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DEPOIS DA TORMENTA



Com os pássaros, irei compartilhar.


Compartilhar as dores que guardei no peito. Tão mal guardadas que já não me recordo de onde encontrá-las.


Com os pássaros, irei compartilhar.


Compartilhar o desejo de estar tão alto quanto eles, distante dos problemas que puxam para baixo e seguram firmemente.


Com os pássaros, irei compartilhar.


Compartilhar o amor, que nunca deixou de estar presente, mas nem sempre fui capaz de compreendê-lo da maneira como deveria ser compreendido.


Com os pássaros, irei compartilhar.


Compartilhar essa vista solitária. Visão que arde nos cegos e passa despercebido por aqueles que a tudo veem.


Com os pássaros, irei compartilhar.


Compartilhar todas as minhas cicatrizes e machucados. Cada um deles tem um lugar especial na minha vida.


Com os pássaros, irei compartilhar.


Compartilhar meu desejo de saber daquilo ao qual não tenho coragem de ir atrás. Compartilhar meus medos, que nem mesmo eu consigo explicar.


Com os pássaros, irei compartilhar.


Compartilhar os quadros em branco e as canções inexistentes que fiz para eles. Me perdoem, não foi minha intenção.


Com os pássaros, deixei de compartilhar.


Deixei de compartilhar o melhor que poderia oferecer. Deixei de compartilhar os mais ingênuos e honestos pensamentos que tive. Pensamentos que eles sempre souberam que estavam lá, mesmo que eu não tenha dito uma palavra sequer.


Com os pássaros, deixei de compartilhar.


Deixei de compartilhar minhas angústias, meus sofrimentos e fraquezas. Talvez algum dia eles entendam.


Quem sabe assim eles voltem para me buscar.


Quem sabe algum dia compartilhem comigo tudo aquilo que viram em seus voos. Tudo que sentiram e deixaram de sentir.


Comigo, irão compartilhar.


Compartilhar suas melodias. Compartilhar a vista depois da tormenta. Compartilhar a vida quando é vivida lá do alto, de onde os problemas estão distantes e a brisa é refrescante.


Compartilhar as dores que guardavam no peito. Tão mal guardadas que despencaram durante seus longos voos, porque pesavam demais e os impediam de chegar a alturas inimagináveis.


Quem sabe volto pássaro em outra vida, para fazer da melancolia algo melódico e libertador.


Autoria: Rafael Diz Motooka da Cunha Castro

Revisão: Sofia Nishioka Almeida e André Rhinow

Imagem de capa: Pinterest



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