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NA FRENTE DA CORTINA



A cortina se abre. Saio da coxia com as cordas vocais preparadas para cantar, com a mente imersa em um mundo alternativo. Os holofotes incidem em minha face e aperto os olhos para conseguir descobrir o público: A plateia está cheia? Quem eu conheço? Toca-se a primeira nota, e começo a cantar sem nem pensar duas vezes, a melodia é familiar e as palavras fluem da minha boca como um rio que sempre segue o mesmo fluxo.

 

É o último dia que apresento esse espetáculo, talvez essa seja minha última peça, a última vez que poderei fingir ser alguém que não sou e ser aplaudida por isso. Um turbilhão de pensamentos invade a minha mente, mas me deixo acalmar, com o calor da luz na minha pele e os olhares encantados que se fixam em mim. Sinto meus pés tocando no piso de madeira encerado. Tenho um costume: sempre tiro meus sapatos ao subir no palco, em todas as aulas, todos os ensaios. Tiro meus sapatos e junto deles, deixo pra trás minhas angústias e meus problemas, todas as minhas preocupações vão embora. Deixo os sapatos na porta e não trago a sujeira da rua para o auditório, tornando a metáfora real: não trago meus problemas da vida para cima do palco.


Deixei aquilo que não desejava para trás. Não sou mais eu, agora sou Mina, uma mulher que está prestes a se apaixonar, uma mulher que temerá a morte de seu amado e lutará contra todos para salvar seu amor verdadeiro. Pouco importa quem eu era antes de pisar ali, agora sou essa mulher que descrevi, não lembro mais das minhas vontades e desejos. 

É engraçado, tem gente que fica com medo do palco. Eu não. Me sinto mais confortável no holofote do que em muitos lugares. Sei que não é a mim que observam, mas sim a personagem de uma peça. Admiram a mulher que finjo ser, que talvez eu tenha ajudado a criar, mas cujas ações não me dizem respeito, cujos pecados eu não respondo por.


Eu não sou mais eu, o teatro me permite essa transformação. Em cima desse palco já vivi milhares de vidas no tempo de uma só. Fui mulher e homem, perdi amores e perdi minha vida, chorei e ri, fui adorada e odiada… o porquê disso me encantar eu não sei. Talvez seja uma tentativa de fugir da minha vida. Talvez eu queira viver demais e não tenha tempo suficiente. Talvez eu anseie ser mais importante do que sou. Talvez eu ame atuar, mas por quê?


Mentiria se dissesse que nunca cogitei sair. Eu já tive vergonha, já me senti estranha em minha própria pele: uma impostora. Fui forçada a sair da minha zona de conforto, mas logo os palcos se tornaram aconchegantes: o teatro se tornou meu escapismo preferido. Eu perdi o medo de sair de trás das cortinas e usei minha voz para fazer algo que amava.


Hoje, escondo-me em cima do palco, não atrás da cortina, mas na frente dela. Escondo-me sob a máscara de uma personagem que já aspirei ser, com uma voz que não é mais minha, falando um texto decorado, que não representa minhas emoções. Mas sei que no fundo sou eu e somente eu que senti elas daquela maneira, e assim, conto-as para um público entretido nas aventuras de um outro alguém.


O sentimento que não soube sentir. A fala que não soube dizer. O carinho que não soube demonstrar. O ódio que não soube externalizar. É em cima do palco que se concretizam, sob a máscara de um certo alguém que ainda não conheci.


Quem sou eu? Um mosaico de quem eu já conheci, quem eu interpretei, quem eu assisti e idolatrei em cima desses palcos. Quem são meus personagens? Uma parte de mim? Ou eu inteira? Não sei direito. Só sei que os interpretei, e em cada um deles inseri uma parte de mim. Li e reli suas falas, criando uma persona que eu sentisse que era real, uma persona que tivesse um pedaço meu. Porque para que uma mentira seja confundida com o real, é necessário que ela tenha um fundo de verdade: para que meu personagem seja crível, tenho de inserir nele partes de mim. Para Pablo Picasso, “a arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade”. 


Eu os vejo em mim e me vejo neles. No palco, me escondo na frente da cortina, sem medo do julgamento, pois quem se apresenta ali são meros personagens. Eu pude conhecer a magia que acontece por trás das cortinas, mas reservo ao público a beleza da mentira do teatro.  Os reservo a ilusão de que aquela realidade acabou ali, talvez no “felizes para sempre”.


Tudo aconteceu tão rápido. A cortina se abriu, a apresentação começou e num piscar de olhos tudo acabou. Ouço os aplausos e a cortina se fecha. Já sinto saudades dos olhares fixados em mim, do calor das luzes, daquela melodia familiar, do cheiro da madeira do auditório… meus sentidos ainda não estão prontos para se despedir, mas acho que está na hora de seguir em frente e dizer adeus aos palcos. Me resta, somente, voltar à plateia, e me limitar a bater palmas quando o show acabar.


Autoria: Elis Montenegro Suzuki

Revisão: Laura Freitas e Enrico Recco

Imagem de capa: Julia Zilio

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