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Uma virtuosa narrativa sobre a fragilidade humana. O nosso redator Felipe Takehara expende, através da rotina de um simples trabalhador, o epílogo natural da vida




É madrugada. Na dormente vizinhança há apenas um par de olhos abertos. Além dos grilos, ouve-se o ruído de alguém que está cansado. É o jardineiro que mora num casebre, depois do final da rua, preparando seu café. Sentado vendo as chamas queimarem o fundo da chaleira rústica, suspira: sabe que hoje o trabalho não será pouco, como, aliás, nunca foi.

O café está pronto. Toma um gole, dois goles, foi-se um copo. Procura algo para mastigar, mas não encontra. Serve mais um gole de café, toma-o e vai arrumar suas ferramentas. Preparando-se para sair, abre a caixinha onde guarda suas economias. Nela, há o suficiente para comprar alimento para este mês. Pega alguns trocados, quer apenas algo para comer de manhã – pode ser pão ou algum biscoito duro, o que o dinheiro permitir. Antes de deixar o casebre, retira da cabeceira da cama um rosário de plástico, aperta-o na mão, ajoelha-se e reza. Apesar de pobre e pouco instruído, é um homem que sabe de seu dever-dívida com Deus; todos os dias uma parcela é paga com alguma prece ou algum trocado no bolso de alguém mais pobre. Amém.

Levanta-se, apaga as brasas que ainda ousam queimar no fogão de barro e agarra suas ferramentas. O saco que as carrega está se esfacelando, é um antigo companheiro. Pensa em substituí-lo, quem sabe por algo melhor, de metal, com travas e alças, mas sabe que não há dinheiro. Abre a porta do casebre e mergulha no crepúsculo. O trabalho está longe e para alcançá-lo depende da boa vontade de suas pernas. Caminha, anda, trota, dá a volta, espera, caminha, espera novamente. Finalmente chega à residência. Um sobrado grande, em um terreno maior ainda, quadrado, cercado de altos muros e moitas verdes. O gramado é vasto e faz tempo que não foi cuidado, está rude. Há também uma pequena horta entre o sobrado e o início do gramado. Cuidará dela depois.

É um sujeito que, apesar das pobres ferramentas e inexistente instrução técnica, faz sempre o máximo que pode. Seu preço é barato, pois, ao lado de outros que trabalham com máquinas e auxiliares, a competição o obriga a cobrar cifras modestas. Começa fazendo a poda das árvores e das moitas. Difícil é atingir o contorno correto de cada planta, definir seus perímetros, de maneira que o traço do rude se torne belo, ubiquamente belo. Mas não o é, de fato, para este homem, que ao iniciar precocemente esta labuta de artista dos caules e das folhas, adquiriu maestria e precisão no corte. Varre o chão, recolhe os restos das plantas, ensaca-os e os despeja.

Hora de dar às plantas de beber. Para este serviço utiliza um regador, que anteriormente ele mesmo requisitou aos residentes, pois percebera em outros momentos que ao fazê-lo com a mangueira se gasta água demais. De fato, nota-se a presença de uma consciência elevada neste homem, não obstante o miserável berço e os pais ausentes, pelo simples fato de atentar-se para a escassez de recursos e o cuidado no modo de empregá-los, como é o caso da água, ainda que neste microcosmos de um jardim. Está terminando de regar a horta. Já encheu e esvaziou o regador o suficiente para pressentir em sua consciência o incômodo do desperdício caso o fizer novamente, e ainda estão secos os rabanetes, o pé de limão, e os pequenos cactos ornamentais repousados na mureta do canteiro.

