Os Ecos da Operação Policial na Política
- Ornito Vargas
- 6 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Na última semana, desdobrou-se mais uma etapa da permanente “Operação Contenção” nos morros do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, com o objetivo de cumprir cerca de 100 mandados de prisão contra membros do Comando Vermelho (CV). Segundo dados do Palácio Guanabara, o confronto foi o mais letal da história do estado, com mais de 120 mortes confirmadas. Diante desse cenário, vale a reflexão: há um ciclo vicioso de violência ou uma real promoção de segurança? Até que ponto é possível legitimar o combate ao tráfico quando tantas vidas são perdidas?
A ação não contou com apoio do governo federal, que recusou o pedido de auxílio feito pelo estado, ainda que o Ministério da Justiça tenha afirmado não o ter recebido. A Polícia Federal o recusou por divergência na escolha dos alvos com as Polícias Civil e Militar. Felipe Curi, secretário da Polícia Civil do Rio de Janeiro, definiu a ação como legítima, com base na motivação constitucional de promoção da ordem e da segurança pública. O episódio reflete a atual polarização: de um lado, setores da direita – como membros do Partido Liberal (PL); o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (NOVO); o prefeito carioca Eduardo Paes (PSD); e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL) – desaprovam o posicionamento do governo federal, acusando-o de associar traficantes a “vítimas de usuários”, uma consequência do ciclo de compra, venda e vício, algo que reflete na “leniência” com o tráfico, justamente pelo contexto da associação ser uma crítica ao posicionamento favorável do presidente americano Donald Trump à operações violentas contra o tráfico. De outro lado, a esquerda condenou as decisões de Castro, acusando-o de ter feito a “escolha do caminho da truculência” e defendendo sua responsabilização. Haveria, desse modo, espaço para uma política pública que não fosse reduzida à essa antítese entre confronto e leniência?
A discussão repercutiu no debate acerca da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública, cujas propostas facilitam políticas de segurança pública por parte da União. Caso aprovada, a Polícia Federal poderia atuar de maneira mais organizada e eficaz, reduzindo inclusive as baixas colaterais. Sem os efeitos propostos pela PEC e sendo realizada de maneira isolada (somente com recursos do estado), a operação evidenciou a falta de cooperação entre o governo estadual e o Ministério da Justiça, o que pode revelar uma fragilidade institucional.
Houve também acusações de descumprimento de determinações da ADPF 635, apelidada de ADPF das Favelas, cujo acórdão explicita a obrigatoriedade do uso de câmeras corporais, presença de ambulâncias e outros mecanismos a fim de reduzir a letalidade policial durante operações dessa natureza. A movimentação indevida de corpos e a maneira como os socorros foram conduzidos revela um possível descumprimento da decisão, cabendo agora ao Supremo Tribunal Federal (STF) avaliar o caso após a denúncia do Conselho Nacional de Direitos Humanos.
A última pesquisa da Quaest ilustrou como a principal preocupação do eleitor desde o início de 2025 tem sido a violência (30%), superando saúde (11%), educação (6%), economia (16%) e problemas sociais (18%). Portanto, é essencial que a população se manifeste a fim de decidir como lidar tanto com a desigualdade quanto com o crime organizado – um assunto que certamente será central para as próximas eleições. É possível que o desafio não seja apenas conter o crime, mas redefinir o entendimento de segurança em um país no qual a violência é, muitas vezes, também uma linguagem política.
Autoria: Vítor Pires de Noronha
Revisão: Ana Clara Jabur
Referências
ADPF, Na. Rio De Janeiro Descumpriu Decisão Do STF Na ADPF Das Favelas? Entenda - Migalhas. Disponível em: <https://www.migalhas.com.br/quentes/443335/rio-de-janeiro-descumpriu-decisao-do-stf-na-adpf-das-favelas-entenda>. Acesso em: 5 nov 2025.
BRASIL, Da CNN. Lula Afirma Que Traficantes De Drogas São “Vítimas De Usuários”. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/lula-afirma-que-traficantes-de-drogas-sao-vitimas-de-usuarios/>. Acesso em: 5 nov 2025.
BRASIL, Da CNN. PF Estava De Olho No RJ, Mas Teve Motivo Para Recusar megaoperação; Entenda. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/especialista-alvos-da-pf-nao-batiam-com-os-da-megaoperacao-no-rj/>. Acesso em: 5 nov 2025.
GENIAL INVESTIMENTOS e QUAEST. Pesquisa De Avaliação Do Governo Lula.
LEWANDOWSKI. Lewandowski Diz Que Não Recebeu Pedido De Apoio À Operação No Rio. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-10/lewandowski-diz-que-nao-recebeu-pedido-de-castro-para-apoio-operacao>. Acesso em: 5 nov 2025.
O GLOBO. Operação No Rio Vira Motivo De bate-boca No Congresso: Esquerda Ataca Castro E Direita Mira Em Lula. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/blogs/sonar-a-escuta-das-redes/post/2025/10/operacao-no-rio-vira-motivo-de-bate-boca-no-congresso-esquerda-ataca-castro-e-direita-mira-em-lula.ghtml>. Acesso em: 5 nov 2025.







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