ENTRE AS QUATRO PAREDES DE UM QUARTO QUALQUER



Sou vítima da minha própria introspecção.

— Sylvia Plath


Acordo e vou até a cozinha colocar a chaleira para esquentar. Depois, vou até o banheiro de azulejos verdes do apartamento e olho para o meu reflexo assim que ele aparece no espelho. Minhas bochechas estão vermelhas por causa do frio e minha franja virou um emaranhado de fios pretos que pairam sobre a minha testa. Por algum motivo, a minha boca sempre aparenta ser maior ao acordar. Queria que fosse assim sempre. Lavo o rosto e algo na água que escorre me reanima e me acorda.


Volto à cozinha para passar o café que eu, em algum tipo de sonambulismo, depositei sobre o filtro de papel. Fui ensinada que a hora certa de desligar o fogo é quando há bolinhas na água, antes de atingir a fervura, para o pó não ficar com gosto de queimado. Tomo café na caneca que roubei do meu antigo trabalho. Cinco gotas de adoçante, ou mais. Devia ser crime adoçar o café puro, mas eu gosto, porque me dá a sensação de estar comendo uma sobremesa logo de manhã.


Volto ao quarto para abrir a janela e arrumar a cama. Sento-me sobre a colcha bege que escolhi com a minha mãe depois que ela foi me buscar na rodoviária em alguma sexta-feira dos últimos três meses. Ela havia me perguntado se não era melhor escolher algo com mais cor ou com alguma estampa, pelo menos. Eu disse que não. Que gostava assim. Encosto a cabeça na parede e termino meu café com as pernas flexionadas sobre a cama. Ainda acho impressionante a rapidez com que meu corpo reage a este líquido preto que acaba de tocar meus lábios e que me faz saltar da cama em direção à lavanderia. Nunca tive tanta energia.


Era dia de faxina. Eu havia dito isso a todos os meus amigos na noite anterior. É uma coisa que eu faço para me lembrar de fazer certas tarefas e atrelar certo senso de obrigação a elas. Vou ter que cumprir. Um péssimo hábito ao qual eu venho tentando pôr um fim.


Limpo a casa em silêncio. Sozinha com os pratos que deixei no escorredor, com a xícara de chá esfriado da noite anterior que descansa sobre a mesa de cabeceira e com as roupas que esqueci de tirar do varal. Que paz. Linda e vazia, que nem a garrafa de vidro transparente que eu deixo sobre a escrivaninha com a promessa de que irei comprar flores para dar uma animada no ambiente, ainda em tons de bege. Tudo que eu fiz a minha vida inteira foi implorar para ficar sozinha.



Se caísse dura neste exato momento, morreria feliz. Sem nenhuma perturbação. Só eu e um pano com cheiro de lavanda do lustra-móveis que usei para limpar a bancada da cozinha antes de varrer o chão.


Eu tive alguns quartos ao longo da minha vida. Quando morava com meus pais, vivia enfurnada em um deles. Ficava escutando música ou lendo por horas. Pensava que tinha nascido para morar sozinha. O que tem acontecido ultimamente é que esse êxtase que descrevi até agora dura muito pouco. Estar entre as quatro paredes que eu tenho só para mim me sufoca cada vez mais.


O cheiro doce de baunilha da vela do lado da cama me enjoa e o travesseiro com fronha de cetim que eu comprei para não amassar o cabelo durante a noite é a coisa mais desconfortável sobre a qual eu já descansei a minha cabeça. A janela que abre de um jeito engraçado e que tem vista para a parede de outro prédio não recebe quase nenhum raio de luz e algo na paleta de cores do meu armário faz eu querer comprar roupas novas a todo momento. A maquiagem que eu guardo debaixo da cama fica inutilizada por dias até que eu decida sair e fazer alguma coisa e o barulho da avenida faz meu estômago revirar e me dá vontade de vomitar sempre que me imagino do lado de fora. O lençol rosa-bebê é a única coisa que me traz um pingo de satisfação.


Algum dia de julho em Perdizes


Estava deitada no sofá quando recebi uma mensagem da minha tia. Ela me mandara um poema, sem nenhum comentário a mais, dias antes de eu me mudar da casa dela e ir morar sozinha.


“Sobre ser dependente da independência”


No momento em que li aquilo, meus olhos encheram-se de lágrimas e eu fiquei meio zonza. Dormi mais cedo todos os dias daquela semana, porque estava cansada com o trabalho e porque interagir com pessoas estava me dando vontade de chorar. Eu acordava, pegava um ônibus até o escritório, encarava a tela de um computador por oito horas e depois pegava outro ônibus de volta para casa. Ela deve ter percebido que eu estava miserável.


Algum dia de julho na Vila Mariana


Estava sentada em uma cadeira estofada quando duas amigas revelaram que a mais sensível das três era eu.


— O que? — perguntei confusa em um lapso de segundo. — Eu!?


Aquilo me pegou desprevenida. Sempre me achei tão racional e controlada. Nunca pensei que falasse o suficiente para sequer dar margem a essa interpretação. Foi só quando comecei a escrever com frequência que percebi que talvez elas estivessem certas e eu realmente sentisse com alguma intensidade. Coisa que pareço ter conseguido esconder até mesmo de mim.


Algum dia de agosto no interior


— Você não fala o que tá pensando, como que eu vou adivinhar??????? — foi o que a minha mãe me disse ao virar para o banco de trás do carro em uma das únicas vezes em que a gente brigou feio.


Eu queria voltar para São Paulo mais tarde do que havíamos combinado, porque ainda tinha algumas coisas para resolver em casa, mas simplesmente não conseguira verbalizar essa vontade a tempo. Isso acontece muito. As palavras apenas não saem.


Algum dia de setembro na Paulista


— Não me sinto eu mesma e não sei o que está acontecendo — resmunguei desesperada para uma amiga enquanto ela sentava à minha frente na mesa da cafeteria que fica ao lado de casa. Ela havia se oferecido para me encontrar lá após me ouvir chorar por telefone. Eu estava em uma semana de azar e fui recebida por ela com um abraço apertado quando cheguei lá.


— Senti sua falta nos últimos dias — ela disse.


Vimo-nos todas as manhãs, porque estudamos juntas. Mas, eu me trancara no meu quarto todas as tardes daquela semana, porque estava nervosa com algo que nem me lembro mais. E aparentemente eu não estava presente nos momentos em que estivemos juntas.


 

Isolo-me com uma facilidade impressionante. Às vezes, fico tão imersa nos meus próprios pensamentos que me perco e é como se estivesse me afogando em uma solidão que eu criei para mim mesma. Descobri que estar longe das pessoas, na verdade, me entristece. Por mais que eu queira acreditar que fico bem quando estou só, eu nunca estive realmente sozinha. Nunca na minha vida. E descobri que nunca quero estar.


Depois que percebi isso, a vida melhorou. Acho a maneira como todas essas pessoas me desvendam de novo e de novo em dias quaisquer de meses quaisquer muito bonita. E ainda me surpreende a facilidade com que aqueles de quem eu mais gosto conseguem me ler após eu tanto tentar me esconder entre as quatro paredes de um quarto qualquer.



Autoria: Beatriz Nassar

Revisão: Guilherme Caruso e Gustavo Vandresen

Imagem de capa: @mylovermarijuanax2 no VSCO