O jardineiro, justo homem que é, resolve a controvérsia fazendo o que cabe aos homens justos em situações análogas, isto é, a justiça: dar a cada um aquilo que merece – aos olhos do julgador, naturalmente. Encontram-se, pois, os rabanetes encharcados, a terra discretamente suada aos pés do limoeiro, e nenhum sinal de umidade na pele dos cactos. Não há mais água no regador. Ao olhar sobre as verduras, percebe que uma lagarta está prestes a devorar o que restou das folhas de um dos rabanetes. É comum nos homens justos, ou naqueles que se julgam justos, a sabedoria de aplicar o raciocínio abstrato que distingue o certo do errado nas suas ações concretas, que, estendido ao limite, implica em igualmente saber e, portanto, definir qual é o correto destino e o modo de ser – ou não ser – dos outros homens e das coisas. O jardineiro, então, retira a lagarta da planta e naturalmente a esmaga em sua mão.

O céu começou a escurecer, está ficando tarde. O exausto homem recolhe seus pertences e os coloca no velho saco. Os calos nas suas mãos já estão dormentes, não sente mais a madeira das ferramentas em sua palma, apenas um contato morno e seco. Recebe o que lhe devem, agradece, despede-se e começa a caminhar para seu casebre. Já próximo das suas redondezas, muito cansado, para, ajusta seu saco – que pesa como o mundo sobre seus ombros – e volta a caminhar. A lua já ostenta seu brilho perante as estrelas. Ao avistar uma mercearia fechada, lembrou-se de que precisava comprar algo para o desjejum, isto é, esqueceu-se. Entra na sua vizinhança. Naquele horário não se anda nas ruas, não com as mãos puras. Começa a pensar na sua obra para esquecer o cansaço e a fome de amanhã. A figura de um jardim suntuoso, um vasto e pujante tapete verde impecavelmente cuidado, com moitas e pequenas árvores proporcionalmente tosquiadas, surge em sua mente. É uma conquista, pensa, é o que guiará minha pobre vida ao sucesso e à fartura, este trabalho no qual sou mestre.

De repente sente algo gelado encostando na sua cabeça, um pouco acima da nuca. Um estouro ecoa pelos ares. O sangue escorre e dilui levemente a terra incrustada nos cabos das ferramentas. O ladrão vasculha seus bolsos e agarra o que recebeu hoje. Vira-se, anda para o outro lado e desaparece. O homem que era, não é mais nem homem, nem jardineiro. Está morto. Sua história, seu credo, sua justiça, seus sonhos, assim como seu sangue, pela terra serão absorvidos – e não se conseguirá distinguir o que era homem, o que era sonho, e o que era estrume. A morte encerra uma vida, independentemente de ela ter sido longa ou breve, notável ou irrisória, com esse aspecto de inutilidade. Torna uma simples narrativa, que verossimilhantemente poderia ser a vida de alguém, numa trama sem sentido – uma história inútil.

A nossa vida assim é, em alguma medida. É curioso, pois ainda que em partes da nossa história haja a percepção de significado, percebe-se que no todo não há ou nunca houve algum. Significado e propósito são para os homens o mesmo que os brinquedos são para as crianças: fonte de contentamento, satisfação e entusiasmo. Como alguns homens, a criança curiosa, encantada com seu brinquedo, deseja saber como ele é por dentro. Quebra-o, pois, para ver suas entranhas, e ao final, encontra-se assombrada – o brinquedo que era belo, que era tudo, está irreconhecível – destruído. Assim, torna-se interessante para muitas, após a infância, colocá-los, se ainda estiverem inteiros, em altos pedestais, intocáveis, para que assim seja possível conservá-los sem que haja o perigo de algum dia arranhar sua fina pele, e se encontrarem em prantos. A história de um jardineiro, que semelhante a de muitos, isto é, ter vivido, sofrido, sonhado, e morrido, encontra-se esvaziada de propósito. Houve algum sentido nisso tudo? Há algum significado na morte? Qual é o propósito de morrermos? Uma faceta incômoda da existência humana, sem dúvida, isto é, morrer o humano, assim, sem aviso prévio, sem significado: inútil e gratuitamente.

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