FGV: MICROCOSMO DA ELITE



(Este relato é um corpo humano. Não disse de quem e nem de que — direi. Se falaremos do agradável, dirá você. Se tocaremos do fino som ou se futuraremos a exposta ferida, dirá quem sente. Existe a possibilidade disso tudo ter sido sonhado e escrito após uma única noite, mas não sei — o coração é polar. Provavelmente não haverá conclusão. Poderá ser, então, um anti-texto, militante do anticlímax. A estética da escrita não deveria se irritar, pois, em posições dessa, a arte segue imitando a vida, por mais que a vida descrita, com certeza, não teria sido a mesma sem a arte. Ora, a vida é isso: um acumulado de desenvolvimentos cuja introdução e gênese mal lembramos, a não ser pelo contar de nossos pais, e cuja conclusão mal sabemos quando e como ocorrerá. A vida, portanto, vive no objetivo de ser eterna, apesar de sempre ser sabido que ela não será; e é isso o que a instiga e o que acredito que o instigará aqui, se por um acaso este texto servir moderadamente ao propósito pelo qual foi escrito. Que nós sigamos explorando essa imensidão de corpo e de corpos como se tudo fosse eterno, antes que a conclusão fatal chegue).


Comecemos, então, pelos cabelos matagais. Em Jundiaí, as coisas não vão andando muito bem. Vão correndo — isto sim! —, e no sentido contrário ao que pensávamos, na velocidade do urbano. Na latência de amargos sentimentos, sempre me entristeci pelo defrontamento com a impossibilidade de contemplar o mar ondulando por esses desafinados cantos paulistas — a imagem dum olhar cabisbaixo esperançoso declamava uma tragédia. Talvez o mundo fosse melhor (ou então nem fosse mundo), se a cabeça não elaborasse mais rabiscos do que conclusões quando caminha pelo cotidiano. Por conta dessa vulnerabilidade posta pela condição humana, parece que alguém aproveitou-se dessas inexatidões. O caminho rumo à praia parecia constantemente mais distante da minha morada e irregular, quando comparado às veredas traçadas por pares paulistanos. No entanto, agora há mar por aqui, embora seja impossível de ser desbravado em canoas e remos: os guardiões dessa praia não aceitam parcelamentos como forma de pagamento, além do fato que ele — o Novo Mar — não mais é capaz de refletir minha face em realidade. Foi invadindo a Serra do Japi sem pedir licença, perimetrizando a cidade, arrancando todo arvoredo que encontrava, sem poupamento de qualquer pedacinho de história duramente construída. O nível da maré Dele — do Novo Mar —, até hoje, não para de subir: serra serra a serra. Em algum lugar, justificam com aquecimento global, mas tudo aqui é muito frio e sem consentimento. Vai enforcando as bordas da cidade, reduzindo o natural ao exótico. Oceanos de condomínios cinzamente habitados foram privatizando as redondezas.


O caminho para a FGV não é muito destoante: poucas cores distinguem-se comparando peles humanas. Dizem que estou chegando na melhor da América Latina. São Paulo é uma boca beiçuda que te recebe com inúmeras possibilidades e que te colhe com uma mão aveludadamente pianística. Dizem que estou chegando na melhor da América Latina. Mas as configurações rearranjam-se quando já se percebe o bafo do Tietê, o qual principia anunciar as contradições constituintes de uma jogatina supostamente meritocrática. Dizem que estou chegando na melhor da América Latina. Subindo a esteira rolante do metrô, já na Avenida Paulista, mendigantes arranham céus com moderação numa altura factível, contrastando com o sonho certamente presente e desejado por colegas num labirinto espelhado por bancos e pessoas em solitude, despossuídas e despersonalizadas. Correndo-correndo-correndo: todos nascem em atraso, comem em atraso, amam em atraso — qualquer estranhamento é vulto, mais um minuto aqui equivale a mais uma dívida para quitar. Dizem que estou chegando na melhor da América Latina. Ainda na Rua Itapeva, habitantes do Centro de Atenção Psicossocial induzem a população gvniana a esbanjar a eficácia de apagar os outros por meio de vidros fumês. Finalmente dentro da faculdade, orgulham-se desses metros quadrados tombados como se estivessem vivendo um sonho e indignam-se deles não terem a mesma harmonia de Pinheiros, Higienópolis, Itam ou Vila Olímpia… Fico confuso se foi o inferno que subiu ou o céu que fugiu. Dizem que estou chegando na melhor da América Latina


E não nos precipitemos para descrever os pés; se bem que, uma vez aqui em cima, novas perspectivas e filosofias sobre a relatividade da distância entre as coisas vão sendo acendidas. Após chegarmos à boca, é necessário sobreviver à carnificina colonial provocada pelos dentes. Os caninos provavelmente vêm de Bandeirantes, de Dante ou de Miguel. Violentam como se esta fosse sua natureza e não pudessem fazer nada. Berram em inglês, como se este fosse seu idioma natural, como se viajassem ao menos uma vez todos os anos para o exterior, como se o aeroporto e o mundo fossem tão acessíveis, como se um almoço de cinquenta reais estivesse no cardápio comum aos brasileiros. “Nesse feriado irei fazer um bate e volta para o Rio de Janeiro”, “quando eu estive em Barcelona...”, “no meu intercâmbio...”... Aonde fomos incluídos? Numa verruga — pequeno ponto na imensidão do corpo, causador das vergonhas, limite da beleza e concentração da doença. Mas, apesar de ricos, grande parte é surpreendentemente iletrada, pois, por mais que se compre ou se possa mandar buscar conhecimento, o excesso tem amizade com a má vontade: uma estante de livros não entra sem ajuda, mesmo se a cabeça facilitar ao ser oca. Coçaram a pinta preta sadicamente e estão pintando-a por todo o ser. A pureza branca da derme vai se transmorfando em putrefação. Entrei numa caverna ou me dei conta de que o céu é o teto de uma muito maior?


