top of page

O VENDEDOR DE MOEDAS




Havia um homem que vendia moedas, e entendo parecer estranha a ideia de vender dinheiro. Oswald era um velho e abastado senhor, já à beira do colapso de seu frágil corpo humano. Infelizmente, para ele, sua fortuna tornou-se obsoleta. Com o que mais, além de medicamentos e tratamentos caros, ele poderia gastar? Não tinha idade para divertimento qualquer. Então, usando de seus últimos esforços, montou em frente à sua imponente mansão uma pequena tenda com panos brancos e esparsos móveis de madeira e abriu uma maleta com contratos em papel, nada refinado demais. Em sua volta, um grupo de seguranças se prostrava.

Vez ou outra, um transeunte curioso lhe dirigia a atenção para perguntar de que consistia o objeto da venda. O velho homem, com escuros sacos de pele sob os olhos, brevemente proferia: “tempo”. Sem entender, davam risada. “Debochado, você”; “Essa é boa”; “Tá de palhaçada, né? E eu atrasado pro trabalho…”. E tomavam rumo. Finalmente, um jovem rapaz, praticante da amável filosofia da curiosidade, resolveu se ater um pouco mais à possibilidade do absurdo que ele acabara de ouvir. “Como assim tempo?” Perguntou. Sorrindo, Oswald explicou que, a cada ano de vida ofertado, o cliente receberia meio milhão do que quer que fosse sua moeda-padrão. Para um brasileiro seria o real, por exemplo. Nenhuma transação seria dada imediatamente. A pessoa assina o contrato, vai embora, e o dinheiro aparece na conta, simples.

Desacreditado, o jovem se deixou gargalhar, e disse: “pois vendo-lhe trinta anos de minha vida”. O homem por trás da bancada, igualmente incapaz de conter sua excitação, deu um meio sorriso e passou-lhe a papelada, ajustada nos termos do que acordaram. Sem nada ler, o contrato ele assinou e, ainda rindo, saiu. Segue o dia, conversas indo e vindo com desinteresse, risadinhas e cochichos. Às crianças, nenhuma venda, porque são todas muito curiosas, com pouco senso de malícia, e manipulá-las era uma linha que Oswald não se deixava cruzar, como para se convencer de que não estivesse se aproveitando dos outros ou qualquer outro motivo.

Algum tempo depois, um austero homem de negócios resolveu estudar o porquê de um senhor cuja fortuna ele reconhecia há muitos anos estar ali, diretamente, fora dos comuns blocos de concreto das instituições de poder, vendendo “moedas”. Aproximando-se com certa confiança, ele arqueou uma sobrancelha e fez a pergunta: “Que é isso?” Oswald, paciente, explicou. “Hahahahaha, que piada!” Disse-lhe o homem. Ainda cheio de si, abusando de seu ceticismo e apoiando-se na metódica psicologia das coisas lógicas, ofereceu ao velho vinte anos de sua vida. Arrastou-se o papel, assinou-se o contrato, e o dia terminou com duas assinaturas no total. Deitado na cama, o rico senhor adormece com seus setenta e dois anos de idade.

Passa o tempo. A noite é calma e lenta, arrastando-se incomumente gélida e nebulosa pelas ruas e esquinas. Noite tal que de cuja névoa acanham-se os moradores e os indigentes, a quem o mundo fingia inexistência. As brisas leves sacodem as copas das árvores, e delicadas chuvas de folhagem molham os ladrilhos das estradas da propriedade de Oswald. Cortinas de seda dançam ao vento, e, por algum motivo, sente-se mais o mundo. Respira-se mais fundo, sonha-se mais lúcido, como se o cérebro de repente despertasse de um profundo coma, e fez-se manhã. Logo às seis, Amélia, uma cuidadora de apenas vinte anos, abriu a porta do quarto principal, encontrado no grande salão da ala um. “Bom dia, senhor”. Sorrindo, um tímido jovem de pouca idade, também próximo aos vinte anos, para mais ou para menos, observava a parede de espelho anexa ao grande armário frente à cama. 

