um refrigerante, e deitou no carpete sujo. Quando foi abrir a bebida, porém, ela se desfez, e o mesmo ocorreu com os DVD's. Tentou tocar outros objetos, e o fenômeno se repetia: o que parecia estar ali, não estava. À essa altura, saiu correndo pela loja, mas a porta estava trancada. Enquanto gritava por ajuda, inutilmente, a terra começou a tremer, produzindo inúmeros sons, desde gritos de filme de terror até batidas de martelo. O chão e o teto se encontraram, engolindo o homem ao esquecimento perpétuo, sem volta. Os fantasmas começaram a sair à rua e, no dia seguinte, tudo amanheceu em paz.




Autoria: João Pedro Fernandes

Revisão: João Vítor Vedrano e André Rhinow

Imagem de capa: Renato Villaca Canton/Folhapress

Imagem 1 e 2: Hélvio Romero/AE



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