AS CORES DOS MEUS OLHOS

Embarque nesta espiral de sentimentos e pensamentos em mais uma crônica escrita por nosso redator Felipe Takehara.

What's in the brain that ink may character

Which hath not figured to thee my true spirit?¹

Soneto 108, William Shakespeare


Disclaimer:

O tempo talvez seja uma ilusão provocada pelo modo como percebemos as coisas, os outros, e nós mesmos. Que o espaço e o tempo são as dimensões básicas que condicionam nossa sensibilidade, Kant já nos mostrou. Mas no espaço nós podemos nos mover em qualquer direção, enquanto que, no tempo, em apenas uma: em frente. Será? Se adotarmos a premissa de que o tempo é uma ilusão, o que explicaria a aparente fluidez do desdobrar das coisas ao redor de nós? A memória e a imaginação, segundo alguns. Nossa capacidade de relembrar permitiria que revisitemos o que já foi, ao passo que a capacidade de fabular nos apresentaria as possibilidades do que virá. Talvez nós sejamos o próprio tempo a perceber a si mesmo.


Escrevi esse texto fazendo um pequeno experimento com o fluxo de consciência. Essa é provavelmente a forma de texto em que a mente humana é apresentada da maneira mais crua possível - em que a capacidade de relembrar e imaginar não estão disciplinadas pela ordem. Isoladamente, esse texto será praticamente incompreensível. A chave para seu entendimento está na leitura de outros três textos que já publiquei nesta Gazeta - “Triste Girassol”, “Caleidoscópio” e “As coisas”. O espaço em que a narrativa ocorre está contido nos dois primeiros parágrafos do último. Já o seu “tempo” está distribuído em todos eles…



Foi quando arrumava os documentos que deveria entregar amanhã para meu chefe, que percebi uma caneta no meio dos papéis - é aí que você estava então? - e a coloquei na escrivaninha. Mas a caneta estava sem tampa. Procurei por ela entre os outros papéis, mas um rápido movimento da minha mão esquerda a encontrou, não sem fazê-la cair no chão. O estalo que ela fez ao cair me lembrou de olhar para a parede.


Vendo a haste longa aparentemente flexível e negra ultrapassar a menor e circunscrever o círculo que me constrange agora a esta cadeira, constrange esta cadeira e tudo o que há ao agora, o presente, dimensão em que tudo acontece única dimensão real eterna em que é possível o tempo o tempo inevitável círculo o tempo coveiro das esperanças amizades poemas e irmãos queridos manu maldito tempo maldito tempo causa dessa trivialidade contagiosa perigosa irresistível que algum dia poderia ser chamada de absurdo ou de tragédia se a repetição não a tivesse banalizado e que fez chorar os olhos dos que a pensaram e as mães que pariram esses olhos que é pensar em não existir em deixar de existir não em morrer manu coitado de papai medo não em morte em dor mas em ausência em não sentir não tocar não ser tocado não sorrir apenas observar a ver a contemplar tudo como se assim se poderia dizer do ponto de vista das rochas e das pedras e dos rodapés em não-ser-sendo em não-estar-estando a faculdade incrivelmente tenebrosa magnífica de dispor-se de si mesmo e ter consciência disso e não fazê-lo.


Mas se assim me constrange, também é condição de minha liberdade. Portanto quando os ponteiros acusam agora as dezessete horas finalmente eu naquela cadeira na frente daquela escrivaninha não mais estou mais um dia papelada de amanhã certo minha bolsa minha blusa no chão de novo raiva tá muito sujo alguém precisa limpar cheio de poeira meu celular aqui pois agora no corredor a vontade ansiedade ansiedade de voltar pra casa minha casa confortável casa e encontrar sempre lá quem lá nunca esteve é poderosa demais e meus passos não resistem minhas pernas aceleram e as pessoas desse escritório me acham estranha estranha é todo mundo.


Que Deus abençoe a Deus por conceder a nós a possibilidade de permanecermos caladas em corredores elevadores em conversas puts vamos vamos oi err atté mais graças a deus fecha logo porta cacete e de olhar sem ver para os rostos que falam conosco todo dia falam conosco mas eu respondo só as vezes coitada da zeladora limpando ali desnecessária aquela escultura horrível quem pediu pra colocar aquilo ali não dei oi pra ela desculpa mas hoje não meu cartão cadê será que ficou na escrivaninha merda zíper chato preciso jogar esse papel de chiclete fora cheio de lixo na minha bolsa de novo carteira achei cartão catraca chata será que tá chovendo não tá com sol tenha um bom dia porteiro outro dia eu respondo olhar sem ver rostos que falam conosco filho dele tava doente mas hoje não outro dia ônibus rápido minha casa sozinha casa abençoe a Deus pela nossa possibilidade de não lhes responder e voltar aqui todos dias e olhar nos seus rostos com aquela intimidade distante e fingir que nada aconteceu nada aconteceu.


¹ O que há na mente que a pena possa descrever / Que ainda não revelou a ti o meu verdadeiro espírito? Tradução do site https://shakespearebrasileiro.org/sonetos/sonnet-108/



Foto da capa: Ritmo de outono (Número 30) - Jackson Pollock

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