CINEMA VS STREAMING?



Este texto contém spoilers de filmes antigos.


Dizem que a memória olfativa é a que dura mais tempo em nossas mentes.

~cheiro de pipoca amanteigada~

Lembra?

Saudades, não é?

Eu também.


Escolher um dos filmes em cartaz, comprar os ingressos, a pipoca, os doces e entrar na sala. E, então, passar pelo tapete vermelho iluminado pelas fitas de luzes LED, sentar-se, assistir aos trailers e vídeos de instruções e avisos (desliguem os celulares!). Por fim, desfrutar do longa-metragem. Essa lista de pequenas ações deixou de fazer parte de nossas vidas por um bom tempo devido ao isolamento social, mas agora, gradativamente, está voltando às nossas rotinas. Nos acostumamos com os serviços de streaming e seus benefícios, por isso, voltar aos cinemas será uma experiência muito interessante para cada um de nós, na medida em que aproveitaremos os diferenciais das telonas, mas sentiremos falta de alguns dos pontos fortes de ver filmes no sofá de nossas casas. Será que voltaremos às telonas na mesma frequência de antes da pandemia?


Cinema


Uma das minhas memórias mais antigas é de estar dentro de uma sala de cinema com a minha avó, assistindo a Nem Que a Vaca Tussa, filme que estreou no Brasil em julho de 2004. Isso significa que eu tinha pouco menos de três anos naquele dia. Nesse caso, acho que a lembrança não é forte devido a um cheiro específico, mas a uma sensação: o ardor do sal nos meus olhos depois de esfregá-los com a mão suja de pipoca.


Não acho que estou sozinha quando digo que lembro vividamente de grande parte dos filmes que vi nos cinemas, o que senti, com quem estava, onde foi e, às vezes, até das reações das pessoas na sala. Se a ciência diz que, provavelmente, são pelos múltiplos aromas envolvidos nessa experiência, eu acredito, mas acho que, mais do que isso, o que guarda esses dias tão profundamente na minha memória e na de muitas outras pessoas é que ir ao cinema, além de tudo, contempla a emoção que os bons longas despertam em nós: nos identificamos com os personagens, suas histórias e, às vezes, levamos — consciente ou inconscientemente — as lições dos filmes para as nossas próprias vidas. Nunca me esqueço de ver meu avô ainda aos prantos após o fim dos créditos e o acender das luzes quando fomos ver A Menina Que Roubava Livros, ou dos suspiros generalizados de quando Snape matou Dumbledore na Torre de Astronomia em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, ou dos gritos de quando Thanos estalou os dedos com a manopla do infinito e dizimou metade do universo em Vingadores: Guerra Infinita.


Dentro de um ambiente onde a única coisa que se pode ver é uma tela, ouvimos o barulho do gelo dentro dos copos de Coca-Cola, das mãos buscando a pipoca dentro dos baldes e, talvez, do celular de um ou outro desavisado, mas, fora isso, nos encontramos completamente imersos naquele universo que nos é apresentado. Lembro de, algumas vezes, procurar o cinto de segurança ao me sentar na poltrona. Não sei dizer o que se passava no meu cérebro, mas esse ato decorrente de uma simples desatenção ilustra muito do que ir ao cinema representa: uma viagem.


A última memória que tenho dentro de um cinema antes do início da pandemia é no finado Cinearte do Conjunto Nacional de São Paulo, que faliu em 2020 por falta de patrocínio. Vi Parasita e Adoráveis Mulheres, um em seguida do outro, sem saber que só voltaria às telonas um ano e oito meses depois.


Serviços de Streaming


É domingo, chove e faz frio. Moletom, cobertor e tudummm... Netflix. Ou então Prime Video, HBO Max, Globoplay, ou qualquer um dos quinze streamings atualmente presentes no Brasil. A praticidade, o conforto e a imensa gama de opções são apenas três da longa lista de bônus que essas plataformas nos proporcionam, em comparação com os empoeirados DVDs e cassetes, os canais de TV, ou mesmo o cinema.

Um grande diferencial das plataformas de streaming é a sua relação custo-benefício, principalmente em relação ao cinema. Em 2019, um ingresso para uma sessão de cinema custava em média 15,82 reais no Brasil, segundo o Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro feito pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Com este mesmo valor, pago para assistir a um único filme, é possível obter uma mensalidade inteira dos planos básicos de streamings mais acessíveis — como Apple TV+ e Amazon Prime Video —, ter acesso ilimitado a diversos filmes e séries por 30 dias e ainda ficar com o troco de 5,92 reais para a pipoca e o refrigerante.

Outro adendo é o catálogo de séries, que nos permitem estabelecer uma conexão com os personagens. Dentro do cinema, com exceção de quando é uma saga que você acompanha, ou um longa baseado em um livro que você leu, o vínculo com os personagens dificilmente será tão forte quanto aquele que você pode criar com o Chandler após 10 temporadas de Friends, por exemplo, ou com o Dustin em 3 temporadas de Stranger Things, ou com a Pam e o Jim em 9 temporadas de The Office ou com a Dr. Bailey em 17 temporadas de Grey's Anatomy. Até porque os episódios nos acompanham em diferentes períodos da nossa vida, às vezes durante anos.

