POR BAIXO DOS PANOS



Abra seu guarda-roupa e olhe as etiquetas de suas peças, mais especificamente o “MADE IN .......”. Se quiser, anote e quantifique em uma tabela do Excel quantas vezes cada país aparece. Acho improvável que qualquer um de vocês faça isso, eu mesma não teria paciência. Então, analise seu armário atentamente. Arrume a bagunça, olhe por baixo dos panos e dobre todo aquele tecido. Sem muita dificuldade vai perceber um padrão. Índia, Bangladesh, Camboja, Vietnã, China, Taiwan... Não falo aqui com uma precisão estatística muito grande, suas roupas podem ser de outros lugares, afinal, nem sei ao certo quem vai ler esse texto. A questão é que, na produção globalizada, o lugar onde os produtos são idealizados e vendidos não é o mesmo daquele em que são produzidos, e isso não é diferente na indústria da moda.


Na década de 1960, os Estados Unidos da América produziam 95% das roupas que comercializavam. Em 2015, passou a produzir somente 3%. Com todas as mudanças políticas, sociais e econômicas, a cadeia de produção sofreu grandes mudanças, mudanças tais que afetaram, principalmente, as pessoas que constituíam a mão de obra cada vez mais barata. Lançado em 2015, o documentário “The True Cost” denuncia a dinâmica da indústria fast fashion, evidenciando, não só a realidade dos trabalhadores, como o impacto ambiental que a indústria tem. De um lado, países desenvolvidos com outdoors, desfiles, Black Friday e com a crença de que é preciso “estar na moda” para ser feliz. (Abro um parêntesis para comentar que não consigo engolir o conceito de “estar na moda”. Basicamente, um grupo de pessoas - normalmente, a elite branca - decide que certa peça “está em alta” e, por isso, o mundo inteiro se mobiliza para comprá-la. Que coisa mais estúpida.) Do outro lado, pessoas de países em desenvolvimento, por falta de opção melhor, trabalham em condições análogas à escravidão para alimentar o mercado ocidental.

A ideia chave de toda a indústria da moda é a seguinte: as lojas de fast fashion competem entre si para ver quem vende mais barato; uma loja abaixa o preço, a outra precisa abaixar mais ainda; em um telefonema, o responsável pela produção da H&M, por exemplo, avisa sua fábrica terceirizada que é necessário abaixar o preço de 3 dólares para 2 dólares; o chefe da fábrica afirma que não consegue fazer isso; H&M avisa que vai encontrar uma fábrica que o faça; chefe da fábrica volta atrás e diz que consegue abaixar o preço; H&M agradece educadamente e desliga o telefone; chefe da fábrica corta vários gastos; no mês seguinte, trabalhadoras (uso o pronome feminino porque, em grande parte, são mulheres que ficam por trás da máquina de costura) estão em um subsolo sem ventilação, sob um teto rachado, com mais duas horas na carga de trabalho e recebendo 0,3 centavos a menos por hora; em Nova Iorque, mulheres expandem seu guarda-roupa cada vez mais, afinal, precisam estar na moda, não é mesmo?! (note que, em 2015, os EUA compraram 400% a mais de peças de roupa do que em 1995).

Como consequências óbvias, os acidentes em locais de trabalho aumentam cada vez mais e as trabalhadoras que sobrevivem a eles têm condições de vida cada vez piores. Imaginam, desesperadas, o que espera suas filhas no futuro. Não poderia, porém, haver produção de roupas sem algodão, o que nos leva para a outra fábrica do ramo: a terra. Para acompanhar o ritmo de consumo, a terra deve trabalhar exatamente como queremos que ela trabalhe. Não existe ciclo da natureza nessa história. Vandana Shiva, ativista ambientalista, explica que as fábricas usadas para produzir explosivos durante as guerras foram convertidas para produtoras de fertilizante nitrogenado, usado, por sua vez, na produção de algodão.