“Meu Deus…”, ele disse. A cuidadora, confusa, perguntou quem ele seria. O garoto caiu na risada, e explicou que era Oswald, que havia rejuvenescido, e que sentia-se vivo como nunca, talvez ainda mais do que houvera sentido há cinquenta anos. A menina, espantada, saiu em passos rápidos à procura dos seguranças, para que expulsassem o intruso. Uma pena, porém, porque eram eles os mesmos seguranças que guardavam a tenda e a porta do velho e que, com ainda mais curiosidade que os clientes, acreditaram fielmente no rejuvenescimento de Oswald, sabendo de antemão que ninguém houvera entrado ou saído durante a noite, e que as janelas eram trancadas com barras de aço, porque seu patrão era sonâmbulo. Entraram às pressas nos grandes aposentos, armados de seus cassetetes, e pegaram-no pelo braço, apenas para procurar sua marca de nascença. Tendo-na localizado, deixaram cair a mão do rapaz, e retiraram-se às pressas, com os olhos arregalados.

“Como pode…” sorriu Amélia, sem se dar o trabalho de disfarçar. Ele a observava, e ela corou. Saiu correndo por um instante, e ele anunciou que ela não precisava sair. Ainda poderia ajudá-lo a tomar banho, como fazia todos os dias. É óbvio que, como um bom velho tarado, ele entendia que já não precisaria de nenhuma ajuda. Queria apenas um pretexto para ter como companhia uma menina que tinha uma fração de sua idade, e agora, aparentemente, isso era possível. Coisa boa não foi para sua esposa que, ouvindo os gemidos da cuidadora, pegou a cena em sua metade e saiu aos prantos. Nosso protagonista agora já não dava a mínima. Terminado o banho, voltou-se à venda.

“Ô seu velho filho da puta”, gritou o jovem do dia anterior. Aparentemente, restava convencido de que perdera tempo de vida, por qualquer motivo. “Que foi?”, provocou Oswald. “Que foi o caralho… fui consultar o saldo e tinha quinze milhões na minha conta, que porra é essa? Eu vou envelhecer trinta anos do nada agora?” Perguntou. “Não é assim que funciona” — explicou o vendedor — “eu reduzi seu tempo total de vida. Veja bem, o criador designou uma hora e data específicos para que você morresse. Agora, essa hora permanece, apenas regredindo no tempo em trinta anos. Você nada pode fazer para prolongar esse tempo, porque eu não aumentei sua probabilidade de morrer, entendeu? Não reduzi sua expectativa de vida. Reduzi, literalmente, seu tempo de vida. Eu compro tempo”. O garoto não acreditou e disse “que porra é essa… eu não acredito nisso”, ao que Oswald retrucou: “Que bom! A ignorância é uma bênção, e agora você está quinze milhões mais rico. Eu aproveitaria se fosse você”. “Quero minha vida de volta”, disse o rapaz. “Uma pena, você assinou o documento e eu não preciso restituir nada. Trato é trato”. O garoto entrava progressivamente em pânico à medida que se afastava da tenda.

É claro, é fácil a gente se perguntar o porquê do homem voltar à venda. Ele gostaria de, por qualquer motivo que fosse, tornar-se ainda mais novo? A verdade é que o desejo do velho era de entender como cada um reagiria à perda de sua idade, e olhem só: o homem de negócios apareceu, mas nunca para reclamar. “Puta que pariu, eu te dou mais trinta anos. Bora, anota aí”. Nosso vendedor, espantado, espelhando a anterior atitude do homem, levantou uma sobrancelha, ao passo que disse: “Não posso te vender trinta anos porque, agora, estou com vinte e dois. Tomar seu tempo não me fará bem, e algo me diz que você também não deveria arriscar valor tão alto, dado que já fez uma venda ontem mesmo. Vai ter que escolher subtrair da vida de outra pessoa, porque, aí, eu posso acionar esse crédito mais tarde, não precisa ser agora”. Sem hesitar, a resposta foi: “Minha esposa, tira da minha esposa, foda-se. Tira quarenta!”. “Bom, temos então um contrato”. Impassível, Oswald empurrou a papelada, e, trêmulo, o homem assinou. Saiu correndo para, quem sabe, investir o dinheiro rapidamente adquirido em algum outro esquema. Oswald sabia bem que homens com poder só poderiam perseguir, na vida, mais poder. Sabia, claro, porque era um desses.

Passou a tarde, e o vendedor, paciente, degustava seu álcool como não poderia fazer com sua antiga idade, quando sua recente clientela retornou. EU PEDI VINTE E VOCÊ ME DEU DEZESSEIS MILHÕES, PORRA. Gritou. “Interessante… bom, então foram retirados” — gesticulou  “os quarenta anos de sua esposa, e parece que ela já não tinha quarenta anos de vida mais, hem? Tinha apenas trinta e dois. Por isso, ela morreu e não pôde ser descontada mais idade. Isso está no contrato, você não sabe ler?” Invulnerável à morte de sua companheira, o homem formou um novo contrato, agora retirando, novamente, quarenta anos da vida de seu filho de dezenove. “Feito”, disse Oswald, e o cliente novamente se retirou, com os olhos vermelhos e inchados da ganância, como se visse o próprio rei Midas encarnado em sua frente. Irônico.

