ESTOU CANSADA, ME LEVE AONDE OS POETAS IAM PARA MORRER



Nunca fui uma pessoa ansiosa. O ano em que prestei vestibular foi muito tranquilo, mesmo durante o processo em que eu tive que escolher uma carreira que, com sorte, não me fará miserável pelo resto da minha vida. Em outras palavras, não passei por grandes sofrimentos que pudessem ter sido derivados da pressão que é jogada sobre as costas de crianças que estão prestes a completar o ensino básico – fiz dezoito anos no início do mês e, por isso, agora o meu complexo de superioridade me permite chamar menores de idade de crianças. Mas a faculdade chegou como um plot twist horrível para a história da minha vida, cuja única função é provar que não sou tão mentalmente estável quanto pensava.


As aulas começaram em fevereiro. Em abril, tive uma crise de choro que durou uma semana inteira por causa de um trabalho de História. Por que é tudo tão difícil? Eu não trabalho e estudo apenas durante meio período do dia, mas mesmo assim não consigo conciliar todas as leituras obrigatórias da faculdade. Por que é tudo tão difícil? Eu escolhi esse curso porque amo escrever, mas meus professores veem minha escrita como meu maior defeito. Por que é tudo tão difícil? Aparentemente, todo mundo da minha sala sabe falar uma terceira língua que faz o meu inglês parecer um acessório patético, ou então possui uma dicção impecável que faz eu me questionar se realmente sei falar português. Por que. é tudo. tão. difícil?


No livro How to Do Nothing: Resisting the Attention Economy, a professora universitária Jenny Odell argumenta que os seres humanos criaram um mundo em que o valor dos indivíduos é determinado por sua produtividade. O comportamento obsessivo e a sede de estudantes universitários por validação acadêmica reside em um medo legítimo das consequências de ter um baixo rendimento em uma sociedade capitalista. Eu, por exemplo, morro de medo de nunca conseguir um emprego com o diploma que me esforço tanto para conquistar. Minha parte favorita do livro é quando Odell defende que “assim como a extração de madeira e a agropecuária em larga escala, uma ênfase excessiva em performance transforma o que antes era uma paisagem densa e próspera de pensamento individual e comunitário em uma fazenda da Monsanto cuja ‘produção’ lentamente destrói o solo até que nada mais possa crescer”.


Jenny Odell, autora de How to Do Nothing


Se dependesse só de mim e de mais nenhuma variável, como família, amigos ou o fato de que preciso ganhar dinheiro para sobreviver, eu me mudaria para o campo e viveria como um poeta árcade desejava viver. Com fuga da cidade e tudo. Fugere urbem. Indo experimentar minha fantasia cottage core em um chalé no meio da floresta ou em um campo de flores com borboletas e pássaros. Eu adotaria um gato e nós tomaríamos chá no meio da tarde, quase como Alice, no País das Maravilhas. Os seres humanos são mesmo muito bons em criar mundos alternativos para os quais podem escapar dentro de suas próprias cabeças enquanto aquele que eles construíram cai aos pedaços. Na música The Lakes, a cantora norte-americana Taylor Swift implora para que a levem "para os Lagos, onde os poetas iam para morrer". Quando canta esse verso, ela se refere ao Distrito dos Lagos, na Inglaterra, onde grandes poetas românticos da literatura inglesa, como William Wordsworth, passaram seus últimos dias.


Pintura original de Peter Coulthard de um pastor, seu cachorro e suas ovelhas no Distrito dos Lagos, Inglaterra


Capa do álbum Folklore de Taylor Swift, que contém a faixa The Lakes


Lamentavelmente, a maioria de nós não pode largar tudo para viver uma vida campestre. Em How to Do Nothing, Odell discute que diferentes pessoas possuem margens distintas de renúncia à produtividade. O quanto um indivíduo é capaz de arcar com as consequências de resistir aos hábitos estimulados por um sistema capitalista, geralmente, está relacionado às vulnerabilidades sociais e financeiras desse mesmo indivíduo. Talvez fugir da cidade seja viável para um velho branco aposentado, talvez fazer um esforço para dormir 8 horas por dia seja viável para uma estudante universitária que não trabalha e talvez nada disso seja viável para uma mãe solteira que vive de um salário mínimo. A verdade é que resistir à cultura da produtividade quase nunca é a opção mais fácil em uma realidade na qual a exploração de um indivíduo é diretamente proporcional a quão essencial o sistema de valores capitalistas é para a sua sobrevivência. No final das contas, estamos todos cansados o tempo todo. É lógico que adoraríamos abandonar o trabalho e ir aonde os poetas iam para morrer se pudéssemos, porque lá seria tudo tão mais fácil.


Autoria: Beatriz Nassar

Revisão: Bruna Ballestero & Guilherme Caruso

Imagem de capa: Mariana Hashimoto/Pinterest



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