Com a produção de algodão em mente, viajamos para Punjab, cidade ao noroeste da Índia, lugar com o maior cultivo de algodão do país e, portanto, maior consumo de pesticidas também. De cara não vemos problema, afinal os fertilizantes/agrotóxicos/adubos foram o que permitiram a melhoria da qualidade de vida humana. O que acontece, no entanto, quando esses mesmos químicos começam a afetar severamente a saúde humana? Não estou vendo os defensores ferrenhos desses produtos falando sobre isso. O médico Pritpal Singh estuda os efeitos desses pesticidas na saúde dos que vivem próximos das fazendas. Seus relatórios mostram um aumento no número de “defeitos congênitos”, câncer e doenças psiquiátricas nos habitantes da cidade. Por volta de 80 crianças de cada aldeia da região nasceram com problemas físicos, os quais precisam de medicamentos e tratamentos caríssimos e, portanto, para onde todas as economias da família são direcionadas.

O cromo-6 é outro protagonista nesta história. Vamos, agora, para a cidade de Kanpur, localizada ao longo do rio Ganges, onde estão as fábricas de couro. O cromo-6 é uma toxina pesada que é usada no tratamento do couro e depois é despejada na água dos arredores. Todo dia 50 milhões de litros de água residual tóxica são jogados no rio. Não bastasse poluir a água do rio sagrado do qual dependem 800 mil hindus, a toxina desceu para a reserva de água subterrânea, única fonte de água potável da região. Tendo como única opção beber essa água, doenças, como icterícia, passam a se tornar mais frequentes.

Os problemas são intermináveis. Entre 1999 e 2015, mais de 250 mil agricultores se suicidaram, na maior onda de suicídios registrada na história. Outro texto pode ser feito somente para explorar isso: como nosso sistema de produção e, portanto, sistema que define como nossas vidas devem ser vividas, é um grande motor para o desenvolvimento de doenças psiquiátricas. Não poderia deixar de mencionar também a produção de lixo que vem da indústria da moda: o estadunidense comum descarta, em média, 37 quilos de produtos têxteis por ano, o que equivale a 11 milhões de toneladas indo para o lixo. Para que tantas mulheres estão perdendo a vida nas fábricas??? Para que depois tudo seja jogado fora, provavelmente, nos aterros de seu país???

Confesso que escrevi esse texto com muita raiva na ponta de meus dedos. As teclas do computador foram massacradas. Foi um daqueles dias em que ficamos abismados, pela milésima vez, quando vemos que a humanidade tem muita coisa para resolver. Que brincadeira é essa que estamos fazendo? Quanto vale a vida de uma pessoa? Tornamos as coisas tão impessoais e individuais que não temos visão do panorama geral. E a maior piada disso tudo, que no caso não me faz rir em momento nenhum, é que as pessoas, a mídia, os governos e as ONGs querem resolver esse problema com uma simples solução: compre menos roupas; vá para brechós; ajude seus comerciantes locais. Carambolas, como se isso fosse resolver tudo.


De nada adianta culpar o consumidor quando, na verdade, existe uma maquinaria inteira que alimenta isso. Somos levados a acreditar, por todas as propagandas, que consumir cada vez mais é o que tornará nossa vida boa e feliz. É a velha história do movimento ambientalista neoliberal: vamos deixar de comprar roupas, fechar as torneiras, não comer carne, não usar canudos de plástico, assim tudo vai se resolver. Enquanto nós, consumidores, fazemos esforços diários para salvar a natureza, o sistema capitalista continua com seu velho hábito, que é na verdade a sua essência: continuar lucrando. De que adianta mudar nossos hábitos quando o sistema que regula nossas vidas continua igual? Para tentar reverter o desastre ambiental que nos espera em breve, é preciso mudar a lógica de consumo, lógica tal que não vai mudar culpando o consumidor e sim, parando de alimentá-la com a falsa crença de que a solução para ser feliz é comprar.

Não quero ser fiscal de sua moralidade. As roupas baratas tornam possível que famílias pobres, que compõe a maior parte do país, tenham acesso fácil a peças de roupa. Isso é um fato. E para isso, pensando na complexidade do mundo, digo que a única solução que encontro é uma mudança sistêmica. Isso não deve, no entanto, nos impedir de discutir a respeito disso e, principalmente, criar políticas públicas direcionadas para resolver esses problemas. As pessoas estão perdendo suas vidas e a crise ambiental é iminente, precisamos nos mexer.


Referência Bibliográfica: Documentário “The True Cost”

https://www.youtube.com/watch?v=0wB2SS1GC3M



Redatora: Tiz Almeida

Revisores: Beatriz Nassar e João Vitor Vedrano


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