MOSAICO PANFLETO



Talvez mais gororoba do que mosaico, este texto é uma mistura de pedaços de diferentes obras. Nenhum de seus autores tinha a intencionalidade que lhes atribuo aqui. Todos os trechos estão absolutamente fora de contexto, o que os une é minha insensatez — mutilei, torci e deformei cada um deles até que expressassem o que desejava. Minha intenção foi me servir da retórica poderosa de cada pedaço para qualificar e veicular o todo, que é minha mensagem. Cada pedaço tem sua devida referência, afinal — o original é naturalmente melhor.


***


Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.

Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?


Nacionalista que se guia por este lema:

"Tudo pela humanidade, nada contra a nação"



Quis o destino que o povo entregasse a um psicopata a condução de nosso país, no momento em que passava pela mais profunda crise econômica de sua história. Quis o destino também que esse homem nos governasse no meio de uma pandemia infernal, que já matou milhares de brasileiros. Se seu passado e reputação não foram suficientes para impedir a infeliz escolha de 2018, certamente dois anos de seu governo bastam para justificar qualquer tentativa legítima de removê-lo do posto que ocupa.


Quando o rejeitamos no voto, talvez nosso desejo fosse esse: que antes ele atacasse a República como perdedor do que maltratá-la como governante, e que a sua criminosa empresa mais se pudesse chamar uma arruaça de bandidos que uma guerra civil. Mas fracassamos, e ele está aí — ele nos governa.


Como ele lá chegou talvez seja o mistério mais evidente de nossos tempos. Exaustos e frustrados, o povo mandou todos às favas, depositando sua fé num louco. A ignorância das massas faz o voto naquele momento compreensível, mas pouco justificável. Agora, passados esses dois dolorosos anos, a manutenção de seu apoio não é nem compreensível e muito menos justificável. Mas muitos leigos ainda o veneram como justo, como um asceta, mesmo o considerando insensato: sua loucura ainda é muito cativante. Que qualidades esse homem tem?


Nenhuma. Seu valor absoluto e individual reflete na história a anomalia algébrica das quantidades negativas: cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar — porque se lhe operara em torno uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um país, sem avançar — porque era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior das suas jovens tradições democráticas…


Quem dera pudéssemos justificar o fracasso do combate à pandemia (e aos outros perenes problemas) na sua incompetência. Quem dera! Mas o que há, isto sim, é decisão consciente e constante de arruinar brasileiros. É a toda a República que ele dirige abertamente seu ataque; são os pilares de nossa institucionalidade, são nossa fauna e meio ambiente, são nossas relações diplomáticas, é a vida de todos os cidadãos, é o Brasil inteiro, é tudo isto que ele arrasta para a ruína e a devastação.


Tu, homem, até quando abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens e mulheres de bem, nem os estertores dos milhares de mortos, nem o pranto e o desespero dos enlutados, nada disto conseguiu te perturbar? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas? Oh tempos, oh costumes!


Que há que ainda te possa causar prazer neste país, em que não há ninguém, fora deste curral de apoiadores e governo de homens depravados, que não te tema, ninguém que não te deteste? Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que infâmia de vida particular não anda ligada à tua reputação? Que ação injuriosa deixaram de perpetrar as tuas mãos algum dia? Que torpeza esteve ausente de todo o teu corpo? Que jovem haverá a quem não tenhas iludido nas seduções da tua imoralidade, guiado o ferro na rebeldia ou o archote na libertinagem?


Deverias ser punido pelo estrago que causaste em nosso povo. Nele tu fazes emergir os sentimentos mais abjetos que somos capazes de gerar. Nenhum cidadão deveria sentir ojeriza pelo seu próximo. Mas tu, e uns tantos de outrora, ensinaram a uma geração de jovens que se deve odiar aqueles com os quais se discorda. Quantos não há por aí que só se satisfazem numa discussão quando o gosto de bile vem à boca? Primeiro, um orgulho quase satânico, depois, o escárnio. Aí está o que empolga a juventude, aí está o que cativa o coração inexperiente dos moços!


O país pede sossego. Mas tu, não só nunca desejaste o tempo de paz, mas nem sequer uma guerra que não fosse criminosa. Sabemos que desejas brasileiros assassinando brasileiros — sabemos do teu gosto por sangue. Foi para essa loucura que a natureza te gerou, te preparou a vontade, e o destino te guardou. Azar nosso de que a pátria em que nasceste fosse brasileira. É dever dos que se importam com ela, portanto, retirar-te de onde estás.


Mas que seja o amor genuíno pela pátria o que nos mobilize, não o ódio que tu pregas. Sim, nós sabemos, o Brasil é um país difícil. Mas, amar a pátria faz parte da nossa natureza. Profundamente brasileira é o carinho pela terra natal, ainda que na forma de um desprezo cego pela realidade objetiva do país.


Boa ou ruim, promissora ou aflitiva, essa realidade jamais conseguirá demover o saudoso de seu amor obstinado à terra, mesmo o Brasil tão frequentemente errado e decepcionante — sobretudo contigo —, pobre de fortuna e de projetos, abrigo de vícios e de molezas. Porque, para nós, ainda que envergonhados por tua causa, será sempre possível esquecer a miséria da pátria, presente na sublime teimosia com que a amemos, boa ou má, na força de quem faz desse amor uma vontade firme.


Mas tua ação transformaste esse amor numa declaração bovina — vulgarizaste a pátria! A pátria já não sofre quando seus filhos padecem, nem seus filhos choram quando ela é atacada— ela já não é capaz de nos comover. Tua corja usurpou seu nome, violou seus símbolos. Hoje, quem a tem no coração e ousa abertamente defendê-la acaba confundido com um dos teus — não há humilhação maior do que esta. Basta!


Renuncia, homem, para que o amor pela pátria e seus símbolos não seja mais sinônimo de baixeza.


Renuncia, para que os brasileiros e a pátria possam convalescer.


Renuncia, enfim, para que possamos reconstruí-la.




Autor: Felipe Takehara

Revisão: João Vitor Vedrano


Imagem da capa: 'Independência', Di Cavalcanti



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REFERÊNCIAS:

¹ Hino nacional, Carlos Drummond de Andrade

² Fernando Pessoa, ao preencher um formulário de uma nota biográfica no quesito "posição patriótica"

³ Catilinárias, X, Cícero.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. São Paulo: Martin Claret, 2013. p. 197

Contrastes e Confrontos (O marechal de ferro), Euclides da Cunha. p.5. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00090a.pdf

Catilinárias, X, Cícero.

Ibid., I.

Ibid., VI.

TURGUÊNIEV, Ivan. Pais e filhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p.85

¹⁰ Catilinárias, X, Cícero.

¹¹ Catilinárias, X, Cícero.

¹² MERQUIOR, José Guilherme. Razão do Poema: ensaios de crítica e de estética. 3. ed. São Paulo: É Realizações, 2013. p.69

¹³ Ibid., p.70

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