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UMA LUZ EM AGOSTO


Aconteceu em algum lugar do Mississippi. 


Ele pensou baixinho e nada além, no silêncio da sua alma. Então isso é amor. Entendo, eu também estava errado sobre isso, pensando como havia pensado antes e pensaria novamente e como qualquer outro homem pensou e pensará novamente: o quão falso se revela o livro mais profundo quando aplicado à vida. Talvez eles estivessem certos em colocar amor nos livros, ele pensou com lucidez. Talvez não pudesse viver em nenhum outro lugar.


O axioma é inescapável: um homem tem mais medo dos problemas que possa ter do que dos problemas que já tem. Ele se agarrará aos problemas aos quais está acostumado antes de arriscar qualquer mudança. Sim. Um homem falará repetidamente sobre como gostaria de escapar das pessoas vivas. Mas são os mortos que lhe causam os danos. São os mortos que jazem quietos em um lugar e não tentam segurá-lo, de um silêncio do qual ele não consegue escapar.


Um homem é a soma de seus infortúnios. Um dia você poderá pensar que o infortúnio iria cansar, mas então você nota que o tempo é o seu infortúnio. E é porque tanto acontece. Muito acontece. Até demais. E é isso. Ele realiza e engendra, muito mais do que pode ou deveria suportar. É assim que ele descobre que pode suportar qualquer coisa. É isso. Isso é o que é tão terrível. Que ele pode suportar qualquer coisa, qualquer coisa.


Mas ela também tinha uma palavra. Amor. Ela chamou. Mas ele estava acostumado com as palavras há muito tempo. Ele sabia que aquela palavra era apenas como as outras: apenas uma forma para preencher uma falta; que quando chegasse a hora certa, você não precisaria de uma palavra para isso, assim como para orgulho ou medo... Um dia eu estava conversando com Cora. Provavelmente no jardim. Era a décima-segunda noite. Ela orou por mim porque acreditava que eu estava cego pelo pecado, querendo que eu me ajoelhasse e orasse também, porque as pessoas para quem o pecado é apenas uma questão de palavras, para elas a salvação é igualmente uma questão de palavras.


Eu pensava em como as palavras sobem em uma linha tênue, rápida e inofensiva, e como o fazer percorre a terra de maneira terrível, agarrando-se a ela, de modo que depois de um tempo as duas linhas ficam muito distantes uma da outra para que a mesma pessoa possa andar de um lado para o outro conforme a conveniência dita, sempre na mesma direção; e que o pecado, o amor e o medo são apenas sons que as pessoas que nunca pecaram, nem amaram, nem temeram, pelo que nunca tiveram e não podem ter até que esqueçam as palavras.


Foi então que aprendi que palavras não servem; que as palavras nunca se ajustam nem mesmo ao que estão tentando dizer. Quando ele nasceu, ele sabia que a maternidade foi inventada por alguém que precisava de uma palavra para isso porque quem tinha filhos não se importava se havia uma palavra para isso ou não. Eu sei que o medo foi inventado por alguém que nunca teve medo; orgulho, por alguém que nunca teve orgulho.


A memória acredita antes que o conhecer possa se lembrar. O acreditar por mais tempo que a lembrança, por muito mais que qualquer desejo. O conhecer se lembra do acreditar como um corredor estreito de um prédio velho de tijolos escuros, com ecos frios e distorcidos, engolido por mais chaminés mofadas do que suas próprias, num complexo sem grama e coberto de cinzas, cercado por pátios fabris fumegantes e cercados por dez cercas de dez metros de aço, com uma breve janela de alumínio, por onde passam os alimentos. Como numa penitenciária. Ou num zoológico, onde, em surtos aleatórios e erráticos, indistinguíveis entre crianças e pardais e órfãos em uniformes azul denim, entrando e saindo da lembrança e do conhecer de muros sombrios, com janelas adjacentes pelas quais a luz entra em meio a tempestade, listrando-as como lágrimas. 


Embora as crianças possam aceitar os adultos como adultos, os adultos nunca poderão aceitar as crianças como outra coisa senão adultos. A razão pela qual você não dirá isso é que quando disser, até para si mesmo, você saberá que é verdade. Relógios aprisionam o tempo... que está morto, enquanto acionado por pequenas engrenagens; somente quando o relógio para é que o tempo ganha vida. A razão para viver é se preparar para jazer morto por um bom tempo. Somos humanos. E precisamos de nós mesmos.


Autoria: Cedric Antunes

Revisão: André Rhinow

Imagem de capa: Mississippi River Sunrise


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