A noite de agora foi ainda mais leve. Dormindo com a cuidadora, Oswald teve sonhos leves, sentindo-se viver no aroma da mocidade, despreocupado com objetivos de vida que ele já houvera adimplido. Acordou de madrugada decidido a mudar para um nome mais jovem. Ir à cidade, conhecer outras moças, entrar em boates e ser pragmaticamente irresponsável da forma mais eficiente possível, e assim o fez, mais tarde. Dias vieram e foram, e a vida seguiu, para o deleite do velho. Ninguém entendia o porquê de ele ser capaz de fazer, daquela forma, um contrato como aquele, e de o vender com tamanha facilidade. Quando quer que o homem se via aproximar dos trinta anos, simplesmente formulava novos contratos, e mantinha-se a pouca idade, e sempre houve compradores. Trocava suas funcionárias como quem troca de sapatos, não se importando com vínculos afetivos que se formaram ao longo do tempo, apenas para engajar-se sexualmente com todas elas, e vivia a mais carnal das existências, aparentemente imortal.

Há que se pensar que, nessa história, algo de ruim estaria para acontecer ao nosso protagonista. Afinal de contas, por que esse ganancioso verme de longa idade se mascarava por jovem, machucando a tudo e a todos e arruinando as vidas de todas as pessoas de quem ele contratava o tempo, sem nenhuma consequência? Tempo demais havia passado para ele, para nossa noção de tempo. Estava agora com setecentos e cinquenta e oito anos, bebericando um chá em seu banco de praça, ainda dentro de uma de suas nobres propriedades, em um jardim ornado, complexo e dotado das melhores flores, podadas e cuidadas pelos melhores profissionais. Chega uma visita, um jovem detetive, de sóbrias e imponentes vestes pretas, confortáveis e largas, fumando, como todos os filmes dizem fumar os detetives. 

“Sente-se”, disse o velho, aparentemente mais novo do que o próprio detetive, afinal de contas, cigarro. “Bom, tá na cara já, né? Pra mim você não precisa fingir muito”. O vendedor o estudou de cima a baixo, e mostrou uma seriedade que, para seu rosto, era incomum, na colônia de férias que era sua vida. “Que quer dizer, detetive?” Fingiu, enquanto o outro respondia: “No inferno estava chato demais? Quantos anos você tem, hã?” O velho gargalhou. “Finalmente, porra! Um vermezinho que me achou aqui. Vocês são obtusos pra cacete, não são?” Provocou. “Eles são…” — rebateu o detetive. “Qual teu nome, garoto?” Disse Oswald. “Chama de Arantes”, disse o fumante, e continuou: “então a estrela da manhã saiu de seu trono para vir aqui fazer merda entre os humanos, pra quê? Se somos vermes, você haveria de ter nojo de estar entre nós, não é não?”

O perigoso satã, comicamente bebendo um chá, como a mais inocente das criaturas, disse: “eu não me serviria de criaturas celestiais. A natureza do homem é de cair nas iscas de suas próprias ganâncias, afundar-se nas lamas de seus próprios devaneios. Até essa merda que vocês chamam de dinheiro, olha que coisa incrível. Vocês gostam pra cacete disso, se pudessem transformar a mãe em dinheiro, transformariam”, e riu. Arantes enfureceu-se e de súbito levantou da cadeira. “Volta pro buraco de onde você veio, seu lixo. Você veio estragar a nossa vida, fazer merda no nosso mundo, sai logo desse lugar, porque você não é bem-vindo aqui”. O demônio olhou-o nos olhos, sem compromisso, e concluiu: eu, garoto? Bom, é mesmo fato que vocês não tomam as responsabilidades pelo que fazem. A velha história do homem que culpa a Deus por não ajudar as pessoas que o próprio homem poderia ajudar. Você conhece gente que se entrega de corpo e alma atrás de coisas incertas, apostando tudo por dinheiro? Conhece, né… pois bem… meus contratos são feitos entre duas partes, detetive. Não adiantaria eu propor se ninguém aceitasse.




Autoria: Rodrigo Ferreira

Revisão: André Rhinow e Anna Cecília Serrano

Imagem de Capa: Old shopkeeper (Mee6 via /imagine prompt)

bottom of page