Outro benefício dos streamings é a variedade em termos de filmes. É claro que os clássicos blockbusters que amamos também estão ali, mas, além deles, estão também os filmes suecos, coreanos, nigerianos, russos, indianos e muitos outros que, mesmo que você more em uma grande cidade, dificilmente estão disponíveis nos cinemas e, se estão, são exibidos em algumas salas alternativas não tão fáceis de achar. Não apenas pelo número de opções, mas pelo considerável tempo que passamos assistindo a essas plataformas durante a pandemia, a tendência é que tenhamos ao menos tentado diversificar nossos gostos com filmes e séries diferentes. Segundo a Kantar IBOPE Media, nos doze primeiros meses de pandemia, os brasileiros passaram em média 1 hora e 49 minutos por dia assistindo a conteúdos em plataformas de streaming. No mesmo período reservado para essa atividade, antes podíamos fazer uma gama de coisas que hoje ainda não podemos. Por isso, às vezes acabamos vendo longas que antes do isolamento estavam longe de ser prioridade dentro daquele tempo que guardávamos para o lazer.

Ao contrário do que ocorre com as sessões de cinema, minha memória tende a ser impressionantemente ruim para o que assisto nos streamings. Talvez pelo número absurdo de horas que eu tenho ocupado com isso nos últimos meses, ou então pela própria natureza da coisa. Enquanto uma ida ao cinema exige que escolhamos uma roupa adequada o suficiente para o clima do dia e para o ar condicionado das salas, que pensemos no nosso meio de locomoção e uma porção de outros pequenos planejamentos, com os streamings basta se sentar no sofá e ligar a televisão que você tem 40 minutos de qualquer série e o próximo episódio em 5, 4, 3, 2….

Só porque é cômodo, prático e temos feito com muita frequência, não quer dizer que seja impossível ter experiências marcantes com o streaming também. Consigo lembrar de várias: acordar às 4 horas da manhã para acompanhar a estreia da terceira temporada de Dark com a minha família e passar 12 horas ininterruptas no sofá, certamente foi memorável. Maratonar Harry Potter com minha prima de 13 anos, que nunca tinha assistido antes, e acompanhar as reações dela foi inesquecível, como se eu estivesse vendo pela primeira vez. Ficar com a barriga doendo de tanto rir com Modern Family é sempre incomparavelmente sensacional. Por isso, admito sem vergonha: tem dias que eu não troco uma “sessão cinema” no sofá de casa por absolutamente nada.

Um ou outro?

Após um ano e oito meses de pandemia, o streaming já tem um lugar especial em nossas rotinas, e o cinema certamente tem uma sala VIP no coração dos que tanto o frequentavam. A questão é que estamos desacostumados com ele. Tive minha primeira experiência pandêmica e já percebi os reflexos de quase dois anos de exclusividade do streaming. Senti aquele impulso de pausar para fazer um café — ou qualquer outra coisa — e deixar para terminar no dia seguinte. O filme tinha 3 horas, mas acho que, mesmo se durasse metade do tempo, isso também ia acontecer. Foi fácil desviar a atenção, senti dor nas costas por não poder deitar ou me mexer muito, queria um cobertor e umas almofadas e, por estar acostumada com episódios de 20 a 50 minutos, 180 minutos passaram muito devagar.

Eu, pessoalmente, assisti a muito mais séries do que filmes nessa pandemia e a minha estranheza em voltar ao cinema provavelmente vem da diferença gritante em seus formatos. Mesmo que quase nunca assistamos a só um episódio por vez, os roteiros de séries são mais rápidos: chegamos ao clímax de um episódio com 10 minutos ou 20 no máximo e nos acostumamos com isso. A sensação estranha com certeza não será eterna, é questão de costume, mas eu esperava mais da minha primeira ida ao cinema depois de quase dois anos. Não vejo a hora de me acostumar de vez com as telonas.

Sobre a possibilidade de substituição completa dos cinemas pelos streamings, sou um tanto quanto cética — ou quero desesperadamente ser. Afinal, eles resistiram ao surgimento das TVs no século passado. Não só isso, mas agora temos telonas em 4K e até cinemas da própria Netflix e, mesmo o finado Cinearte, agora vai reabrir como Cine Marquise e contará com duas salas da Globoplay. Acima de tudo isso, temos de pensar: as pessoas sentiram falta o suficiente de ir ao cinema na pandemia a ponto de voltar a frequentá-los, mesmo com o comodismo dos streamings? Tenho fortes razões para acreditar que sim. Seja o melhor sofá do mundo, com um belo home theater, nada supera a viagem que é ir ver um filme no cinema.




Autoria: Beatriz Bernardi

Revisão: Beatriz Nassar e Bruna Ballestero

Imagem de capa: Georges Méliès, Viagem à Lua (1902) [Vox Media]



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