EFEITO GUERRA: O QUE APRENDI COM UM AMIGO UCRANIANO?



Todas as pessoas referidas neste texto tiveram seus nomes alterados e identidades preservadas.


As portas do avião se fecharam, senti a pressão do cinto de segurança sobre o meu abdômen e, como em um espetáculo de nado sincronizado, os comissários de bordo se dispuseram sobre as apertadas poltronas da classe econômica para discorrer sobre as normas de voo. Não me incomodei em dividir o metro quadrado com os outros dois estrangeiros ao meu lado, nosso grau de intimidade se elevava em progressão geométrica à medida que nos acotovelamos por acidente e verificavamos de rabo de olho ao que o outro assistirá a bordo. Minha conexão fora através do Heathrow Airport, em Londres, e deveria levar cerca de 11 horas para concluir o primeiro trajeto. Meu destino final, Milão, estava a quase 24 horas distante de mim por conta do enorme tempo de conexão que decidi acatar em solo inglês.


Ao decolar, olhei pela janela e deixei para trás muito daquilo que cultivei no decorrer da vida. Meus pais, que estavam no estacionamento de Guarulhos retornando para casa. Meu irmão, que não pôde estar presente, porque advoga, e o escritório exige alta dedicação. E meus amigos, que no mínimo estavam dispostos ao redor do mundo naquele momento. Despi-me do Brasil acreditando encontrar em outro continente histórias imperiais, paisagens paradisíacas, massas e sorvetes artesanais. Não é mentira, encontrei tudo isso. Mas, em pouco mais de uma semana em solo italiano, também conheci pessoas cujas famílias deixaram seus países à força e jamais puderam retornar, outras que nem mesmo o patrimônio abundante permitiu menor preocupação e, acima disso, conheci pessoas que já não têm qualquer alternativa, porque seus próximos foram consumidos pela guerra.


Não precisei percorrer as estradas da Lombardia, mergulhar nos editais de organizações sem fins lucrativos ou investigar voluntariados regionais em mídias sociais para encontrar essas pessoas. Foi na cozinha do 1˚ andar da minha residência estudantil, com cerca de 12 pessoas, que cruzei com um grupo de ucranianos também recém-chegados na capital. Lyuba, com pouco mais de 18 anos, vive hoje na Alemanha junto de sua família e iniciou os estudos na Itália, porque se tornou inviável permanecer em sua pequena cidade natal, próxima à Kiev. Katya, um pouco mais velha, teve sua família dividida: a mãe vive hoje na Polônia e o pai ainda está em território ucraniano — me disse em nosso primeiro contato que pensa em cursar seu doutorado na Itália para evitar voltar ao seu país. E, por fim, também conheci Pavlo, mais alto do que eu, apaixonado por chás ao fim do dia, de olhos azuis cristal e cabelos alourados. Para ele, a guerra é uma questão honrosa, quase que involuntariamente me informa das dinâmicas de recuperação do território, aguarda por todo e qualquer comunicado de Volodymyr Zelensky e mantém contato com sua família para verificar se todos estão bem via Telegram, aplicativo usado em abundância no país.


Pavlo é um estudante de Direito na National University of Kyiv-Mohyla Academy, ele cursa na Itália uma extensão em Direito Global na mesma instituição que eu e atua no time de projetos da Clooney Foundation for Justice, organização sem fins lucrativos de Amal e George Clooney. Navega entre a seriedade do cenário atual e a leveza do cotidiano com maestria, circula entre as pautas do futebol ucraniano e as temáticas da jurisprudência europeia em velocidade ímpar, é capaz de lhe arrancar um sorriso em minutos com uma coletânea de bobagens e, no momento seguinte, te fazer ouvir por tempo indeterminado o que tem a dizer.


Em um trem saído de Chiasso, enquanto fazíamos um passeio entre a Suíça e a Itália, presenciei pela primeira vez ao seu lado aquilo que tomei a liberdade de denominar o "efeito guerra". Para além das palavras de historiadores, que de fato são tão valiosas, ou dos registros fotográficos que já marcam períodos seculares, a teoria da relatividade geral aqui se faz presente e a variável tempo se confunde. O "efeito guerra" é a apreensão constante junto ao telefone, no aguardo de uma boa notícia, é a retomada ao passado com as aflições de entes perdidos. Mais do que isso, o "efeito guerra" é a experimentação científica da incerteza: nela, o indivíduo que vivencia o conflito não só imagina a si mesmo, como também aos seus iguais, em tantos possíveis resultados probabilísticos. Não há estatística capaz de determinar quanto um indivíduo pode questionar o seu próprio amanhã.


Nesse trem, Pavlo recebeu a notícia ao meu lado de que a Rússia havia atacado usinas elétricas na Ucrânia, incluindo a segunda maior estação "Kharkiv TEC-5", ocasionando interrupções generalizadas de energia ao redor do país, a morte de inocentes e um incêndio em uma das estações centrais. Ali, sentado ao meu lado, Pavlo se desfez. Se desfez porque sua mãe, no momento do ataque, acompanhava seu avô no hospital próximo da região atingida. Se desfez, porque aquilo representou uma tentativa de escassez de calor, fome, escuridão e sede, nas palavras do Presidente Zelensky. Se desfez porque seu pai, a partir daquele momento, encaminhou constantemente dezenas de mensagens com atualizações para que ele estivesse ciente do contexto geral. Sou incapaz de descrever em maiores detalhes o que aquele momento representou. Não se explica o efeito guerra.


No dia 19 de agosto de 2022, embarquei no voo BA0246 e me sentei na poltrona 56C. Até agora, minhas maiores lições estiveram fora da sala de aula.




Autoria: Anônimo

Revisão: Beatriz Nassar

Imagem de capa: Reprodução/AP