FIM DE FEIRA

O texto de hoje é do nosso redator, Felipe Takehara. Já foi em alguma feira de rua? Tenho certeza de que todos já devem ter ido, mas já parou para pensar como as ruas ficam sujas depois? Para quem sobra o trabalho de limpeza?

Seus olhos amendoados os denunciavam impreterivelmente: eles não são daqui. Com movimentos simples e arredondados, dobram a massa, recheiam o corpo e o escaldam em óleo quente. São japoneses fritando pastéis. Em uma feira perto de casa, eles têm uma tenda onde vendem a popular iguaria, e parece que a receita é das boas – amontoam-se os fregueses. É uma barraca relativamente pequena, com toldos vermelhos caídos e esqueleto metálico. Há um varal estendido de uma ponta à outra da barraca, nele estão pendurados vários cartões que identificam os diferentes recheios, bebidas e o preço dos quitutes.


Um casal de idosos descansava escorado na lateral de uma kombi antiga, estacionada na frente da barraca de pastéis. O veículo também é barraca. Reparei nas bolsas, pochetes e mochilas no seu balcão: têm de couro, crochê, náilon, e até de barbante trançado em lacre de latinha de refrigerante. Uma na frente da outra, a barraca de pastéis e a de bolsas ficam na entrada da feira. Estão a saudar os que por ali passam e salvaguardam por este lado toda a rua, como se fossem baluartes.


Distribuem-se ao longo da rua outras barracas. Não preciso vê-las para saber o que estão a oferecer, basta o grito dos comerciantes. Laranjas, peras, laranjas-peras, maçãs, kiwis, abacaxis, mangas, uvas, melancias, bergamotas, ameixas, os vários vegetais, os peixes, as roupas, os brinquedos e a comida pronta. É uma feira de fato. Diria até que bem completa, não obstante a curta extensão da rua em que se encontra.


Confortavelmente as pessoas transitam entre as barracas, apesar do pouco espaço em que se abundam os balcões e os baixos toldos. Deduzo este conforto dos sorrisos largos e das sacolas cheias, resultado de uma inquirição minuciosa e fineza ao barganhar. Assim eu observo o movimentar desse comércio, as pessoas que procuram, as famílias que conversam, o vociferar dos vendedores, o balançar dos toldos, a rua que transborda: do ápice ao eclipse. Este que me comove.


A medida que os fregueses saem e a hora do almoço passa, os pequenos comerciantes iniciam o desmonte de suas tendas. Os japoneses, que aparentam ser uma família, começam por dobrar a lona e recolher o varal. Deixam por último a estufa em que ficam os salgados: os que sobraram ainda poderão ser vendidos caso algum atrasado chegue, naturalmente. O ruído alto de velhos caminhões anuncia sua entrada na rua. Imagino que deve haver um consórcio entre alguns feirantes, pois diferentes barracas desmontadas vão para o mesmo caminhão. Todos guardam o estoque que sobrou e descartam o que não se pode consumir mais. Pilhas de sacos pretos se amontoam como ilhas numa fina superfície de gelo derretido, onde os peixes outrora se deitavam.


A quantidade de lixo que fica sobre a rua é brutal. O que não teve a sorte de ser posto nos sacos fica espalhado pelo chão. Os guardanapos da barraca de pastéis ficam dançando nas calçadas conforme o vento, isso quando não se molham, pois molhados se transformam numa massa adesiva que se fragmenta nos sulcos do asfalto. Misturam-se no chão restos de palha de milho, cascas de mandioca, sementes de jabuticaba e bitucas de cigarro. Tudo perfumado pelo aroma de tabaco e peixe do mar. É claro, os comerciantes não deixam simplesmente jogado todo o lixo na rua, eles fazem sim um esforço para recolhê-lo – precariamente, contudo.


Mas brutal mesmo é observar que a labuta de limpar toda essa sujeira foi delegada a um só: há apenas um “gari” para varrer e ensacar o lixo da rua inteira. Vê-lo sozinho empurrar com o escovão todo aquele refugo é muito deprimente. Por algum tempo fiquei na calçada parado, observando-o e refletindo. Ele é um homem negro, de rosto rugoso, pequena estatura, e dorso levemente curvado. De súbito me ocorrem lembranças do que aprendi: a interminável escravidão no país, o ser tratado como coisa, o açoite diário, a libertação que não veio, o preconceito da cor, o morar em favelas, o perene trabalho, as portas fechadas, a morte gratuita… tudo despertado pela figura daquele homem – que vertigem! Atordoado, olhei para ele novamente. Os braços tristes empurravam lentamente a delgada cruz. Parecia que estava chorando…

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