LE TEMPS DETRUIT TOUT

Quantas vezes você já ouviu a frase “Dê tempo ao tempo”? No caderno de cultura de hoje, nosso redator Bruno Daré discorre sobre a importância de nossas memórias e do tão poderoso tempo.


É curioso como cada um de nós escolhe saborear as próprias memórias, como as pessoas lidam com o passado. Reconhecemos que não temos controle algum sobre o tempo, que somos atropelados pelos dias, semanas, e anos, e que então morremos. Mas mesmo sabendo disso, da inevitável passagem do tempo e da consequente certeza da morte, queremos distorcê-la, afinal, o tempo é intimidador, apavorante. Ninguém escapa do rolo compressor que nos força a viver momentos inéditos, e que imediatamente tornam-se permanentes.


Mas, ainda que desconfortável, somos nossas memórias, somos o nosso passado – vivemos do passado. Mais do que isso, nós vivemos no passado – toda imagem projetada na nossa retina é de uma cena que já foi; também ouvimos uma nota quando ela não está mais no ambiente. Percebemos sempre a realidade com um atraso de uma fração de segundos. O presente mesmo, o imediato, ninguém nunca vê, ouve ou sente.


Na última semana reassisti Irréversible, do argentino Gaspar Noé, que aborda, centralmente, dois temas: o sentimento de vingança e o tempo. Os personagens buscam na vingança uma resposta angustiada diante da percepção de que o passado é imutável, uma tentativa de corrigir aquilo que está feito, marcando a linha do tempo mais uma vez. Além de estar tematicamente presente no roteiro, o tempo está também na estrutura – o filme é contado de trás para a frente. Essa peculiaridade realça a angústia dos personagens, que olhando para trás percebem que tudo que aconteceu é irreversível, que são impotentes diante do tempo. Esse ambiente é forrado pela frase que inaugura os 99 minutos de filme: Le temps detruit tout.


É inquietante pensar que o tempo destrói tudo. Passeamos pela vida arrastados pelo tempo, mesmo contra a nossa vontade – somos obrigados a tomar escolhas que moldam nossa trajetória, imutável. Mesmo a nossa percepção individual do tempo é distorcida pelo tempo, quanto mais velho alguém se torna, mais curto aparenta um ano – por ser uma fração menor da sua vida toda.

Tudo é construído pelo tempo, e tudo é também destruído pelo tempo. Aliás, provavelmente não haverá registro deste texto daqui algumas décadas. Não escaparão Beethoven, Newton ou Aristóteles – todos serão inevitavelmente varridos do universo. Quando o Sol explodir (ou quando o universo terminar de expandir) não sobrará registro histórico da humanidade, o espaço e o tempo terminarão. O tempo destruirá o próprio tempo.


Nossas memórias também se transformam e desaparecem com o tempo. A memória que tenho de quando aprendi a amarrar o sapato é, na verdade, um flashback da última vez que eu me lembrei disso. E da próxima vez que eu me lembrar disso, na verdade me lembrarei de agora. Não guardo mais nenhuma memória original de criança, nenhuma lembrança que eu conseguiria resgatar agora pela primeira vez – as que tenho já estão recicladas e distorcidas pelo tempo.


A angústia ou a calmaria diante da passagem irrefreável dos minutos é igualmente ignorada pelo tempo, que é indiferente às suas indignações, conselhos e revoltas. O tempo é de fato cruel, mas por que, então, desperdiçar do próprio tempo incomodado com a passagem do tempo? Não tenho certeza, mas acho que gosto de reclamar. Para aqueles que não gostam, peço desculpa pelos minutos de lamentações nos últimos parágrafos, e indico o meu álbum favorito de jazz, Time Out, que me traz muito sossego no meio das minhas reclamações.

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