Entretanto, a boca felizmente não é a única via de se adentrar rumo ao mundo interior que descamba para os bastidores de todo esse marketing. As vias respiratórias são complicadas de se atravessar — a saúde está resfriada e nos repele de minuto em minuto. Tentativas de encaixe são sempre falhas, então se retira insistentemente outra parte de si mesmo a fim de que se harmonize e se desaperceba entre ou cores formalmente azuis e brancas ou entre pretos e amarelos divertidos, batuqueiros e descompromissados. E não fiquemos apenas tristes: uma batalha ardida sempre traz reais ensinamentos: todo mal tem um bom lado, mesmo que seja pequeno e frágil. Basta ter fortuna que a pandemia faz suas concessões para acabar mais cedo: um atestadinho falso de comorbidade para a vacinação, uma imigração em tempos sensíveis em direção a terras já desmascaradas, uma festa privada num contexto de proibição de farras entre ruas populares. Tudo bem, não sejamos injustos. Provável que exista ao menos um sentimento de culpa causado pela observação distante da cidade em choros ao passo que se é compelido, enquanto indivíduo, a agir apenas através de palavras, discursos e estudos. Mas será que tal incômodo supera a irritabilidade provocada por ser obrigado a fazer uma prova à distância enquanto a maré de Ilha Bela não dá tréguas ao barco, o qual chacoalha o notebook, além de ter que aturar estudantes contratados para ajudar em uma prova, mas que não conseguem entrar em consenso algum a respeito das alternativas a serem assinaladas? Sobre dignidade entendem e, por conta disso, nunca conheceram a falta dela. Teriam provado da agonia de esperar ad eternum o cessamento da dor gotejante numa fila de hospital? Glorificam a beleza de viver num reino biopolítico no qual os ratos possuem direito à vida, mas a realidade está tão desfigurada que a dignidade, amiga de todos os motivos para se viver, parece encontrar-se distanciada das políticas sociais.


Como estamos aqui no mundo do fantástico, tiro licença para cravar que, ao conseguir superar essas entradas que mais parecem saídas, chega-se ao coração de todo este enorme corpo. E parece que quanto mais tento me aproximar deste coração formado por inúmeros coraçõezinhos, mais me distancio, esbarrando em sensíveis paredes de espinhos. Demonstra-se amor do jeito que se sabe, mas o que saberiam sobre as centenas, longas e pensativas baldeações para poder, quiçá, tomar um cafezinho e quem sabe segurar numa mão com alguma sorte de duração? Sobre gastar o que não se tem para ver o que não corresponde com quem provavelmente não quer enquanto se é o que não se é? Como conversar tão de perto com o PIB? São? Possuem? Esses olhos todos que compraram passagem para ver o mundo a partir de escassas perspectivas foram fazendo eu esquecer que existiam cores nele.


Em algum momento no futuro, o cérebro projeta o rio Tamanduateí acordando do fundo da cidade. São Paulo, no passado soterrado, o encheu de terra e foi construindo-se entre trancos e barrancos. “Itapeva”, em tupi-guarani, significa “pedra chata”. Quem é a pedra? Quem fez isso com ela? Crateras entre asfaltos abrindo-se é o que será. Uma água forte e antes soterrada percorrerá toda a cidade em direção às salas de aula. Tampas de esgoto sendo arrombadas para os ares como fogos de artifício é o que será. O cruzamento com a Avenida 9 de julho, em remetência à 32, é passado e premonição. Catracas sendo arrombadas e voando para todos os lados. Pessoas desordenadamente correndo enquanto a água lamacenta levará tudo em cascalhos, pedaços e remos. Encherá os prédios de alguma coisa mágica e misteriosa — todos os andares até chegar no último. No topo, encontrará os mandantes e irá se metamorfosear em algo claro o suficiente para dar vazão a línguas, símbolos, sinais e sentimentos. Irá falar de modo estranhado e ruidoso, sem ser compreendido num primeiro momento. Ao longo dos tempos, o pavor provocado naquelas alturas ensinará a cabeça deste grande corpo a escutar de modo diferente. Será conhecida, então, uma língua deveras arcaica, mas, até então, muda, quieta e salivante — sedenta por dizer-se existente e fazer-se ouvir durante todos esses anos de país. Falará uma última vez, desenvolvendo os arredores em beleza e equanimidade, aos poucos, em alto e bom tom: “Escuta-me, entenda-me: transformar-nos-emos.”



Autoria: Gabriel Linares Fernandes

Revisão: Beatriz Nassar

Imagem da Capa: Enciclopédia Itaú Cultural