COLORIDO EM PRETO E BRANCO


Uma prosa poética sobre a vida em preto em branco. O nosso redator Gabriel dos Anjos descreve como é viver na mesma rotina cercado pela monotonicidade de uma cidade cinzenta e compartilha conosco o desafio de viver destacado do resto, com uma essência além de uma nuança grisalha.




Hoje descobri que sempre me levanto no escuro e só acordo com a luz.

É curioso. Entro no carro cinza, passo pelas avenidas pintadas de preto e branco, semáforos pretos piscando em três fases brancas iguaizinhas, entro na faculdade: desespero em preto e branco. Imito cada um dos seres humanos acinzentados olhando para baixo sorrindo e olho para mim mesmo: estou de verde claro e azul escuro; ou de azul claro e azul escuro, e minha pele na sua tonalidade natural de quem raramente toma muito sol. Acho muita graça como sou diferente!

Um parêntese: sempre escolhi bem as roupas. Combinações de cores que faziam sentido e agradavam o olhar, ainda que fosse só para mim. Se alguém pudesse ver, notaria.

Duas reações são imediatas. Preocupo-me, tiro-me do sossego. Me lembro: tenho cor e outros não. Me despreocupo. Inflo meu ego e do alto dele reconheço: sou mais inteligente, mais gentil, mais garboso, menos preso à rotina, menos desequilibrado, menos encantado pelo tédio. Por isso mereço a diferente coloração.

Ainda não convencido, olho atentamente para cada rosto. Correção: não é curioso, é assustador. Em meio à multidão, cada um que diariamente anda pelas ruas paulistanas tem aqueles olhos rotativos de desenho animado de criança. Reforço meu ponto: mereço ter cor. Não são perto do que sou. Sou consciente da felicidade, do amor, da dor, das perdas, dos exageros. Em suma: sou, enquanto não são.

Até que chegou hoje. O primeiro dia de luz do século. Não parecia diferente de ontem, senão por um detalhe: senti vontade de contar sobre minha consciência para todo mundo que era preto e branco e, finalmente, salvá-los. No caminho não olhei para os lados, na faculdade não observei os rostos, nem olhei para mim mesmo. Estava incomodado: para quem eu diria tudo aquilo? Quem eu escolheria para ser o primeiro a receber um pouco de cor? Quem estaria pronto para aquele derramamento sutil, mas que tiraria os olhos rotativos? Ninguém parecia merecer.

Estive fisicamente incomodado: cheguei a desmaiar. Minha visão girava – curioso, não costumava sentir-me mal. Não me preocupei: nem comigo e nem em explicar para os outros, e dei uma desculpa qualquer – não podia confiar em ninguém antes da minha decisão.

Já fazia luz há um tempão. Vaidoso que sou, olhei-me no espelho. E estou aqui. Incrédulo. Olhando para mim mesmo.

Demorei, mas notei que de manhã escolhi me vestir de preto e branco. Blusa preta amassada, feição cansada e pálida. Sorriso insatisfeito, mente preocupada: sem saber se levava o desassossego no bolso ou na alma. Não sabia se guardava no bolso da calça branca ou na alma descolorida de cinza.

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