MAIS LEVES QUE EU



Subi correndo quatro quarteirões da Brigadeiro Luís Antônio, Júlia me ligava desesperada dizendo que, se eu não chegasse a tempo de furar fila, ia ficar de fora. Fazia parecer uma questão de vida ou morte. Sua determinação em me apressar, unida a meu medo de caminhar pelas ruas escuras do domingo à noite, derrubou para 7 o caminho que eu faria em 11 minutos segundo o Google Maps. Cheguei cansada.


Fui recebida por abraços mais calorosos do que esperava, considerando que havia conhecido todo o grupo na noite anterior, num bar em Santa Cecília. Vai no bar e pede um netuno. Mas o que que é isso? Ninguém sabe, mas é bom. Me serviram o líquido escuro com cheiro de gengibre que ardia o nariz, tive que limpar o gosto da boca com uma cerveja. O DJ tocava um remix de músicas brasileiras que me impressionou, puxava um groove com Pontos de Luz da Gal Costa, era cool.


Estávamos eu, meus novos amigos e mais umas 100 pessoas numa funilaria abandonada no meio do Bixiga, com iluminação tão amarelada que fazia questionar se haveriam mudado repentinamente a paleta de cores do mundo. Não havia sequer um pé de chão visível entre os corpos que se tateavam involuntariamente a cada passinho pra um lado e pro outro, pra frente e pra trás. Até quem não dançava tinha um brilho úmido e os fios de cabelo colados na testa. Um ou outro desavisado sofria com a descoberta de que conselhos maternos não se aplicam à linha do Equador, e seguravam seus casacos contrariados.


Eu atravessava aqueles 200 metros quadrados sabendo que todo cuidado era pouco, uma distração e poderia me prender por tempo demais num daqueles olhares gulosos que fingem despretensão, simulam não ver enquanto procuram, quase caçam. Nos procurávamos, mas nenhum admitiria. Nossas quereres só se encontrariam de relance, acidentalmente, enquanto a curiosidade aumentava a cada sorriso de canto de boca. Íris castanhas a perder de vista e eu de cabeça erguida, tornando a autopreservação um tanto mais custosa, parecia ter esquecido de olhar para baixo enquanto atravessava a barreira de braços e costas, peitos e bundas. Era olho no olho, barriga com barriga, furando um caminho improvável para encher o copo ou ter um rosto conhecido.


Do último degrau da arquibancada de madeira, via-se o quadro completo: a noite pequena do lado de fora, o balcão na entrada transbordando cachaça, mel e limão em copos com gelo, o amontoado de cabeças guiando o meu olhar até a roda de samba no centro, "Agora! Uma enorme paixão me devora. Alegria partiu, foi embora…" e todos muito muito alegres. Ninguém tirava o sorriso da cara pra nada, nem pra cantar, nem pra beber e nem pra beijar. Quando o DJ voltou à mesa de som, já não havia moderação nos afetos.


Era noite de fevereiro quando a vida me alcançou. Chegou suada, cansada, como quem viera me perseguindo há muito. Sem desacelerar, trombou em mim, e eu estava prestes a cair quando passou o braço em volta da minha cintura, me puxou para perto e me beijou. Como se uma criatura outra adentrasse meu corpo e tomasse as rédeas do que seria dali em diante, eu já não temia o deslocamento, a solidão, a perda de sentido — a vida e eu éramos inseparáveis.


Absorvia com olhos extasiados a minha manjedoura. Estava ali tudo o que passei os últimos quatro anos procurando, numa busca apenas sussurrada ao ouvido das raras pessoas com quem ousei tamanha nudez de espírito. A energia intelectual de quem não faz pouco caso de conversa alguma, as músicas que me transportavam para a última cena de um filme que comoveria o eixo Rio-São Paulo e logo cairia no esquecimento, toda a esquerda da elite paulistana usando bonés vermelhos.


