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Arte: para quem gosta de cultura e para quem gosta de dinheiro



Gertrude Stein ensinou a Ernest Hemingway muitas coisas, inclusive sobre investimentos. Numa dessas, ela disse ao escritor ganhador do Pulitzer que comprar pinturas é mais sábio do que gastar dinheiro em roupas. Foi também pensando em arte e economia que a EESP FGV, no último dia 21, juntou acadêmicos, artistas, investidores e galeristas para pensarem e discutirem juntos o mercado artístico brasileiro.

Madame Stein entendia dos investimentos artísticos porque tomava eau-de-vies em sua sala de estar com gente como Jean Cocteau, Braque e Picasso, Henri Matisse e F. Scott Fitzgerald na rue des Fleurus. Agora, o professor da EESP Thierry Chemalle confirma o que ela dizia: a arte é um investimento seguro, e que deve estar no radar dos advisors e gestores institucionais.

ARTE: O ouro colorido

Chemalle investigou o comportamento do ouro, ações, commodities e ativos artísticos (Sob o índice Mei & Moses) num cenário de estagflação – tal qual o que vivemos hoje, com Guerra da Ucrânia e recuperação pós-Covid – em que há taxas baixas de crescimento e ainda assim, inflação. Dos muitos achados do seu artigo, sublinha-se que, nesses momentos de crise, uma gestão de portfólio que una investimentos em ouro e arte apresenta bons resultados com relação a risco e retorno. Ou seja, nas crises, corram para as montanhas – comprando ouro e uns quadros por aí.

Os resultados da pesquisa indicam que entre 1972 e 1985, ouro e arte tiveram os maiores retornos. Foram considerados, assim, investimentos de segurança. Nessa histórica, Mei & Moses performou com ganhos acumulados de 485%, ouro com 411%, com variações respectivas de 6 e 13%.

O índice é uma análise teórica de vendas repetidas da mesma obra de arte ao longo do tempo. É um banco de dados enorme, de 45.000 obras separadas em 8 categorias, com cerca de 4000 vendas e suas variações analisadas. Mas, não se pode investir nesse índice lastreado por ativos artísticos – o que talvez seria uma ideia excelente – que é apenas uma métrica. Portanto, olhar esses dados requer algum cuidado.

Isto porque o índice mede a variação geral de ganhos de ativos artísticos diferentes – artistas e talentos diferentes, inúmeros movimentos e tipos artísticos. Então, ainda que divididos em classes dentro do próprio índice, na matemática final estão a variação de valor desde obras modernas de Basquiat e Andy Warhol, até pinturas dos frequentadores ilustres do 27 rue de Fleurus. Ouro, por outro lado, é ouro em 1900 e em 2021 e suas variações medem o mesmo produto.

Então, embora com retornos parecidos, outras coisas devem ser consideradas ao optar-se pelo investimento em ouro mais quadros. Apetite ao risco (o ouro variou mais, é, portanto, mais volátil) e liquidez esperada (a média de hold de um ativo artístico é longa, cerca de 28 anos, menos líquidos), é alguma das coisas a se pensar quando se procura alocar seu dinheiro num portfólio de investimentos.

Arte: para todo mundo

Quando Hemingway pensou em comprar telas para seu humilde apartamento na rue Cardinal Lemoine, ele refletiu: nem se eu parar de comprar roupas agora eu terei dinheiro para comprar um Picasso! Madame, muito atenta, confirmou: Não, ele está fora do nosso alcance, mas há sempre bons e sérios pintores novos.

Acreditando que sempre há boa coisa a se descobrir por aí, o colecionismo brasileiro de arte contemporânea é um mercado crescente de gente muito atenta que, pelo prazer ou pelo dinheiro, investe em artistas emergentes. Não é necessariamente, de Bernardo Paz, do Inhotim, ou dos Paes Barreto, da Usina de Arte, que me refiro. Mas de um público considerável que investe pouca coisa, se comparado com esses maiores, e que vem amealhando um acervo de grande valor artístico e econômico.

O Seminário da EESP apresentou uma pesquisa de 5 anos feita por Nei Vargas da Rosa da UFRGS sobre o colecionismo e traçou um perfil do colecionador médio do Brasil. Sua pesquisa mostrou que esse brasileiro colecionador geralmente é homem (67% dos colecionadores), instruído – tem pelo menos ensino superior, casado (60% dos casos) e começou a investir em arte há 30 anos ou há 5, tanto faz (nos dois casos, é em torno de 20% da pesquisa).

