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HUMANAS



"Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar porque falar salva." - Clarice Lispector


nunca me dei bem com números. a matemática sempre me pareceu excessivamente objetiva, não deixando quase nenhum espaço para o erro. os mesmos números somados levam sempre ao mesmo resultado. tudo isso é maçante demais. galileu dizia que a matemática é a língua com a qual deus escreveu o universo. acredito que ele só disse isso pois nunca leu um livro da clarice lispector. tenho certeza que todas as respostas que procuro estão nas palavras escritas por essa mulher, só não consegui compreender ainda. 



mesmo assim, às vezes penso que gostaria ter nascido com o dom dos números. não me entenda mal, considero o dom das letras uma dádiva, mas ele sempre vem acompanhado de um preço muito alto. as letras são as maiores aliadas da interpretação, e mesmo que mantenham a mesma ordem dentro de uma simples frase, podem ser entendidas de inúmeras formas diferentes, e nunca compreendidas de maneira absoluta. 



há sempre tantas formas de dizer algo e tantas maneiras desse algo ser compreendido que várias vezes me pego agoniada com a possibilidade de nunca ter entendido nada certo em toda a minha vida, tamanha é a infinidade de sentidos advindos de uma simples combinação de letras. uma palavra é simplesmente uma palavra, até um dia em que ela se tornar mais que isso. as coisas sempre são o que não são, e quando acho que finalmente cheguei em algum lugar, penso mais dois segundos e acabo me perdendo de novo. tudo é uma questão de ponto de vista, mas sinto que eu sozinha possuo perto de uns trinta pontos de vistas diferentes. 



acho que é por isso que, por mais que não goste de admitir, também nunca me dei muito bem com palavras. acho que é por isso que escrevo. nunca fui boa em dizê-las, pois sempre fico congelada frente à vastidão de possibilidades e esqueço de transformar palavras em voz, não fazendo nada além de silêncio por um tempo longo demais. também nunca fui muito boa em pensar nelas. a falta da necessidade de me fazer ser compreendida por alguém faz com que as palavras voem pela minha cabeça de forma desordenada, me fazendo até esquecer que elas já tiveram sentido em algum momento. então, para que eu consiga colocar as palavras para fora, me sobrou a escrita. e apenas ela.



pelas minhas próprias regras, os mesmos números somados quase nunca levam ao mesmo resultado. e nas minhas inúmeras tentativas de adivinhar o resultado dessa equação, me pego pensando que no fundo nada daquilo faz o menor sentido. mas não é como se eu me importasse, afinal, nunca me dei bem com números mesmo.


 

Autoria: Victorya Pimentel

Revisão: André Rhinow

Imagem de capa: Spoonflower


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