CARA LAURA,

Cara Laura,


Sinto muito, perdi você na multidão. Sei que pegou o trem em segurança porque vi quando ele parou na plataforma e sei que você é muito pontual. Tudo bem, não é culpa sua não ter me esperado. Por mim, você já esperou mais tempo do que seria justo.


Escrevo então um adeus atrasado. É estranho como o tempo se prolonga dentro de uma carta. Sentei-me para escrever minutos depois que vi o trem partindo, e sabia que você estava dentro dele e eu, na minha grandíssima estupidez, te perdi de vista perto da banca de jornal. Talvez você tenha fugido de mim para evitar justamente uma despedida. Se for isso, por favor não corrija a minha doce ilusão de que foi só um desencontro. Prefiro acreditar que as besteiras que cometi não se acumularam a ponto de eu merecer ser abandonado no meio da plataforma. Não. Nos desencontramos e é isso. A estação estava muito cheia. É fácil perder-se de alguém. Deixe que eu acredite nisso.


Você me abandonou (ou melhor, nos perdemos um do outro) não faz mais de dez minutos. O trem foi embora e eu me sentei no primeiro café que achei dentro da estação e pedi papel e caneta. Então todo o choque de te ver partir, para mim, ainda está muito fresco.


Até que eu termine de escrever, peça a conta e vá até o correio para enviar essa carta, você já estará quase no fim da sua viagem. Quando eu chegar no correio, vou perceber que não sei o seu novo endereço e terei que procurar um telefone para ligar para a sua mãe e pedi-lo. Ela com certeza não vai ficar muito alegre em me dar. Só então eu poderia pagar por um envelope e enviar a carta. Claro, hoje é um péssimo dia para enviar uma carta. Amanhã é domingo, então já perdi um dia.


Se eu bem conheço correios, você deve estar lendo isso uns quatro ou cinco dias depois de eu ter escrito. Olhe só como o tempo já se desdobrou. O presente do qual eu escrevo se comunica com o presente no qual você lê. Dois presentes conectados por uma folha de papel. Só que o seu presente é o meu futuro. Eu estou dialogando com a você de amanhã. Poético, não?


Isso facilita dizer muita coisa. O meu presente é claustrofóbico. Não há muito espaço para respirar, quanto menos para conversar com você. Eu sei que eu sou o culpado por essa falta de espaço. Mas o seu presente é diferente do meu. Do meu ponto de vista, ele ainda é infinito justamente por não ter acontecido. Então eu faço uso de toda a liberdade que o seu presente (e o meu futuro) me proporcionam.


Antes que você comemore, já aviso que isso não é um pedido de desculpas. Eu me entristeço pela forma como as coisas aconteceram, mas se eu voltasse no tempo cinquenta vezes faria tudo exatamente da mesma forma, cinquenta vezes. E digo isso, não porque não gostaria de ter feito tudo diferente, mas porque sei que, naquela época, aquele era o melhor que eu podia dar. Aquelas eram as ferramentas que eu tinha. Eu sei que não foi o suficiente. Você está certíssima em subir em um trem e sair à procura do espaço que só cabe no futuro. Queria dizer que era meu desejo ir com você, mas ambos sabemos que mesmo que você tivesse me convidado, eu provavelmente não teria ido. Eu sou lento, eu precisava de tempo para ter dado a você o que você queria de mim, mas você não queria esperar. Não podia esperar. E tudo bem. Não era sua função esperar por mim.


Escrevo apenas para me despedir, porque odiaria ter que contar aos meus amigos no futuro sobre “minha amiga Laura. Ela foi embora para sempre e eu não me despedi”. Isso faria de mim o vilão da sua história e Laura, esse é um papel que eu não quero para mim. Então aqui está a minha despedida. Pronto. Agora você não vai poder usar a minha ausência contra mim. Viu? Sou uma pessoa muito prevenida.


Por último, eu te perdoo por ter, hipoteticamente, me abandonado na plataforma. Estamos de acordo que não foi o que aconteceu, mas caso tenha sido, está perdoada. Todos agimos com as ferramentas que temos à nossa disposição. Sei que no momento você provavelmente não tinha muitas, além de ir embora sem se despedir.


Divirta-se, mas não muito, se não vou ficar com inveja. Caso se divirta mais do que se divertia comigo, por favor não me conte. Peço que minta para mim e conte apenas sobre os livros que está lendo, o tédio da vida na cidade grande ou sobre a poluição. Sei que parece mesquinho, mas por favor compreenda. Sou eu quem está sendo deixado para trás. Acho que tenho o direito de demonstrar um pouco de ressentimento.


Não se esqueça de escrever. Talvez só a distorção temporal de uma carta nos permita dizer um ao outro o que nunca dissemos presencialmente.

Amo você, mas disso você já sabia.

C.



Crônica por Luiza Castelo

Foto da capa: Thomas Böttcher

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