NÃO TIRA O BATOM VERMELHO COM JOUT JOUT

Hoje a Gazeta está trazendo a cobertura do evento com a youtuber Jout Jout que ocorreu no dia 9 deste mês. Nossa membra de captação, Isabella Whitaker, esteve presente na ocasião e reportou tudo o que a jornalista e personalidade de internet tinha a dizer. Vem ver o que rolou!

No dia 9 de março, no contexto do mês da mulher, a área institucional do Diretório Acadêmico Getulio Vargas trouxe a youtuber Jout Jout para um bate-papo na quadra da FGV. O evento foi aberto para pessoas de fora da fundação e as inscrições acabaram em menos de uma hora. A quadra ficou cheia e o público era majoritariamente feminino.


Julia Tolezano, mais conhecida como Jout Jout, criou em 2014 seu canal no Youtube chamado “Jout Jout Prazer” e atualmente conta com quase 2.5 milhões de inscritos. Seu vídeo mais famoso, que deu o nome ao evento “Não tira o batom vermelho”, trata de relacionamentos abusivos, partindo de sua própria experiência. Os vídeos do canal trazem assuntos extremamente importantes e, muitas vezes, delicados, de forma simples e facilmente compreensível. Ela não costuma seguir um roteiro totalmente estruturado e vai desenvolvendo suas ideias em forma de conversa, assim como fez no evento.


A representante do DAGV que ficou ao lado da youtuber, Laura Portela (3º semestre de Administração Pública), apresentou a questão norteadora da conversa: “o que é ser mulher?”. Jout Jout, imediatamente, respondeu que não sabia, sabe apenas ser a mulher que ela mesma é. A pergunta mudou então para “o que é ser mulher no Brasil?”. Ela, então, disse que tem viajado muito pelo Brasil, conhecendo diversas pequenas cidades, dando-lhe a percepção de que não há um jeito de ser mulher no Brasil. No Amapá, por exemplo, conheceu mulheres que não cortam seus cabelos, e isso gera um grande problema de descabelamento na região. Isso é uma forma de ser mulher no Brasil. Em outra região, conheceu mulheres que perderam diversos filhos na gravidez e acharam normal. Ao mesmo tempo, em outros lugares há mulheres que perderam um filho na gravidez e com isso desenvolveram uma profunda depressão. Ambos os casos são formas de ser mulher no Brasil.


Continuou a palestra trazendo uma questão importante, de que tentamos dar conta de muita gente quando se trata de lutas. Isso significa que não escolhemos um pequeno grupo, ou uma luta específica para participar, tentamos abranger um pouco de tudo. No entanto, sabemos que não vamos conseguir, e acabamos não fazendo nada. A sugestão trazida por Julia é que precisamos nos juntar em grupos menores e direcionar nossa luta, só assim ela será mais efetiva. Segundo ela, precisamos sair dos discursos prontos, dos textões lacrando no Facebook, e partir para ações reais, incorporando de fato as nossas lutas. Precisamos nos incomodar, pois só assim faremos alguma coisa.


Jout Jout, então, abriu espaço para perguntas, comentários e desabafos de quem quisesse se pronunciar, proporcionando um bate-papo. Não costuma dar respostas prontas para as perguntas, dependendo de quais forem, nem apresentar soluções prontas, mas traz reflexões sobre. Foi perguntado o que fazer numa situação em que você tem o conhecimento de uma mulher, perto de você, que está sendo abusada pelo marido. A youtuber entendeu a situação como sendo algo difícil de lidar, e aproveitou para refletir sobre como, diante de uma situações que consideramos difíceis, permitimo-nos uma certa liberdade de não fazer nada a respeito, já que é tão duro. Disse que não tinha uma solução pronta uma vez que a única forma de lidar, segundo ela, é lidando e aprendendo na prática.


Outra questão trazida foi como o feminismo negro entra no feminismo branco. Nesse contexto, Jout Jout refletiu sobre a empatia, no sentido de que temos a ideia de nos colocarmos no lugar do outro, mas nunca vamos genuinamente saber como é ocupar tal lugar. O branco nunca vai se sentir como um incômodo na sociedade assim como o negro e essas questões são importantes de serem levadas em consideração. Perguntou, retoricamente, então como tornar o ambiente na faculdade mais convidativo para todas? O que o DA poderia fazer? Será que o convite é suficiente? Deixou a reflexão em aberto.


Uma aluna pediu indicações de onde buscar informações para aprender sobre o feminismo e outras questões que lhe causam incômodo, procurando referências por onde começar. Jout Jout respondeu que o meio pelo qual mais aprendeu, e aprende, é através de conversas e trocas, deixando o outro realmente entrar nela. A partir disso trouxe a provocação de que sempre falamos com as mesmas pessoas sobre os mesmos assuntos, então talvez seria uma boa ideia ampliar o leque de pessoas para dialogar.


Grande parte das questões trazidas pelas pessoas presentes no evento, se referiam ao ambiente da FGV. Foi relatado um caso pessoal de uma mulher, numa sala majoritariamente masculina (87% homens), onde eles não compreendiam como certas atitudes e falas eram machistas e consideravam as queixas dela como “mimimi”. Outra aluna perguntou como acabar com o machismo velado na faculdade, questionando se a melhor solução seria homens falando para homens, já que dão mais ouvidos a eles do que às mulheres. A youtuber falou então sobre como homens, no fundo, curtem homens, admiram-se, respeitam-se e escutam-se, enquanto com mulheres, apenas buscam satisfazer desejos sexuais.


A última fala foi um agradecimento à youtuber e pela conversa, que foi um dos poucos espaços na FGV onde o assunto não era carreira. Jout Jout respondeu então: “sucesso no negócio não é garantia de nada” e terminou o bate-papo com a reflexão. Para finalizar todas e todos os presentes no evento tiraram uma foto coletiva com ela.



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