LADY BIRD: A BELEZA DE UM VOO IMPERFEITO



“Lady Bird: A Hora de Voar'' é um filme que divide opiniões, principalmente no que se refere à sua personagem principal. Imatura, egocêntrica, mimada, escandalosa. Todos são atributos frequentemente associados a Christine McPherson (Saoirse Ronan) ou, como ela prefere ser chamada, Lady Bird. Meu intuito não é contestá-los, mas questionar o porquê dessa extrema indignação em relação a uma adolescente fazendo coisas de adolescente e sendo adolescente. Em cada revolta extrapolada, ato de rebeldia, desilusão amorosa e decisão egoísta vejo uma personagem real. Com defeitos reais, qualidades reais e dramas reais. Será que é isso que desagrada tanto? A representação crua da (imperfeita) realidade humana?


Uma coisa é certa, Lady Bird não foi feita para ser amada. Ela não é especial, uma heroína, sequer é uma grande injustiçada. Tampouco é uma vilã que só se importa consigo. Ela é mediana: rebelde, geniosa, curiosa — todas características típicas da sua faixa etária. Não gosta de sua cidade, a “aculturada” Sacramento (Califórnia, Estados Unidos), e sonha em estudar em Nova Iorque, mesmo não tendo os recursos financeiros necessários e estando longe de ser uma estudante brilhante. Ela se aventura em uma atividade nova, o teatro, e se odeia por não ser excepcional nisso. Tem inúmeras discussões com uma mãe crítica e exigente, mas a ama com a mesma intensidade de seus berros. Envolve-se com um garoto que acidentalmente quebra seu coração e, posteriormente, tem uma péssima primeira vez com outro. Deixa sua melhor amiga, Julie (Beanie Feldstein), e seus valores de lado em prol da popularidade e se arrepende. Ela é a personificação da verdadeira adolescência, com todas as suas faces mais belas e mais feias.


Aqui, me sinto na obrigação de aplaudir a direção impecável de Greta Gerwig e sua abordagem da adolescência com uma delicadeza inovadora. O filme não tem grandes altos ou baixos, também não é possível destacar um enredo que caminha em direção a uma grande revelação. Talvez, a coisa mais surpreendente dele seja a sua capacidade de prender e emocionar o espectador mesmo sem nenhum desses elementos. A magia da trama vem justamente do toque realista de Gerwig ao retratar o processo de amadurecimento e do talento de Ronan, cuja fantástica atuação conseguiu transmitir todas as emoções engasgadas no peito de uma jovem florescendo. A mais recorrente delas, e talvez a mais primordial, é a sensação de ser subestimada. A personagem tenta provar, em todos os momentos e a todos os custos, que é mais do que esperam dela. A maioria de suas teimosias servem justamente tal propósito. Ela quer ser percebida como genial, meiga e independente. Ela quer ser a mocinha. Porém, a consciência da sua imperfeição, sempre relembrada por sua mãe, instiga seus atos mais destrutivos.


Lady Bird enfrenta problemas que muitos consideram bobos, mas que, no auge dos seus 17 anos, são muito significativos. Não à toa, a personagem tocou profundamente milhares de adolescentes mundo afora. É preciso muita coragem para admitir se identificar com uma pessoa tão falha, em uma sociedade que odeia erros, principalmente se as agentes deles forem meninas jovens. Sigo acreditando que a maior presunção de quem envelhece é renegar seu passado e tentar assumir uma posição de superioridade frente às próximas gerações. Não há nenhuma genialidade em notar os equívocos de uma adolescente quando você não pertence mais a esse grupo, aliás, é muito fácil fazê-lo. Existe muita arrogância na ideia de que a garota deveria agir e pensar com a clareza de uma adulta e muita hipocrisia em não notar o quanto ela reflete nosso passado. Quando as pessoas se derem conta que foram, e são, tão imperfeitas quanto Lady Bird, terão duas consequências distintas, a depender de como encaram a personagem. Se tiverem um olhar compreensivo, essa percepção trará calmaria e identificação. Do oposto, uma crise moral interna.


Faz-se necessário um adendo: não acho que Lady Bird deva ser absolvida de todos os seus erros por causa de sua juventude. E, sim, eu também quis jogar o chinelo na TV vez ou outra ao assistir o filme. Só optei pelo caminho sereno de identificação. Não me surpreendo com suas atitudes, tampouco acho que ela age de má-fé. Gosto dela pelos mesmos motivos que muitos a odeiam: me vejo nela. Já fui egoísta, exagerada e já acreditei — muito fielmente — que tinha a resposta para todos os problemas. Também me frustrei todas as vezes que percebi que não era verdade, que eu não era tão madura assim e que, às vezes, meus pais tinham razão. Hoje, tenho a certeza que, ao atirar uma pedra em Lady Bird, estaria dando um tiro no meu próprio pé.


Ao invés disso, escolhi acolher a garota que fui, minha própria versão de Lady Bird. Uma chata que, acima de tudo, odiava ser subestimada e minimizada por ter dramas condizentes com os de uma adolescente. E quer saber? No final, Lady Bird cresce. Larga o babaca número dois e vai para seu baile de formatura acompanhada de Julie, muda-se para Nova Iorque, perdoa sua mãe, aceita — mesmo que desgostando — ser conhecida como Christine. É impossível não sentir que cresci junto com ela. Aposto que, se tivesse uma sequência, Christine também cometeria mil erros, agora condizentes com a realidade de uma jovem-adulta. E também seria julgada pelos amargurados descontentes com seu próprio passado. Quem sabe um dia eles possam encontrar paz nessa memória. E, talvez, o primeiro passo para isso seja aprender a gostar um pouquinho mais de Lady Bird.


Autoria: Fernanda Abdo

Revisão: Guilherme Caruso e Gabriela Veit

Imagem de capa: “You’re not gonna get in a car with a guy that honks, are ya?” (Relly Coquia, Tumblr.)