CASO COMUM




- Se você fosse qualquer uma das janelas acesas dos prédios lá embaixo, qual seria?


- Aquela ali - apontei para a que me pareceu a escolha mais inteligente, tentando racionalizar a pura afinidade ingênua com uma luz qualquer. Que profundidade tosca. - E você?


Apontou para tão longe que eu não soube distinguir sequer o prédio. Entendi como uma brincadeira, mas não consegui rir. - Aquela.


Conversamos deitadas na cama desfeita de uma cobertura no Centro, reservada especialmente para o meu aniversário. Ao contrário do que se espera dos prédios históricos, o ambiente não tinha nenhuma personalidade, "mais amor por favor" e uma ilustração da Frida Kahlo usando a camiseta do Daft Punk em molduras coloridas acompanhavam a mobília ridiculamente prática comprada em lojas de departamento. Quase tudo poderia ser desmontado e encaixotado em minutos.


- Gostou do seu presente? Queria te levar pra dar uma volta no Autódromo de Interlagos, mas você teria que fazer um curso de seis meses antes de poder dirigir um carro lá - era comum que ela mostrasse que se lembrava de coisas desimportantes que eu havia dito há muito tempo, seu jeito de me assegurar que as conversas banais também a interessavam.


- Fica para o próximo aniversário - um ano era muito? Encostei a cabeça em seu ombro e sussurrei declarações inaudíveis até adormecer, torcendo para que um meteoro me prendesse eternamente àquele momento, ao mesmo tempo em que desejava que ela tivesse uma vida inteira de afetos pela frente.


Pela manhã, me levantei e apanhei do chão as polaroids da noite anterior. Outra decepção, o romantismo esperado da imitação não disfarçava a passagem das décadas. No escuro do quarto, silhuetas marcavam o espaço contra as luzes da cidade, a composição parecia perfeita, mas era impossível negar o século XXI. Peguei uma caneta e anotei a data no verso da fotografia.


- Fiquei pensando no que você disse ontem, sobre a falta de personalidade na estética do quarto, mas você não acha que nos anos 70 as pessoas olhavam em volta e pensavam o mesmo? - fez uma pausa como que para ter certeza de que acreditava no que estava dizendo. - Daqui a algumas décadas essa será a estética revolucionária dos 'vinte vinte' - concordei com um sorriso. Nada era simples com ela, havia sempre uma crítica além da crítica esperando para ser feita. A verdade é que ela era muito inteligente para mim, e sabia disso.


Na maior parte do tempo, isso não me incomodava. Eu entrava empolgada em debates infinitos sobre teorias das quais eu só havia ouvido falar, tentando não transparecer a minha inaptidão para os grandes temas da humanidade que obcecam a arrogância jovem. Só de vez em quando é que me faltava confiança para continuar. Meses antes, certa noite em que o vermelho do nosso sangue já se assemelhava ao bordô do tinto, perguntei se ela sentia falta, na nossa relação, das conversas intelectualmente estimulantes que tinha com seus pares. A resposta foi um acenar de cabeça lento e envergonhado. Engoli o nó na garganta e me prometi a não mais fazer perguntas cujas respostas eu não saberia superar.


- É muito louco pensar que um dia, quando a gente terminar... Quer dizer - ela acelerou a explicação, como se estivesse arrependida por quebrar as minhas expectativas. - Se um dia nós terminarmos... não vamos ter mais nada, e mesmo assim teremos vivido tudo isso - olhou ao redor do quarto, procurando algo que a inspirasse a continuar. - Todos esses momentos ainda vão ter acontecido entre nós quando não formos mais nada uma para a outra.


Aquelas palavras me atingiram com a dor familiar dos finais inevitáveis. Meus olhos percorreram freneticamente o espaço, tentando gravar em poucos segundos tudo o que gostaria de me lembrar quando já não existíssemos nós duas para falar sobre o que havia tomado palco ali. Ela me olhava tranquila, como se não houvesse derramado sobre mim o peso de saber o que se passava na sua cabeça.


- E quais desses momentos você vai contar para a próxima menina? - provoquei sem esconder o desconforto. Os olhos implorando para que desfizesse aquela sentença e reestabelecesse algum fragmento da paz que me foi subitamente arrancada.


- Para com isso, garota. Estou com você.


Até hoje não li nada que descrevesse de maneira tão vulgar aquela dependência declarada quanto um monólogo escrito por Robert McCammon. Coincidência ou não, me deparei com esse texto pela primeira vez na manhã seguinte ao que me pareceu a anunciação do nosso destino.


"E daí se eu precisava dela? Isso é tão ruim? Tudo bem, me crucifique, eu precisava dela! E daí? Eu não quero ficar sozinho. Quando estou sozinho, sinto que estou perdendo a cabeça. Eu me sento lá e fico pensando: esqueça, não vou sobreviver aos próximos dez segundos, simplesmente não aguento. Mas eu consigo, de alguma forma, eu atravesso os dez segundos, mas então eu tenho que fazer tudo de novo porque eles continuam vindo, todos esses... segundos, flutuando, enquanto eu espero que algo aconteça, eu não sei o quê, um acidente de carro, uma guerra nuclear ou algo assim, parece horrível, mas pelo menos haveria este instante em que eu sabia que estava vivo."


Remexi gavetas, procurei atrás das cortinas e embaixo dos tapetes. Revirei o lixo cogitando ter cometido um engano… nenhum sinal. Nunca achei o remédio que aplacasse a violência com que o tempo passava para nós.


- Às vezes acho que estamos insistindo em algo que não vai dar certo agora - sussurrei cada palavra esperando que ela me interrompesse abruptamente e me convencesse do contrário.


Também não aprendi as lições sobre aceitar a extinção dos amores, sobre as mortes necessárias e nascimentos surpreendentes que criam o verdadeiro relacionamento. "Os poetas compreendem que não há nada de valor sem a morte. Sem a morte, não há lições; sem a morte não há o fundo escuro contra o qual o diamante cintila.", achei num dos meus cadernos, não me lembro onde li.


- É, talvez… Também não sei o que fazer - ela respirou sem pressa, enquanto eu tentava esconder as lágrimas virando o rosto. Queria ouvir tudo. Gosto de ver o sangue porque tenho medo das hemorragias internas, que só são percebidas tarde demais. - Acho que a gente se desgastou muito… Estou meio de saco cheio.


A escolha de palavras me ofendeu. "Estou meio de saco cheio" não fazia jus à minha agonia. Naquelas palavras não cabiam os meses de devoção sem nunca pedir nada em troca. Pedia agora: que sofresse também a tortura implacável de não poder nos salvar. Me ofendi porque ela não partilhava da minha dor.


Não sei dizer se ela previu ou se provocou, com aquelas palavras, o que veio a seguir. Tentei o melhor que pude juntar tudo o que era seu, mas as coisas já estavam misturadas demais. Uma das camisetas acabou ficando e nunca encontrei motivo racional para não usá-la quando o cesto de roupas sujas está transbordando. Tenho quase certeza que um par de brincos ficou na cobertura, percebi um certo alívio em nunca mais ter que olhar para eles, mas às vezes os imagino balançando enquanto ela ri.


Não encontrei conforto nos poetas, e vivi da maneira mais humana o medo terrível de enfrentar o final, mas os segundos continuam vindo, de dez em dez, e eu continuo usando uma camiseta verde com dois furos nas costas.



Revisão: Julia Rodrigues e Letícia Fagundes

Imagem de capa: Camila Pessanha

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