O TEMPO ME ASSUSTA

Karina Bittencourt, aluna do quarto semestre de Administração Pública, trouxe para o Espaço Aberto uma profunda reflexão sobre o tempo. Será que o tempo realmente cura nossas feridas?

O tempo me assusta.


Quando parece que as coisas são fixas e quando parece que aquele é o seu lugar. Quando você encontra alguém que você ama e quando pensa que algo é pra sempre. Quando você ama tanto um momento que se agarra a ele, busca por ele em cada esquina, em cada brisa, em cada sensação. Quando vai até um lugar e procura imitar seus antigos gestos, ouvir suas antigas músicas e ser a pessoa que você costumava ser. Todas as sensações que mais amamos não duram por mais de dois segundos. Nenhuma delas. Nós as prolongamos, tentamos estendê-las pelo maior tempo possível, mas elas se esvaem, deixam para trás apenas a lembrança e seguem com o único capaz de trazê-las e levá-las embora: o tempo.


Nós continuamos amando aquilo que amávamos, mas de repente não amamos mais na mesma intensidade. Continuamos nos reconhecendo no espelho, mas não somos mais os mesmos. Nossa família está lá, mas alguns já partiram, alguns partirão. E dói. Dói pensar que cada momento único da sua vida nunca mais vai ser único. Ler seu livro favorito não será como da primeira vez, nem assistir aquele filme que costumava te encantar ou ouvir aquela música que alegrou seus momentos mais sombrios. Seus amigos cresceram, e você também. Suas obrigações mudaram, e de repente você não encontra mais tempo para ser você.


Os momentos únicos vão sendo cada vez mais raros, e você sente que parar no tempo agora não adiantaria mais, porque o agora não te satisfaz. O agora não é o que você queria antes, e o antes nunca foi o que você quis. Mas agora é. Agora você quer o antes... mas como voltar? Como estar de novo na sua própria pele, quando ela já descamou e se renovou? Como ser criança, adolescente, adulta, amiga, inimiga, filha, mãe, avó, feliz, triste, tudo em um só corpo, em uma só vida? Como ser você o tempo todo se o tempo leva os seus pedacinhos com ele e te deixa incompleta, sozinha, de um jeito tão horrível que só poderia ser obra dele?


Do tempo.


Que passou, está passando e nunca deixará de passar. Aquele que você não consegue usar a seu favor. Você não consegue fazer com ele aquilo que gostaria, mas você quer. Você quer muito ser atriz, cantora, escritora, dançarina, saudável, corajosa. Você quer sair da cama e realizar todos os seus sonhos. Você quer superar a saudade de casa, dos seus amores, da sua infância. Mas o tempo não deixa. Ele passa tão rápido que você tem de escolher o que vai esquecer, o que vai realizar, o que vai deixar pra lá. A saudade de casa nem é uma opção. A saudade de você mesmo é o que te mantém longe da solidão.


O tempo não é companhia, não é filho, não é pai, não é feliz, não é triste, não é calmo. Não é ninguém. Mas você é. E essa é uma responsabilidade que tempo nenhum vai tirar de você. Se isso é bom ou ruim, você decide. Mas decida logo, que o tempo não costuma perdoar.

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