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ISSO NÃO É UMA RECEITA DE BOLO





Escrever não é complicado. Acho eu, ao menos, que pode ser mais simples do que a maioria das pessoas pensa. Claro, não é como uma receita de bolo, claro, não há uma fórmula pronta para se atingir um texto perfeito como há para se atingir uma massa de chocolate perfeita, mas não é assim difícil como pintam.  


A primeira coisa, é claro, é ter uma boa ideia. Nenhum texto nasce sem uma boa ideia antes. Não importa o que seja, tudo pode gerar uma boa escrita e resultar em uma redação que chame a atenção. Hum… na verdade importa sim. Se a ideia for complicada, para atingir um certo público alvo, talvez seja um pouquinho mais trabalhoso. Mas algo sai, isso com certeza!


A segunda coisa importante, algo preciosíssimo no mundo de hoje, é dedicar um tempo bom para o seu texto. Isso inclui, ainda, espaçá-lo em mais de um dia para que você, com as diferentes cabeças moldadas pelo cotidiano, possa reler e enxergar melhorias. Reler e enxergar, também, o que você pode mudar para que certas pessoas não te enxerguem como um perigo ao controle exercido sobre o mundo pelos mais fortes. Controle quente, pelando, quase como um forno assando aquela massa de chocolate perfeita da receita. Mas aqui não tem forno, essa é uma não-receita. 


A terceira coisa, a qual julgo ser a mais importante, é conhecer seu público. Saber quem estará  lendo e, acima de tudo, o que esperam de você. Você precisa entregar o que o povo quer, mas, lembre-se, tem que tomar cuidado para não entregar demais. Quem te lê nem sempre o faz apenas por apreço pelas suas palavras. Às vezes, somos lidos para sermos controlados. Seguindo esse último passo, certamente não corremos riscos de sairmos das boas graças do nosso público, nem de sermos repreendidos por alguns ou atacados por outros. 


Claro, pode ser simples para a maioria, mas é uma eventual tortura para outros, que encontram justamente nesse terceiro passo um mundo de complicações. Corte esse parágrafo. Mude essa palavrinha aqui para soar menos direto. Não publique esse texto, pode pegar mal. Arrume esse título tendencioso. Reformule as frases rudes. Pronto, redondinho, perfeito, um texto impecável. Viu? Não tem receita de bolo, mas tem receita de polidez, de padronização, de silenciamento. 


Algumas vezes, as circunstâncias forçam as pessoas a se omitirem para se preservarem. Retrato do mundo, acredito eu. Vivemos em uma sociedade de dicotomias, de lados muito bem estabelecidos e que determinam, previamente, quem dita as regras - ou escreve as receitas - e quem as seguem. No fim, a massa de chocolate perfeita vai sair do forno, mas talvez as suas palavras de raiva não saiam de dentro de você. Afinal, é mais fácil se manter longe de conflitos.


Adicione alguns elogios. Mude o tom para soar mais gentil. Escolha eufemismos para descrever as situações. Voilà. Siga a não-receita e tudo ficará bem. Dê asas para a sua imaginação, mas não a deixe voar tão alto. Seja sincero com o que você quer expressar, mas saiba mentir quando exigido. 


Sem complicações, fácil e rápido…


Na verdade, penso melhor e afirmo: escrever só não é complicado quando feito de forma tediosa, banal, supérflua. Quando o autor escolhe não tocar em nenhum ponto de incômodo, nem mesmo evocar sentimentos no público. Realmente, assim fica muito mais fácil colocar em palavras as ideias. Um escritor morno gera um público morno, que gera uma sociedade morna e um sistema morno. Morno como aquela deliciosa massa de chocolate saída do forno. Receita certeira, mas que pode ser monótona depois de um tempo. Nem sonhe em adicionar algo a mais para dar um must, pode ser arriscado fugir do que foi instruído. Melhor ficar no senso comum, no seguro. 


Mas daí não tem graça, ou tem? Escrever por escrever perde o sentido. Palavras vazias não têm impacto algum e sem impacto não há nenhuma movimentação para a mudança, sejam as interpessoais ou as sociais. Talvez seja esse o objetivo da não-receita da escrita. Servir aos leitores um delicioso prato de nada, uma sopa de letrinha sem gosto e sem significado. Eles gostariam disso, para assim manter sob controle qualquer atitude que emule um singelo resquício de descontentamento coletivo. 


Fazer isso é fácil. Dar o que é exigido sem arranhar a superfície de um problemão. Dificil é o depois, aceitar bem esse suicidio intelectual cometido. Encaixe-se com esse grupo ou escreva para aquele outro, adicione algumas pitadas de discursos vazios, uma hashtag e pronto, a não-receita mais uma vez foi bem sucedida. Problemas evitados, público - e seus superiores - contentes. 


Tudo certinho. Texto redondo. Sistema morno. Cabeça do escritor queimada. Fácil, molezinha. Não é?


Hum, pensando melhor…


Retiro tudo o que eu disse. Escrever é complicado, muito mesmo. Olhe para mim, enrolando por vários parágrafos para chegar ao meu ponto, apenas para fazer você, leitor, também chegar até o fim desse texto. Escrever é complicado quando se teme ser odiado por suas escolhas de palavras, quando se acredita não ter mais uma boa ideia ou quando se tem medo de se expressar livremente. Escrever é muito, muito complicado. Prefiro cozinhar. Ah sim! Cozinhar me parece mais adequado. Existem centenas de receitas a serem testadas, numa segura cozinha. Instruções claras, sem atrair a ira de ninguém, sem levantar debates ou se queimar com as pessoas erradas. Só com o forno.


Escrever é ruim… ou péssimo… ou horrível. Escrever não está com nada. 2024? Alguém ainda lê? Acho que sim, mas só aqueles que desejam manter o controle. Certamente temos leitores nessa revista eletrônica de uma mísera entidade estudantil. Afinal, ler os sentimentos e opiniões dos alunos de uma certa Fundação é um jeito fácil de mantê-los sob controle. Mesmo que eles não saibam o quão difícil e o quão chato seja escrever. Desnecessário. Todos deviam parar. Vamos continuar apenas com o sistema morno, com o controle quente e com as cabeças queimadas. O forno está quente, a receita está pronta. Eu cumpri o combinado, te fiz ler até aqui um texto ameno e bem redondinho. Ninguém incomodado, nenhum erro apontado.  Hora de parar. Parar de escrever e começar a seguir apenas as receitas.


Opa, acabei me excedendo! Joga tudo fora, a não-receita deu errado. Melhor recomeçar.


Escrever não é complicado…



Texto: Arthur Quinello

Revisão: André Rhinow e Laura Freitas

Imagem de capa: colagem própria- Imagens Unsplash 


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