OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS?



Essa é uma questão que sempre permeou a “boca do povo”. Ambas respostas – “sim, eles justificam” e “não, eles não justificam” – são percebidas no imaginário coletivo, variando frequentemente conforme o contexto e a conveniência. Deveríamos confiar nessa flutuação? Qual a credibilidade desses paradoxos que permitem que a “boa ação” possa ser ao mesmo tempo a “má ação” de acordo com quem a comete ou por que a comete? Mais que isso, quais seriam os fatores que norteiam nossas escolhas nesse sentido?


As manifestações antigoverno ocorridas em meio a uma possível terceira onda da Covid-19, neste 29 de maio de 2021, trouxeram-me até aqui. Quando as manifestações pró-governo ocorreram (ironicamente, no 1º de maio, Dia do Trabalho), essas foram alvos de inúmeras críticas que giravam majoritariamente em torno da aglomeração, do negacionismo e do descaso do governo frente à pandemia. Nesse sentido, uma vez que ambas aconteceram no meio de um momento crítico que, até hoje, segundo os números oficiais, assolou a vida de 463 mil pessoas (dados de 1 de julho) ¹, seria possível atribuir legitimidade a ambas? Estariam elas envoltas em um mar de hipocrisia e, até certo ponto, de negacionismo? Certo estou de que este será um texto amargo, pois poucas coisas nos envergonham mais do que a retirada do véu da convicção.


Fundamentalmente, a meu ver, o ponto-chave dessa questão que nos faz transitar entre a justificativa ou não dos meios que nos levaram a essa ressignificação dos perigos dos protestos é envolvida por dois caminhos. O primeiro deles seria olhar a questão a partir de um ponto de vista do cálculo das consequências de nossas ações. Essa via estaria relacionada com uma tentativa de compreender quais são as consequências de nossos fins, uma vez atingidos, para as pessoas que nos cercam. Assim, uma vez provado que o saldo dos ganhos – fins – contra as perdas – meios – seria positivo, é com relativa certeza que a ação por nós escolhida seria a mais racional a se tomar.


Já no segundo, deveríamos incluir dentro desse cálculo uma percepção de que há uma diferença de poder entre os agentes do sistema. Se, por um lado, os que estão no comando podem utilizar-se de maneira mais eficaz e ágil das vias tradicionais para agir, os que estão em condição desfavorável possibilitariam o equilíbrio de forças apenas se se utilizassem de recursos os quais os “poderosos” não podiam prever. Em suma, “Se meu poder é pequeno, seria justo utilizar-me de recursos incomuns para atingir meus objetivos”; ou então, “Se minha posição é de força, e não de fragilidade, devo restringir meus atos para os recursos usuais, onde a bondade – a harmonia - prevaleça; caso contrário, eu seria um tirano”. Sendo assim, este caminho aponta que nossa incapacidade de reagir frente às injustiças legitima nossas ações, certamente não perfeitamente cheias de razão, porém que abrangem, pelo menos em sua intenção, resultados bons.


Mas também é claro que deve haver muita cautela, calma e planejamento nessas considerações. Há um limite que não pode ser ultrapassado: a violência. Quando se tratam de guerras, essa questão nos é muito clara. Conta-se as mortes do conflito e conseguimos com facilidade efetuar mentalmente o balanço de se aquele conflito “valeu a pena ou não” — isto é, se os ganhos foram tamanhos que se pode até encontrar uma justificativa para aquelas vidas perdidas. No entanto, ainda assim suspeito desse método, pois inserir a variável “valor da vida humana” dentro de uma mera apuração me parece algo que poderia levar-nos a cometer tremendos absurdos. Portanto, temos um impasse: a abdicação da vida enquanto valor não parece ser passível de renúncia em hipótese alguma.


Voltemos para o caso das manifestações. Prevejo que terão aqueles que levantarão a bola de que os protestos relacionados ao assassinato do norte-americano George Floyd no ano passado não aumentaram os casos de coronavírus. Um artigo publicado no final do ano passado pelo Jornal de Saúde Pública de Oxford chama atenção para o aumento tênue do número de casos². Como foi consideravelmente pequeno, o estudo concluiu que não é possível associar com significância estatística o aumento de casos aos protestos do Black Lives Matter.



Mesmo assim, seria absurdo considerar que não houve um contágio sequer em um protesto envolvendo milhares de pessoas. Se considerarmos o caso brasileiro, especialmente o paulista, no qual o volume de pessoas aglomeradas chegou a ocupar em seu pico dez quarteirões da Avenida Paulista³, além da falta de organização e distanciamento de muitos manifestantes, os quais limitaram sua prevenção ao contágio à máscara PFF2, o mínimo a se esperar seria uma maior contaminação comparada ao contexto de Floyd. Um pequeno grupo de pessoas contamina um outro pequeno grupo de pessoas que, por não terem ciência de sua contaminação, contamina mais outro pouco que por sua vez contamina outro “pouco” que agora não é mais “pouco”. Mas esse é um argumento puramente lógico. Nas próximas semanas, se houver apreço pelas entidades científicas sobre essa questão, saberemos até que ponto as manifestações contra o governo genocida e negacionista contribuíram para uma terceira onda e, então, paradoxalmente, para o genocídio contra o qual elas mesmas lutavam.


