CANDOMBLÉ, TRADIÇÃO E ACADEMIA: UM DILEMA, MUITAS OPRESSÕES



À Luciene Romão, quem me deu a vida;

À Maria Cristina d’ Oxum, quem me guiou para a minha nova vida;

À Susy Campos, quem me ajudou a encontrar a delicadeza.


“Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir.”

Michel Foucault



Muitas vezes me perguntei o quanto as pessoas conhecem das tradições de matriz africana. Sempre soube que era pouco, mas precisei de 21 dias envolto em uma atmosfera de cuidados, carinho e muita felicidade, que me preparou para o nascimento do meu sagrado, para que a realidade viesse à tona.


Pela minha tradição no movimento religioso, infelizmente, já havia tido contato com uma série de violações relacionadas ao racismo religioso, como a expulsão de lideranças religiosas de matriz africana da comunidade e a destruição de terreiros, fato que ficou muito comum na última década.


Foi dia 22 de dezembro de 2019, um domingo, a data escolhida por Oxalá¹, para sair na sala e se apresentar ao mundo, depois de 21 dias recolhido junto a minha comunidade religiosa. Foi o dia mais calmo que já vivenciei, uma mistura de tempo correndo ligeiro, mas de uma forma serena, calma, tranquila.


Logo, já era segunda-feira e, depois dos últimos atos, chegou a hora de ir para casa. Neste dia, chovia torrencialmente, parecia até que os orixás estavam lavando o mundo para que o mais novo yaò² o habitasse. Ir para casa, naquele momento, simbolizava sair de toda aquela esfera de cuidados que estava envolto e encarar o mundo - mas agora de uma forma diferente.


Após o período de recolhimento, tive que passar por mais 90 dias de preceito, com algumas restrições, vestindo roupas brancas e carregando em mim os símbolos da minha tradição, com a cabeça coberta, fios de contas e meu mokan³ no pescoço, objetos os quais me orgulho de ter o privilégio de carregar junto a mim.


Sair do terreiro naquela segunda-feira era um sinal de que teria que encarar não só o mundo, mas todas as pessoas, que, como disse, não sabia exatamente o quanto elas tinham conhecimento sobre as tradições de matriz africana. O meu receio era que as pessoas soubessem pouco o suficiente para serem tomadas pelo ódio, estupidez ou violação do meu corpo.


O preceito em casa foi cheio de surpresas, respeito, carinho e acolhimento de pessoas próximas, que, na maior parte das vezes, não sabiam como lidar; mas sempre muito dispostas e vigilantes para aprender sobre essa nova forma de se relacionar.


Os dias foram passando e se aproximava o momento do retorno das aulas na universidade. Isso era o que mais me angustiava: ter que passar meu preceito dentro de um espaço cujo cotidiano elitista e muitas vezes intimidador eu já havia vivenciado, mas desta vez sem saber se as pessoas teriam delicadeza para receber alguém que acabara de passar por um dos processos mais bonitos de conexão com o sagrado, de ressignificação da vida, de contato com a natureza e de afirmação da sua identidade. Alguém que acabou de nascer para a sua tradição.


Há momentos em que nos frustramos diante da tentativa de passar despercebidos e, quanto menos tentamos chamar atenção, parece que os olhares se voltam para nós. Fico pensando o quanto é incrível que nos momentos em que estamos expondo nossa versão mais frágil é que conseguimos passar por algumas experiências que nos rendem maior aprendizado.


Enfim o dia chegou e lá estava eu, no meu primeiro dia de aula do semestre e não sabia o que era mais desconfortável: se a percepção de que as pessoas com quem tinha contato eram muito jovens e possivelmente ainda não terem a sensibilidade de lidar com algumas delicadezas, ou mesmo o ambiente ou, ainda, os professores, mas no fundo já sabia o que poderia vir pela frente. Minha estratégia foi chegar 15 minutos atrasado na aula, assim não teria que socializar com as pessoas, nem ter que ficar respondendo as perguntas sobre o meu cabelo, as roupas brancas, a cabeça coberta, os fios de conta no pescoço... Sem deixar de mencionar o fato de não poder olhar nos olhos das pessoas, abraçar ou promover qualquer contato mais próximo, restrições necessárias diante do preceito religioso que ainda estava guardando.


Por decisão própria não vou relatar aqui as ofensas e ações mais agressivas na qual fui submetido nesse processo de cumprimento de preceito, a ideia desse texto é trazer reflexões sobre as formas como pessoas e símbolos são recebidos em uma sociedade que está apartada das tradições de matriz africana.


A maneira como me olhavam me dizia muito sobre o que eu representava naquele espaço, a transgressão, a quebra de qualquer paradigma que antes já estivesse estabelecido para aquelas pessoas naquele lugar.