Entre uma música e outra, meu coração desacelerou e os pensamentos me alcançaram. Pensei em postar uma foto daquele lugar, num carrossel, junto com a filmagem da mixer no techno da madrugada anterior e uma outra posando com as amigas influencers da Julia. Pensei como e a quem contaria sobre aquele lugar no dia seguinte, se diria também o nome e daria as coordenadas ou guardaria para mim o paraíso recém descoberto, misturando ciúme ao egoísmo. Pensei que, com sorte, me apaixonaria perdidamente dentro da próxima hora, e que seria um tanto trágico viver uma história de amor nascida numa roda de samba, porque depois dessas, as outras já não são. Pensei que eu mais pensava do que vivia.


Foi aí que a vida me deu uma trégua. Olhei em volta e me percebi um pouco sóbria demais, em cima de uma arquibancada prestes a sucumbir, com pessoas malucas pulando como se quisessem mesmo testar os limites das tábuas e da própria física, com tantos corpos ocupando o mesmo lugar. Mais adiante, uma garota que não poderia possivelmente estar tão animada, cada movimento desajeitado e exagerado daquele corpo me incomodava. Quando finalmente assimilei feições em meio à massa, imaginei que a maioria ali deveria ter sido atraente há uns 10 anos, no auge dos seus 20 e poucos. Olhei um beijo e achei repulsivo.


Senti meus ombros sendo sacudidos com vigor suficiente para me irritar. Acorda! Quem você pensa que é para me roubar da minha inadequação? E no mesmo instante, a exposição do meu desencaixe machucou, o desencaixe do qual a vida recém-chegada prometera me livrar. Será que perceberam que eu olhava fixamente para um ponto indeterminável, presa no meu estudo de caso? Eu pareço não estar aproveitando o suficiente? Não estou aproveitando o suficiente? Meu Deus como faço para voltar a sorrir tá todo mundo sorrindo logo vão perceber que eu parei meus músculos da bochecha estão travados. Meu Deus me ajuda a lembrar a letra dessa música não sai uma palavra um grito dessa boca. Fala, caramba!


Preciso ir. Acordo cedo amanhã. Domingo não é dia de viver — não, não é. E já não era sobre ir embora, mas fugir, o mais rápido possível. Cheguei em casa e gravei um áudio no Whatsapp enquanto entrava no elevador. Contei o que me ocorrera: estava vivendo finalmente e, sem qualquer aviso, a vida me foi tomada. Uma tormenta de pensamentos me impedindo de existir, sem objeto definido, sem começo, meio ou fim. Minha mente traindo a primitiva vontade de pertencer, a subjetividade me arrastando para longe do ansiado status que eu invejava nas meninas mais maleáveis e mais seguras do que eu, que sabem exatamente quem são desde o ensino médio, que sabem se divertir. Pessoas mais leves que eu.


Enquanto despejava pura angústia sobre o celular, eu sentia o medo crescer no falhar da minha voz. Por favor, me entenda, você é a minha última esperança, se você não me entender então já não existo. Por favor, responda rápido, porque senão é provável que eu não durma. Por favor, segure as minhas mãos e seque os meus olhos, me fale baixo que o mundo é estranho e quase inóspito, me ajude a atravessar essa última tentativa de viver a minha idade. Ou só me diga que vai passar. Nada disso no áudio de dois minutos.


Dentro do apartamento, roupas limpas espalhadas pelos cômodos e cascas de frutas ainda sobre a mesa, a natureza morta retratando a pressa de quem teme uma vida passada em branco. Percebo a minha respiração pela primeira vez em horas, retomo alguma consciência do meu corpo, agora frio, e a vontade de pedir perdão em voz alta me invade. Me perdoe, deixei a vida escapar entre os seus dedos. Sinto muito, eu sei quanto você esperou. Não antecipo o desamparo que chega junto da única resposta, quase imediata: "onde era?". Não conto.





Autora: Glendha Visani

Revisão: Beatriz Nassar, Bruna Ballestero e Guilherme Caruso



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