"EU ODEIO ROSA"

Acredito que toda mulher que leia esse texto possa se identificar com algum trecho, pelo menos. O texto de hoje é da nossa redatora Laura Kirsztajn!


Acredito que várias meninas tiveram uma fase na infância (ou até na adolescência) na qual elas bradavam para todo lado: “eu odeio rosa”. Eu tive. Talvez tenha sido mais discreta quanto a isso, mas foi um aspecto relevante na minha socialização na escola.


Odiar rosa era ser diferente das meninas que amam rosa, vestem rosa, usam prendedores de cabelo rosa, cadernos... até a mochila delas era rosa. Ser diferente era ser superior ou alguém que já tinha ultrapassado algum grau de maturidade. Mal sabia eu, no entanto, o quão infantil era culpar a cor rosa por isso.

Às vezes, odiar a cor rosa era mostrar que você era capaz de escolher as próprias roupas, e que não seriam do jeito que foram a sua infância inteira. Era copiar o comportamento de alguma amiga que dizia odiar rosa a todo momento. Provavelmente ela copiava o próprio irmão, que não queria usar “cor de menininha”. Talvez vocês odiassem as garotas que usavam rosa.


Eventualmente você e as várias outras garotas amadureciam, e aí se davam conta que o problema não era a cor rosa, e que ter preferência por uma cor nem sempre é algo muito profundo ou que denote intelectualidade em relação aos demais.


Você odiava rosa porque você queria se afastar de estereótipos femininos, que, para você, eram extremamente negativos. Não por serem estereótipos, pois até hoje eu odeio qualquer um. Esse ódio era porque você não queria ser uma “menininha” e tudo associado a esse universo de gênero que nos é apresentado desde que nascemos. Você queria ser tão incrível e livre quanto os garotos.

Ainda, para algumas, não parecer uma garota, ou não agir como uma, era dar um passo para que os meninos gostassem de você e te aceitassem em seus meios sociais. Você era especial em relação às outras garotas vestindo rosa justamente por evitar agir ou se vestir como uma delas, uma menininha.


Esse tipo de comportamento não é incomum e nem acaba na infância. Muito pelo contrário, nós o vemos todos os dias. Algumas dessas garotas, seja as que usavam rosa, seja as que usavam tudo menos rosa, cresceram e agora falam que “odeiam feministas” e “não são como as feministas”. Não só reafirmando uma certa feminilidade, baseada em estereótipos sobre feministas, como demonstrando que são diferentes de outras mulheres, e que homens que também odeiam rosa, digo, feministas, podem gostar de você. Essas mulheres querem mostrar que são superiores e melhores que esse grupo de mulheres, assim como alguns se sentem especiais por gostarem de estilo musical X ou Y, isso tudo para receberem algum tipo de aceitação até nos ambientes mais anti-mulheres. Às vezes o topo da cadeia social só é penetrável quando você odeia aquilo que é.

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