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OS BRINCOS



Desde que me conheço por gente, sempre tive alergia a brincos. Literalmente qualquer um. Para a grande frustração da minha mãe, que gastava uma grana em joias banhadas a ouro, aço cirúrgico, ou até mesmo titânio, nada dava certo. Era uma coceira danada, e, se eu ficasse com um brinco por mais de dois dias, já era considerado sucesso. Foi então que, aos onze anos de idade, desisti completamente da ideia de usar os tais apetrechos e assumi de vez o jeito bicho do mato de ser, renegando tudo que não fosse aquelas pulseirinhas de praia e colares de corda.



Entretanto, no meu aniversário de dezoito anos, tudo mudou. Numa decisão impulsiva, decidi que a alergia era um fator que beirava um devaneio psicológico e fui logo fazer meu primeiro piercing na orelha. Péssima ideia. Fiquei semanas com a orelha ardendo, fazendo compressas de soro gelado a cada minuto do dia e tentando controlar todos os meus impulsos primitivos que gritavam para eu deixar de ser idiota e arrancar logo aquilo.



Como se isso não fosse o bastante, decidi também que era hora de voltar a usar brincos — afinal, precisava de algo para combinar com aquela joia ainda inflamada, não é mesmo? Fui então com uma amiga até uma lojinha do lado de casa e escolhi duas argolas douradas que vinham com um pingente circular que ficava balançando sempre que eu mexia a cabeça, como se fossem aqueles sininhos que anunciam sempre que um cliente entra em algum estabelecimento. Uma graça.



Durante dois anos, quase não tirei os brincos. Me acostumei com o tilintar das argolas, e, sempre que ficava nervosa, levava imediatamente a mão aos pingentes e ficava girando-os sem parar até que a angústia passasse por completo. Posso dizer com a maior certeza do mundo que esses brincos estiveram presentes em alguns dos momentos mais difíceis da minha vida, sempre tocando baixinho aquela música aguda dos pingentes, para que só eu pudesse ouvir.



Mais ou menos duas semanas atrás, perdi os brincos. Apesar de sua grande carga sentimental, a história não é lá muito interessante: fui obrigada pela equipe médica do hospital a retirar todos os acessórios para realizar uma ressonância magnética, e lá se foi meu brinco para o fundo da minha bolsa e, do fundo da minha bolsa, para o chão. Fim da história.



Contudo, só fui dar falta deles quando estava para lá de nervosa no aeroporto, prestes a embarcar para meu intercâmbio. Estava muito ansiosa e precisava desesperadamente daquela tranquilidade sutil que os brincos me proporcionavam. Comecei a revirar a bolsa igual uma louca em busca das argolas… E não encontrei nada. Dá para imaginar que fiquei chateadérrima. Me sentia diferente sem os brincos, sem a sua música, e continuava constantemente levando a mão aos ouvidos na esperança de me acalmar girando os pingentes, apenas para não encontrá-los onde sempre estiveram. Acho interessante como coisas tão pequenas podem acabar deixando uma ausência enorme, como se o arrancar de um pequeno broto significasse o fim da primavera. Infelizmente, como no mundo não há muito espaço para sentimentos tão simplistas como o eterno luto por um par de brincos dourados, tive que seguir com a vida.



Algumas horas depois, recebo a notícia que meu voo havia sido cancelado. Aparentemente o avião havia quebrado ao tentar sair de Santiago. O que a ausência de um parafuso não faz, não é mesmo? Enfim, voltei para casa desolada. Ao chegar no prédio, algo chamou minha atenção. Um pequeno objeto dourado reluzindo um brilho fraquinho no meio da poltrona do hall de entrada. Não poderia ser, poderia? Pois era! Meus brincos estavam lá o tempo todo!



No momento em que peguei eles na mão, pensei “estou exatamente onde deveria estar” e fui tomada por uma sensação de tranquilidade que não sentia há muito tempo. Alguns podem dizer que tudo isso não passa de mera coincidência, enquanto aqueles mais sensíveis às energias tendem a enxergar tudo como um sinal do universo. Para mim, pouco importa. A magia de tudo está no fato de que nunca saberemos a verdade. Fato é que o acaso funciona no presente para que o caos não aconteça no futuro, obrigando o destino a sempre emitir alguma resposta para nossas ações. E, às vezes, mas só às vezes, todas essas respostas podem estar em um simples par de brincos dourados.




Nota da autora:

Sim. Eu escrevi esse texto enquanto usava os brincos.



Autoria: Victorya Pimentel

Revisão: Luiza Parisi e Anna Cecília Serrano

Imagem de capa: Noir Kala




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