ACABOU O FOGO PARA QUEIMAR


O sistema que sustenta o site da Gazeta Vargas apresentou um bug com dois de nossos textos já publicados no mês de agosto. Por esse motivo, eles estão sendo novamente colocados em nossa plataforma, em respeito à expressão e trabalho de seus respectivos autores. "Acabou o fogo para queimar" tem como data original de publicação o dia 09/08/2021.

Estavam sentados na pequena mesa no canto da sala. O cômodo era pequeno, afinal, pelo tamanho do apartamento, não haveria como ter cômodos grandes. Moravam em um prédio baixo, nos aglomerados de Sangam Vihar, devia ter uns quatro andares. Anushka e seu irmão, Shankar, estavam jantando depois de um longo dia. Falavam sobre o trabalho do irmão.


– As chaminés estão rachando.

– O que?

– Isso mesmo que você ouviu, as chaminés estão rachando.

– Isso é possível?

– Eu também não sabia.

– Ah, e não é só isso. O metal está derretendo. E a lenha está acabando.

– E como vão cremá-la então?

– A gente vai ter que comprar, vai ter que ir ali na esquina comprar lenha. Não tem outra saída.

– Poderíamos enterrá-la.

– Não faremos isso com a memória dela.


Anushka tosse. Os dois cruzam olhares assustados. Anushka era a cara de sua mãe. Cabelo escuro, longo e forte, sempre trançado. Os lábios tinham o mesmo tracejado: sobe até perto do nariz e desce, numa ondulação perfeita. O nariz pontudo era a marca do rosto de sua mãe, mas a da filha era outra. O que marcava seu rosto eram seus olhos, olhos pretos e brilhantes que carregavam a calmaria que se sente antes de vir a tempestade, aquela que antecipa que algo poderoso está por vir. Anushka, quando chega no ambiente, sente todos os olhos sobre ela, sobre os olhos dela. Olham fixamente para aqueles círculos pretos vibrantes. E então, sabem que algo, poderoso como a tempestade, está por vir. A semelhança entre Anushka e sua mãe não se limitava à aparência. As duas eram sérias, rígidas, demonstravam o amor pela ação, nada de toque. As duas eram calorentas. E as duas tossiam muito parecido. É claro que toda tosse é parecida, mas, nesse período, as tosses eram tantas que já conseguiam se diferenciar. E Shankar as diferenciava muito bem. Mas, a tosse de sua irmã e de sua mãe não tinha diferença. Eram completamente iguais.


Então ali estavam os dois, sentados, com o jantar à frente, olhando-se assustados. A tosse de Anushka os lembrou da tosse de sua mãe. Fazia duas semanas que tudo havia começado. A mãe, Maya, estava preparando o café para os filhos antes de eles irem ao trabalho, quando deu uma pequena tosse. Passou despercebida. Durante o dia, com os jovens fora de casa, a mulher tossiu. Tossiu assistindo tv, tossiu fazendo xixi e tossiu tomando banho. Quando se deitou, já não ficava sem tossir. Uma tosse permanente a atormentou. Adormeceu assim, tossindo. Foi a última noite em que sonhou.


Maya estava em sua casa de infância, em Ooty, junto de sua mãe, Akshay. Tudo parecia idêntico, os móveis nos mesmos lugares em que foram deixados. A mesa de madeira escura estava bem no canto, as cadeiras apertadas em volta, o tapete gigante ocupava quase que a sala inteira. O sofá na parede oposta estava amarelado, aquele amarelo como dentes de velho. Tudo como sempre foi. No entanto, Maya estava diferente. Era, naquele sonho, uma criança. Menina pequena, de pele escura e cabelo trançado. Um vestido laranja de detalhes amarelos cobria quase todo o seu corpo. Nos pés, usava sandálias pretas. Assim, pequena como era, olhava para cima e via sua mãe. Estava envolta em seus braços fortes, cheio de pulseiras. Era como se, naquela noite, naquele sonho, em sua antiga casa, Maya, que há muito não se sentia protegida, pudesse ter um gostinho de como era estar em um lugar seguro. Seu coração não estava mais acelerado, seus ombros relaxaram e suas narinas, sempre abertas, como que prontas para farejar o perigo, puderam, pela primeira vez, se soltar. Agora ela sentia o cheiro das flores do quintal, do cabelo de sua mãe e da comida de sua avó. Maya passou a noite inteira nesse sonho, protegida pelos braços da mãe.