São coleções pequenas, em sua maioria, que somam em torno de 50 obras. Museus enormes – mais de 1500 obras – são apenas 3% do colecionismo brasileiro. Ou seja, o imaginário de que colecionar arte contemporânea é coisa para os Moreira Salles, é absolutamente míope. Para se ter certeza disso, o ticket médio de investimento anual gira entre 10 e 50 mil para 54 % dos entrevistados). A manutenção desses acervos custa pouquíssimo, se comparada com outros investimentos –- pense na taxa de corretagem de um patrimônio grande, em qualquer corretora – girando em torno de 5 mil anuais para 44% das coleções.

Portanto, aproveitar sua pequena coleção, ter uma casa linda cheia de criações maravilhosas e, se quiser, ganhar algum dinheiro com isso é algo que é mais comum no Brasil do que se imagina. Não sei se precisa parar de comprar roupas para isso: há sempre bons e sérios pintores novos para se descobrir e investir.

Nei Rosa quebra uma noção errada de que ter arte é só para o 1% dos 1%. Ele encontrou funcionários públicos, profissionais liberais e jovens em início de carreira entre seus colecionadores. Exemplo vivo disso é a emergência de artistas com suas vendas virtuais que fazem um sucesso enorme com um ticket baixo. ByGabs, NaraOta, GreghiDesign, Mimo Galeria e Marô Antunes são alguns dos exemplos de canais de arte acessíveis aos entrantes desse universo.

O Evento da EESP foi um sucesso porque refletiu sobre os desafios do mercado brasileiro de arte, divulgou muitos dados e pesquisas, algo escasso no meio e propôs soluções e novas ideias para ele avançar.

Certamente alguns críticos podem dizer que mulheres de bolsas Kelly e senhores com lenços Flora no pescoço estão alheios aos desafios dos novos artistas e da emergência de falta de investimentos do setor. Mas não foi o que eu vi.

A EESP acertou ao trazer gente de diferentes preocupações – financeiras, filosóficas e artísticas – para pensarem juntas. Na mesa-redonda final, que tinha três professores, um de finanças, um de macroeconomia e uma de história, uma galerista e uma moderadora, refletiu-se i) que há muito a se fazer para injetar dinheiro no meio, mas que há saídas para isso, basta olhar para mercados que já estão a frente; ii) que estabilidade econômica é a saída para um mercado de arte robusto; iii) educação artística cria uma sociedade que valoriza a arte, investe nela e valoriza seu mercado; iv) que barreiras estatais – seja tributação direta ou incentivos ao investimento – não estão colaborando no cenário e é preciso arrumar isso.


Arte: uma oportunidade

Por fim, se Madame Stein achava que, depois dela, o mundo era feito de uma geração perdida (génération pérdue) é porque ela não era do Brasil e não sabia que, em 2023, os centros de arte estão lotados (a fila da Bienal de SP chegou há 2 horas de espera), que o cinema está bombando (crescendo 32% ao ano, segundo a PwC) e que essa geração está viva na música – Anitta no VMA's –, na moda – na Fashion Week de Milão, Karoline Vitto e na de Paris, o samba da Mangueira – e na pintura – com Adriana Varejão e Beatriz Milhazes com média de 250 mil dólares por obra, na Sotheby’s e na Christie’s.

Fundos de investimento estão colocando dinheiro pesado em florestas (que demoram 20 anos para retornar). Para investidores institucionais que operam em longo prazo, como fundos de endowment e de pensão, a arte pode aparecer como bom alvo pois há um fit na forma de investir com o tipo de ativo. O professor de finanças da mesa-redonda sublinhou, contudo, que há poucos instrumentos financeiros lastreados e que investem em arte.

Talvez o mercado não esteja enxergando essa oportunidade muito claramente – há mesmo poucas pesquisas, pouca informação e pouquíssima tradição em ver arte como investimento, basta pensar que ninguém manda investir em quadros, mas em ações e em grãos, que performam pior em tempos de crise.

Há um boom na criação e na apreciação da arte brasileira pelo mundo. Há pouco dinheiro para que os criadores surfem essa onda e levem seus produtos para essa demanda. Oportunidade de mercado? Não sei dizer, eu não tomo drinks com Joan Miró nem faço EESP, mas sei que, embora de uma suposta geração perdida, essa não pode ser uma chance perdida.


Autoria: Pedro Henrique Guimarães

Revisão: Gabriela Veit e Arthur Santili

Imagem de capa: Recorte de Celacanto provoca maremoto (Adriana Varejão, 2004 - Instituto Inhotim)



2 comentários

٢ تعليقان


Parabéns Pedro Henrique. Suga em frente primo.

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Paulo Ricardo Deboleto
Paulo Ricardo Deboleto
١٠ أكتوبر ٢٠٢٣

Texto incrível, Pedro!

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