CAPÍTULO UM

No texto de hoje, a Gazeta traz o primeiro capítulo de uma história colaborativa entre nossos redatores. O capítulo 1 foi escrito pelo redator Luca Mercadante. Ao longo das semanas, outros redatores irão completando a narrativa, fornecendo a ela uma expressão diversa e envolvente.


Este é o primeiro capítulo de uma história que não se sabe bem como começa, muito menos como termina. Vou começá-la pelo título e pelo subtítulo. Quem sabe com esse par tenhamos algum formato para nossa prosa. O título é: Quimera.


Saiba, antes de começar, que esse não é um conto de um escritor só. É feito de uma colaboração amigável que pretende desafiar a criatividade de cada um dos escritores. Não pense que o desafio é apenas para nós, leitor. Também propomos que você leia, entenda, critique e interprete essa colcha de palavras que está prestes a ser iniciada. Cada um escreve um capítulo, que será publicado aqui na Gazeta. Bom, leitor, eu começo.


Capítulo 1


Ele está sem palavras, não há o que dizer. Ele não a toca. Nem uma letra, nem um claque. Estão em apuros. O homem, então, sai desesperadamente pela porta dos fundos de sua casa. Não quer ser visto pela esposa. Ele não deveria estar saindo aquela hora: deveria escrever. Em seguida, a porta abre e aquele sopro noturno de ar, soca sua cara. Ele está livre de si mesmo e de seus dois amores: sua esposa e a máquina de escrever.


A noite está estonteante. O ar, fresco. As estrelas brilham, e o sereno cai. O frescor da noite vai se tornando um frio desconfortável. Avista um bar. Adentra. Algumas almas estão ali: umas vivas, outras, nem tanto. Pede um whisky para se esquentar. O relógio bate meia noite. Sua música preferida começa a tocar. Ele assovia no ritmo. E é, naquele instante de calma, que a euforia de estar livre passa. A solidão toma forma. Sua prisão é o que lhe dá significado. Um homem senta ao seu lado.


Grisalho, já em idade avançada, o homem pede uma cerveja. Com prontidão, o garçom lhe atende. Devia ser um freguês. “Vou lhe contar uma história”, diz o velho com uma voz rouca, mas amigável. Sem ter nada a perder, nosso escritor responde prontamente: “Uma história cairia bem”. Não se sabe muito bem o porquê de nosso personagem ter aceitado a história de maneira tão passiva. Talvez para fugir da solidão ou pelo desespero por escrever. Às vezes, sua decisão foi feita, simplesmente, por curiosidade. Fato é que ele se voltou para o velho e se pôs a ouvir.


“Sou bem vivido”, disse o homem. “Já estive em guerras, em lugares violentos, mas o que pretendo lhe contar são memórias mais alegres”. Com um sorriso no rosto, o homem continuou. “Nasci em uma pequena cidade no interior do Estado. Minha infância foi feliz: subia em bananeiras, aprontava poucas e boas”. Nosso escritor abriu um sorriso, e o velho resmungou: “Me parece que o senhor também aproveitou sua infância, não é mesmo?”. “Sem dúvida!”, respondeu o escritor. As lágrimas desciam de seus olhos. Seus primeiros anos tinham sido difíceis, mas eram as lembranças mais fortes de sua vida.


O velho, com um semblante de assombro, disse: “Mas ora! Vim aqui para descarregar minha vida em alguém, mas parece que quem precisa deixar se libertar é o senhor!”. O escritor sentiu todos seus músculos se contraírem. Era, literalmente, um profissional na arte de prosar, mas nunca havia lhe passado pela mente contar sua própria vida a ninguém. Nem a um leitor, nem a um desconhecido.

“Não sei se me sinto confortável em lhe contar minha história”, disse o nosso escritor. O velho prontamente respondeu: “Vamos, me conte!”. Contrariado, nosso protagonista se rendeu. Começou sua história: do começo.


“Nasci em uma cidade pequena com poucos mil habitantes, mas minha história só se tornará interessante um pouco mais para frente. Logo quando fiz 10 anos...” O senhor, de cabeça branca, entortou o pescoço, como se prestasse atenção. Nosso autor, sentindo-se acolhido, tomou mais um gole de coragem e prosseguiu.


“Quando completei meus 10 anos, meu pai faleceu e deixou pra mim um bela máquina de escrever. A saudade do meu véio se transformou em escrita. Escrevi, escrevi, escrevi... até meus dedos tomarem a forma das teclas. Mas nada daquilo fazia sentido algum. As palavras tinham profundidade, mas o conjunto não”.


A cabeça branca do homem acenou. Ele se levantou, chegou a porta do bar e disse: “Te dou duas opções. Venha comigo e termine sua história nesta fresca madrugada; ou nos encontramos aqui, nesse mesmo local e nessa mesma hora, amanhã”. Nosso escritor ficou pensativo.



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