Na semana seguinte, as noites passaram em branco. A tosse impossibilitava qualquer sonho. Por vezes, Maya acordava durante a noite e não dormia mais. Por outras, nem mesmo pregava o olho. Seus filhos chegavam do trabalho, preparavam o jantar e se punham a cuidar dela. Quando a tosse acalmava, tentavam assistir a alguma coisa na TV, geralmente o noticiário, para se sentirem como uma família normal de novo. Mas o noticiário só sabia fazer afundar as crenças de que a melhora seria possível. Eram relatos, números e estatísticas de tudo que estava dando errado: os mortos, as variantes, a sobrecarga dos serviços de saúde. E, por mais que não passasse nos jornais, Shankar sabia também do colapso dos crematórios. Não comentaria com a irmã até que fosse necessário. Enfim, assistir ao jornal era um indicativo de como as coisas já não dariam certo para Maya. Então passaram a ficar somente sentados, aproveitando a companhia um do outro.


– Sonhei com a avó de vocês alguns dias atrás.

– Como foi o sonho? – perguntou Shankar.

Anushka deixou a sala. Não gostava de conversas sobre a avó. Quando ela morreu não foi fácil. Do quarto, conseguiu ouvir seu irmão e sua mãe conversando, achava que até tinha ouvido uma risada. Ficou um tempo só escutando os murmúrios até que decidiu voltar para sala e se pôs a fazer um chá.

– Esses móveis todos, já tenho eles há tantos anos. Foi seu avô que os fez. Ele era marceneiro, sabe?

– Caramba, essa nunca tinha escutado. – disse Shankar.

– Pois é. Ele fazia móveis muito bonitos. Nós implicávamos um pouco com ele, pois ele cismava em usar essa madeira escura em absolutamente todas suas criações. Ele dizia que essa madeira produzia muita fumaça quando queimada e por isso era melhor mobiliar a casa com ela. Como morávamos na fazenda, caso houvesse um incêndio, poderiam ver de longe e vir nos socorrer.


– Se vocês não morressem sufocados pela fumaça antes, é claro. – disse Anushka baixinho.


Sua mãe riu.


– Ainda bem que nunca tivemos que descobrir.


Conversaram muito nessa semana. Quando os filhos chegavam do trabalho, faziam um chá, sentavam-se na sala e ficavam falando, falando por muitas horas. No sábado, dia do festival Holi, Shankar foi visitar um amigo cujo filho tinha acabado de nascer. Anushka ficou em casa cuidando de sua mãe. A tosse já não parava, o corpo já pedia sossego e a cabeça não pensava mais. A única coisa que se mantinha na mente daquela mulher era o sonho com sua mãe. Ele passava em sua cabeça de novo e de novo, como uma fita quebrada. Enquanto Anushka estava na farmácia comprando um remédio, Maya deixou de respirar. Quando chegou em casa, a jovem mulher que nunca perdia o controle começou a chorar desesperadamente. Ligou para a ambulância, depois para Shankar. Levaram Maya, mas já não havia como salvá-la. Então, ela ficou deitada em um canto qualquer do hospital, com os pulmões vazios, carecendo de ar, e o coração, preenchido de amor na última semana, murcho.


– Anushka! Anushka! – Shankar falava – Não se preocupe, é só uma tosse. Deve ser de toda a poeira que tem nessa casa.


Anushka afirmou com a cabeça.


– Bem, o que faremos então? Com o corpo de mãe. – perguntou o irmão.


Anushka foi para o quarto da mãe e olhou os móveis. Todos feitos de madeira escura, a madeira que fazia muita fumaça. A jovem mulher se pôs a desmontar as mesas, a cama, o armário e a penteadeira e foi logo acompanhada por Shankar. Depois de algumas horas destruindo o que antes foi de sua mãe, os irmãos se depararam com uma pilha grande de madeira, grande o suficiente para cremar Maya. Os objetos guardados nos móveis estavam bagunçados no chão. Shankar pegou algumas caixas de papelão que estavam na sala e guardou todos os pertences de sua mãe. A não ser pela pilha de madeira, a única coisa que restou no quarto foi o colchão. Anushka ligou para uma amiga do trabalho que tinha comentado a necessidade de pôr um colchão. Uma hora depois, olharam para o quarto de Maya, agora quase vazio, a não ser pelos restos de madeira escura.


No dia seguinte, levaram a madeira ao crematório. Pegaram o corpo de sua mãe, levaram-no a uma esteira de metal e acenderam o fósforo.





Autoria: Tiz Almeida

Revisão: Guilherme Caruso, Cedric Antunes e Bruna Ballestro

Imagem de capa: Pixabay/User: _Alicja_

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