E eu estaria sendo inconsistente se colocasse tais manifestações no mesmo patamar das manifestações bolsonaristas, pois os objetivos dessas são completamente diferentes. Enquanto uma luta para que o desgoverno persista, continuando a produzir quantidades assustadoras de mortos, a outra busca dar fim a essa “balbúrdia”. De acordo com uma reportagem recente feita pela BBC, a qual envolveu diversos analistas brasileiros, as manifestações deste sábado evocam uma perda do monopólio do atual presidente nas ruas, uma maior dificuldade de reeleição e possibilidade de impeachment, um fortalecimento da CPI da Covid-19 e, por fim, um aumento da pressão por parte do “centrão” ⁴. Se isso for verdade e vier a acontecer, então atestamos a eficácia das manifestações, mas não necessariamente justificamos sua ocorrência.


Essas previsões poderiam legitimá-las por minimizarem as prováveis e evitáveis mortes que ocorrerão caso o governo permaneça nesse curso, mas também embebe seus atos em sangue, indiretamente, devido à probabilidade de provocarem um aumento nos casos do vírus. Poderia, do mesmo modo, legitimá-las por sua composição se identificar com grupos de maior vulnerabilidade e menor poder, mas implicaria que, uma vez retomada nossa posição de poder após a queda do atual, acumularíamos mais semelhanças do que provavelmente desejamos em relação aos que pretendíamos depor. Além disso, teríamos alguns motivos para não nos orgulharmos tanto de nossa história, provavelmente, precisando omitir algumas coisas para manter em pé o heroísmo que tínhamos em mente. Seria essa a falha de nossa democracia? Sua incapacidade de garantir que seus meios atinjam rapidamente a expectativa do povo em momentos tão conturbados, instáveis e decisivos? Mais uma vez: os fins justificam os meios?


Embora essa questão pareça insolúvel, creio que não seja de forma alguma. Não podemos voltar atrás e mudar o que já foi feito. Mas, certamente, podemos rever alguns conceitos sobre a forma que executamos esses atos. O diálogo com nossos pares, embora não seja possível em todas as situações, é, no meu entender, sempre o melhor caminho. Isso porque ele nos revela soluções que ainda não imaginávamos, ampliando nossos horizontes. Todos estamos, até certo ponto, limitados por nossas percepções individuais, e, com isso, limitando as soluções que conseguimos encontrar para o problema. É o que a psicologia costuma chamar de heurística – uma estratégia utilizada por nosso sistema cognitivo para facilitar a tomada de decisão através da simplificação de problemas complexos ⁵. Em outro contexto, ela nos ajuda, pois permite que sigamos com nossas vidas sem hesitar em excesso, o que nos levaria à estagnação. No entanto, tratando-se aqui de um ato em grupo que levará a consequências que fogem de nosso controle, creio, eu, que a vereda da colaboração possa nos ser substancialmente mais frutífera.


Entendo que esse é um processo doloroso e que é complicado não deixar a impaciência tomar conta dos nossos pensamentos. Até o momento, 117 pedidos de impeachment já foram apresentados ao Congresso⁶. Assim, aqui faço a tentativa de elaborar sozinho algumas poucas possibilidades para superarmos esse empecilho, mas os convido a participar desse processo. Poderíamos fazer um barulho tão grande quanto o das ruas nas redes sociais? Se não, focar o movimento apenas em uma única avenida é a forma que mais mitiga esses danos? Conseguimos garantir que todos que foram ao evento não interajam com os que não foram? Até que ponto realizou-se um planejamento que conseguiu comunicar as medidas de segurança para todos os participantes? O que pode e o que não pode ser aprimorado?


Não podemos nos embriagar com a angústia de um Brasil que parece nunca mudar e colocarmos tudo a perder.


Gabriel Linares, 2021


Revisão: Bruna Ballestero e Cedric Antunes

Imagem de capa: Reprodução Instagram

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Referências:

  1. Painel Coronavírus. Ministério da Saúde, Brasil, 1 de junho de 2021. Disponível em: <https://covid.saude.gov.br/>. Acesso em: 1 de junho de 2021;

  2. DALSEY, W. & NEYMAN ,G. Black Liver Matter protests and COVID-19 cases: relationship in two databases. Journal of Public Health, 20 de novembro de 2020. Disponível em: <https://academic.oup.com/jpubhealth/advance-article/doi/10.1093/pubmed/fdaa212/5992372>. Acesso em: 30 de maio de 2021;

  3. Manifestações contra Bolsonaro reúnem milhares de pessoas em todo o Brasil. Veja, São Paulo, 29 de maio de 2021. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/politica/manifestacoes-contra-bolsonaro-reunem-milhares-de-pessoas-em-todo-o-brasil/ >. Acesso em 3 de junho de 2021;

  4. CARRANÇA, Thais. Protestos contra Bolsonaro: 5 possíveis consequências da mobilização, segundo analistas. BBC News Brasil, São Paulo, 30 de maio de 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57303146?utm_campaign=later-linkinbio-bbcbrasil&utm_content=later17625906&utm_medium=social&utm_source=linkin.bio>. Acesso em: 1 de junho de 2021;

  5. SOUZA, Taiz. Heurísticas: os atalhos mentais do pensamento humano. Psiconlinews, 9 de maio de 2015. Disponível em: <https://psiconlinews.com/2015/05/heuristicos-os-atalhos-pensamento-humano.html#:~:text=Na%20psicologia%2C%20uma%20heur%C3%ADstica%20%C3%A9,facilitar%20as%20tomadas%20de%20decis%C3%B5es>. Acesso em: 1 de junho de 2021;

  6. Losing traction Brazil’s President Jair Bolsonaro is under siege. The Economist, São Paulo, 29 de maio de 2021. Disponível em: <https://www.economist.com/the-americas/2021/05/29/brazils-president-jair-bolsonaro-is-under-siege>. Acesso em: 29 de maio de 2021.

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