CABELO: SÍMBOLO DE IDENTIDADE E RESISTÊNCIA DA COMUNIDADE NEGRA


Por Tatiane Guimarães e Diego Adetayó



“Quando você pega o garfo [pente com dentes longos e finos, específico para pentear cabelos crespos] e abre o cabelo, mostra que o ‘black’ é a coroa e o pente é a libertação.” A partir da fala do ator Babu Santana na edição de 2020 do reality show Big Brother Brasil, é possível identificar a presença da atuação de movimentos negros brasileiros, os quais conduzem o processo de afirmação da negritude e ancestralidade.


O foco na resistência racial, expressada pelo crescimento do uso do cabelo afro, especialmente pelas mulheres negras, apresenta um discurso que nasce em oposição à ideia disseminada e pautada pelo racismo estrutural na sociedade brasileira de que os cabelos considerados bonitos são necessariamente lisos e compridos.


A construção desse imaginário fez com que negros e negras usassem ferro quente, pastas, alisantes e outras químicas, tudo para atingir o ideal de cabelos lisos, prática essa que se perpetuou por gerações e gerações no Brasil. A partir dos anos 1970, sob forte influência das ações socioculturais do movimento negro estadunidense, o movimento negro brasileiro participou de um ato de negação ao ideal de embranquecimento e beleza imposto pela mídia e por uma sociedade que não se reconhece em suas origens negras. Além disso, as estratégias de embranquecimento, sustentadas pela negação dos traços negros e da cor da pele, foram impelidas a gerações de homens e mulheres negras.


A comunidade negra também tem como símbolo as tranças, as quais chegaram ao Brasil no período da escravidão, advindas das culturas ancestrais da África. Aqui, foram utilizadas como forma de comunicação, pois seus desenhos podiam esconder mapas de rotas de fuga para os quilombos. Assim, a simbologia das tranças é de resistência e força e, contemporaneamente, as tranças têm sido utilizadas para realizar a transição capilar, processo em que se retoma a forma natural do cabelo, retirando toda a química e os danos impostos pela chapinha e outros métodos de alisamento.


Mesmo com esse belo histórico de resistência e luta, repleto de simbologias ancestrais que são motivo de orgulho às pretas e pretos do País, ainda se enfrenta situações horríveis de racismo que fazem homens e mulheres negras questionarem sua identidade, como se revela nos relatos que trazemos a seguir:



Relato 1

"Durante toda a minha infância, ouvi que meus cabelos eram ruins. Isso é algo muito difícil, pois causa um sentimento de que você precisa ser outra pessoa. Por muito tempo eu e minhas irmãs alisamos os cabelos para não receber críticas dos colegas e até mesmo de professores nas nossas escolas. Parar de alisar os cabelos e deixá-los como são foi uma libertação".



Relato 2


"Quando criança sentia que a minha identidade era uma incógnita - porque não carrego em mim os cabelos crespos presente da minha ancestralidade negra, pouco tenho os fios lisos dos povos indígenas e definitivamente não tenho as madeixas loiras como herança da “famiglia italiana”. Mas hoje, reconheço que sou consequência de uma malfadada política de embranquecimento social e, também, sinto na pele a estrutura do racismo presente no meu dia a dia.”



Relato 3


“Certa vez, durante uma comoção em torno do uso das tranças Nagô nos jogos do Economíadas em 2019, fui questionada sobre a minha real identidade - não pela minhas características particulares físicas, mas no sentido de reconhecer a história dos meus ancestrais negros e indigenas - porque eu não entendia toda a simbologia de força e resistencia cultural e historica que há nas tranças para a comunidade negra e que não é apenas um simples visual. Assim que entendi a representatividade por trás das tranças Nagô, vejo o quanto, possivelmente, foram essenciais para o surgimento do quilombo que meus antepassados viviam, símbolo de luta e liberdade”.



João, jogador do Big Brother Brasil 2021, passou por uma situação de racismo promovido por outro jogador, Rodolffo. Este afirmou repetidas vezes que o cabelo de João era semelhante à fantasia do “monstro” (punição aplicada aos jogadores após uma prova), que era um homem das cavernas. A ofensa, o incômodo e o constrangimento passados por João são conhecidos intimamente por homens e mulheres pretas, que desde que nasceram passam por situações como essa. Apesar do ocorrido ter sido denunciado, o imaginário racista da sociedade acaba minimizando a gravidade da situação. Portanto, o questionamento que fica é: até quando se perpetuará o desrespeito à identidade ancestral dos povos negros?



Revisão: Letícia Fagundes


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REFRÊNCIAS



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