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MORTE POR ENVENENAMENTO

Não derramei uma única lágrima pela nossa defunta amizade. Você a envenenou aos poucos e esperou que eu me ajoelhasse aos seus pés, implorando pelo antídoto, mas o que fiz foi desferir o golpe fatal contra a cabeça da moribunda, que caiu ao chão, sem vida. Minha reação foi tão inesperada que você não pôde acreditar, e, para quem quisesse ouvir, disse que a assassina era você, que você tinha tido a misericórdia de tirar a coitada de sua miséria.


Você pode falar o que quiser para quem quiser, tem esse direito, mas eu sempre saberei a verdade. Sei que você acredita que, de alguma maneira, fui eu quem envenenei nossa amizade de longa data, mas foi você quem falou de mim pelas minhas costas, foi você quem disse para o mundo inteiro menos para mim que nosso problema era falta de comunicação. Foi você quem me elegeu bode expiatório, não o contrário. Você usou contra mim coisas que eu só tinha dito porque me preocupava com você, porque tinha medo que a vida não fosse do jeito que você queria que ela fosse e você acabasse em um completo ataque de nervos. Mas, quando percebi, já era tarde demais. Já não sentia mais nada por você nem pela nossa amizade. Por que salvaria algo que você colocou em risco assim, que você se dispôs a jogar fora pela satisfação de me ouvir dizer que você estava certa?


Desferi o golpe fatal e não lhe convidei para o velório. E você disse que foi você quem a enterrou para quem quisesse ouvir, mas, na verdade, cremei nossa amizade e soltei as cinzas ao vento. Não chorei, mas senti raiva da sua estupidez. Porque é isso que você foi, estúpida. Nossa amizade está morta e a culpa é sua, e por quê? Se eu disse algo que lhe magoou, por que não veio conversar comigo? Eu não tenho bola de cristal nem leio mentes, como queria que eu soubesse o que se passava dentro da sua cabeça? Se você achava que precisava de contato mais frequente, por que não me disse isso? Eu estava vivendo minha vida, tentando não afogar, e você encheu os ouvidos de nossos amigos falando mil coisas de mim, mas na minha cara sorria e fazia planos para sair no fim de semana.


Não sei se você derramou alguma lágrima, não sei se me odeia, se sente a minha falta. Mas, provavelmente para seu desgosto, esse trágico fim foi bom para mim. Há muito tempo não me sentia tão leve. É incrível o que cortar quem não merece estar na sua vida faz. Toda essa sua trama me fez perceber que você não se importava comigo tanto quanto dizia que se importava, aliás, você sempre se importou muito mais consigo mesma do que com qualquer outra pessoa. Hoje vejo isso, graças ao que você fez. Sem esse seu espetáculo estaria até hoje aguentando as suas encheções de saco, seus bicos e batidas de pé.


Pelas mentiras que você tem contado, sei que esse desfecho não foi o que você queria. Você pode dizer para nossos amigos mútuos que foi melhor assim, mas desconfio que essa não seja a verdade. Você queria brigar comigo, queria que eu admitisse que você estava certa, queria que eu pedisse desculpas pelos problemas que você inventou sozinha. Mas não foi o que fiz. Matei nossa amizade porque era o melhor para mim e porque não concordo com manter uma vida de maneira artificial, respirando por uma máquina, em estado vegetativo. Por isso, não derramei uma única lágrima pela nossa defunta amizade. Que ela descanse em paz e que você encontre a sua.


Autoria: Luiza Sacco Parisi

Revisão: André Rhinow, Anna Cecília Serrano e Gabriela Veit

Imagem de capa: DAVID, Jacques Louis. La Mort de Socrate. Detalhe. 1787. Óleo sobre tela.

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