ESTAMOS PRESTES A EXPLODIR




Estamos dentro de um barril de pólvora que está sendo constantemente abastecido - e falta pouco para explodir. Fato é que vivemos uma crise econômica, política, das estruturas democráticas, além de sanitária e humanitária. Retornamos para o mapa da fome e pobreza extrema¹ e estamos diante de completa omissão por parte do governo federal no gerenciamento de um plano de ação para lidar com a pandemia, ou mesmo um esboço para um plano de vacinação. Desde o golpe em 2016, a oposição está paralisada e atônita. Estamos perto dessa estagnação chegar ao fim. Engasgados, esperamos a vacina para colocar o país na rua.


Dizem que a noite é mais escura antes do amanhecer. Gostaria de poder dizer que estamos no ápice da escuridão, e que nosso dia e primavera estão a chegar. No entanto, imagino que não seja o caso. Estamos no meio de uma tempestade que, infelizmente, não tem previsão para passar. Pois, então, que a luz deste momento seja como a de um relâmpago em meio à tormenta para iluminar a noite.

Os danos da COVID-19, as destruições ambientais, a derrocada da economia, o negacionismo e o anticientificismo que infectaram grande parcela da população não convalescem rapidamente. A recuperação depende de colocarmos um fim à nebulosa fascista aumentando os custos dos atos antidemocráticos e da omissão de nosso governo, assim como aumentando a participação pública ativa de nosso povo. Precisamos que a população, como sociedade civil, coloque um basta no governo genocida. Apesar de tantos crimes de responsabilidade, o capital político de Bolsonaro, fundido à falta de vontade de Rodrigo Maia, adiam a abertura de um processo de impeachment.


O momento da oposição sair desse congelamento vivido desde 2016 está chegando. A fórmula mágica de um governo opressor, aumento da desigualdade e da pobreza, acompanhados de uma crise econômica, é uma velha conhecida dos países do “terceiro mundo” ². O levante popular nestes locais pode demorar, mas costuma ser categórico em mostrar ao governo que a população não tem “sangue de barata”. Infelizmente, a falta de uma vacina tem provocado um atraso na garantia da segurança para que as pessoas saiam à rua para clamarem por seus direitos e pela retomada democrática. Assim, as pessoas estão focadas em outra preocupação, a de sobreviver.


Além de estarem chorando a morte de seus familiares, a população está tendo que lidar com o desemprego dentro de suas casas, com a criação de novas formas de garantir o sustento da família, com inquietações provocadas por questionamentos sobre se os seus pais e filhos estão se protegendo ao irem para o trabalho, e com a dúvida de que se terão o que comer. Dessa forma, o coronavírus, ao mesmo tempo em que criou o caos que demanda, mais do que nunca, a retirada de Bolsonaro do poder, também ergueu barreiras e ludibriou as pessoas para fazê-las focar nessas dificuldades estonteantes. Em meio a esse completo desespero, não há como querer que não organicamente a população brade o fim deste governo.


Fato é que, sem a população na rua, a pressão popular se torna pouco visível para que o presidente da Câmara dos Deputados dê início ao impedimento do presidente. Apesar das pesquisas de aprovação, muitos deputados dependem da comprovação por meio de manifestações físicas da população para saber para qual lado devem se posicionar. Assim, mesmo que a oposição arquitete sua base, a necessidade do “Centrão” comprar a ideia do impeachment é contundente nesse processo que, só vai se concretizar caso saiba que é o que seus eleitores querem.


É fundamental apontar, nesse sentido, a existência de base legal para a retirada do presidente, mesmo entendendo que tal processo seja muito mais político, fundado na perda de base dos deputados e na aceitação da população. Considera-se como ato de responsabilidade fato que atente contra a Constituição, independentemente de ilegalidade ser praticada. Bolsonaro atentou contra direitos fundamentais da saúde e vida da população, os quais deveria resguardar. A falta do plano de contenção da doença, recomendação de remédios ineficazes, negacionismo constante à ciência fizeram do Brasil epicentro do Covid-19 e tiveram-no como responsável principal. O estopim da necessidade do impeachment, no que tange aos seus atentados à vida e saúde, foi a asfixia praticada por ele em Manaus. Ignorando a situação previamente conhecida de que o estado poderia colapsar, permitiu que o caos se instaurasse pela falta de oxigênio nos hospitais.


Rodrigo Maia e seus seguidores continuam contando a si mesmos a mentira de que “um processo de impeachment seria prejudicial e teria um enorme custo político ao país” ou que “o fato dele ter 30% de apoio da população não permitiria que fosse levado adiante” para justificar sua mão fraca ou a correspondência dos seus interesses. Dessa forma, a pressão popular é o único modo de garantir a queda de Bolsonaro, que sabe disso, e tem preparado sua legião de fiéis e suas milícias como pode.


A facilitação da compra de armas e munições e a tentativa de aumentar seu controle sobre a polícia militar fazem parte do preparo para tal e servem de demonstração de seu dolo perverso e criminoso. Seu discurso antivacina, seus constantes flertes com a ditadura, ataques à democracia e sua simpatia com um golpe de estado confluem para seu objetivo de criação do caos. Está sendo criado um cenário que tem tudo para que o conflito entre a oposição e os apoiadores do governo seja o mais violento possível desde nossa retomada democrática pós ditadura. Tudo vai conforme os planos de Bolsonaro para que uma guerra civil tome palco no país.


À oposição, clamo resistência. Não nos esqueçamos que aqui se respira luta.



Autor: Miguel Guethi

Revisão: Glendha Visani e Letícia Fagundes

Imagem da capa: @raphabaggas


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¹ https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/noticias/brasil-de-volta-ao-mapa-da-fome#:~:text=Isso%20significa%20que%20quase%205,Mapa%20da%20Fome%20%C3%A9%20inaceit%C3%A1vel.


² Chile em favor da nova constituição ou mesmo contra Pinochet, os países da primavera árabe, Colômbia em 2019 e Nicarágua em seus conflitos de 2018 e 2019 são exemplos da população se colocando na rua para lutar pelo que acreditam e confrontar o governo.

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