A forma como alguns me receberam me fez refletir sobre a sutileza e os cuidados que elas têm com as expressões de fé. Uma das professoras que é uma das referência nos meus estudos, quando me viu pela primeira vez, naquele semestre, me disse “como você está diferente, será que é o cabelo?” Ao meu ver ela, mostrou de forma muito sutil que tinha notado que eu havia passado por algum processo e dando margem para que eu falasse ou não sobre o processo que teria passado.


Em um outro momento um professor muito conceituado dentro do meio acadêmico, ficou visivelmente chocado quando o interrompi nas escadas do prédio principal da universidade e o lembrei que teríamos uma reunião em algumas horas, ao passo que durante a reunião afirmou não ter me reconhecido e logo sacou da pergunta: “Você é pai de santo?”, demonstrando que tinha algum conhecimento sobre aqueles símbolos que eu carregava, mas que não detinha domínio sobre o processo pelo qual passei.


Uma outra professora, após ter me “estudado”, perguntou: “Me explica a sua existência?”, após entrar na sala de aula depois de um intervalo. Essa pergunta foi uma das que mais me marcou e me fez refletir sobre o que estava fazendo ali e, até mesmo, sobre qual seria a minha “existência” naquele espaço. Iorubana⁴, de matriz africana - hoje sei que essa é a resposta certa. Encontrei a minha existência e minha ancestralidade no candomblé, onde tive contato com meu sagrado, com as forças que me completam, com o que me deixa pleno.


Uma das passagens que não poderia deixar de relatar aqui foi a forma como uma senhora me abordou na fila do elevador. Estava com algumas amigas e amigo, na fila do elevador quando a senhora, que não estava próximo da gente, ficou visivelmente incomodada com a minha presença naquele ambiente, após alguns segundo me olhando, de longe, a senhora veio até mim, apontou o dedo para os meus fios de contas e com uma voz de espanto com tons de desprezo, disse: “O que é isso, umbanda?”. Eu rapidamente respondi: “Não, são fios de contas”, deixando a senhora pensativa. O que mais me marcou nesse episódio não foi o fato da senhora, que poderia ter se mantido no lugar dela, me interpelar daquela forma grosseira, mas sim a forma como minhas amigas e amigo, que ficaram chocadas com a atitude, rapidamente me tiraram daquela situação, indo todas em direção das escadas e optando por esperar um outro elevador em outro andar.


Durante os 90 dias de preceito muitas coisas me ocorreram e uma das referências que me guiaram foi o discurso de Sojourner Truth, “E eu não sou uma mulher?”, que no ano 1851, durante uma plenária com pessoas brancas, questionava se o fato dela ser negra invalidaria o fato de ser mulher. Por muitos momentos fiquei pensando meu lugar na Fundação Getúlio Vargas. Eu tenho o direito de estudar aqui? - era essa a questão que vinha à minha mente. Isso me tomava de forma a questionar se esse teria sido o momento certo de ter nascido para orixá. A falta de referência e o medo da rejeição, até entre meus semelhantes - bolsistas e pessoas negras - esteve sempre presente.


Nesses momentos sempre fazia o exercício de retomar a beleza do processo na qual havia passado e relembrar que foram meus ancestrais, assim como Sojourner Truth, que construíram um legado de liberdade da qual eu posso desfrutar, que me deram as respostas para as perguntas que me acompanharam por todo esse percurso. Sei que eu tenho direito de estar naquele espaço e que sou um estudante assim como as outras pessoas que estão na Fundação. Com muitos pontos de divergência entre a minha vivência e a da maioria dos meus colegas, com muitas diferenças de percurso para chegar até aqui e com as inúmeras subjetividades que nos colocam em lugares sociais muito distintos.


A falta de referências e de representatividade nos coloca vulneráveis em espaços como a Fundação Getúlio Vargas, mas, assim como Sojourner Truth, que nasceu escravizada, conseguiu sua liberdade e trilhou um caminho de muita luta, eu sei que estou nesse caminho para construir uma referência para outras pessoas, negras e negros de tradição de matriz africana que não conseguem se enxergar na academia, sem referências bibliográficas e pessoais para construir seu legado, pesquisas ou que seja apenas para não se sentirem sozinhas.


Axé e que Oxalá nos faça sempre fortes.



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¹Um dos orixás do panteão dos deuses da nação Ioruba.

²Nome dado aos iniciados no culto dos orixás.

³Objeto trançado de palha, ligado ao Obaluaê, senhor da terra, que simboliza a junção da nova vida com a vida passada.

Ioruba é uma das vertentes do candomblé no Brasil.




Autor: Marcelo Morais

Marcelo Morais é estudante de Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas e diretor das ações do Festival BixaNagô.


Imagem da capa: Carybé


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