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Quem guarda, tem


Maio é o mês. Para quem gosta de cinema, Cannes é a cidade e seu Festival é o evento do ano. Mais que uma noite e que uma única premiação, o Festival de Cinema de Cannes tem lançamentos de filmes e de filmes do mundo inteiro, não só dos Estados Unidos; eventos paralelos de todas as importâncias e vários prêmios, dias a fio - e tudo isso com o fundo da Costa Azul, com as pessoas mais bonitas do cinema frente às câmeras mais atentas do mundo.


Para quem gosta de moda, o baile de gala do Metropolitan de Nova York com seus 60 degraus de tapete vermelho recebem as pessoas mais famosas com as roupas mais extravagantes. Isso tudo significa que você precisa usar mais que um chinelinho, talvez um colar icônico recém-lançado Bulgari de 140 quilates, ou melhor: usar realmente um já consagrado ícone. Foi pensando nisso, quem sabe, que estrelas do mundo todo deram as caras nos tapetes vermelhos vestindo verdadeiras peças-ícones que marcaram épocas, tiradas dos arquivos das marcas e das mentes dos grandes criadores que fizeram história. Quem guardou bem, se deu bem.


Alguns de Cannes: Hunter Schafer de vestido azul Giorgio Armani Privé 2011; Yseult com o tailleur e saia “New Look” do Dior 1952; Naomi Campbell com um vestido Chanel desfilado por ela mesma em 1987; Livia Nunes de Marc Bohan para a Dior de 1983. Outros de Nova York: Zendaya, primeiro com um Givenchy 1996 preto de cauda enorme, arrematado com um chapéu Alexander McQueen 2007; depois com um vestido de tule verde e azul que John Galliano refez tal qual o seu próprio criado para Dior em 1999; Kendall Jenner com seu vestido de 10 mil miçangas de Lee Alexander McQueen para Givenchy de 1999 e Iris Law de transparente Versace 2002, fechando com uma réplica feita para Nicole Kidman, que é a loucura maravilhosa de um Cristóbal Balenciaga 1952. 


Parece ser um movimento genial: menos risco - uma vez que não recai sobre os ateliês de hoje a responsabilidade de criar uma roupa uau!; com mais retorno - afinal, o burburinho de se usar uma peça ou um estilista sabidamente reconhecido e celebrado garante atenção à marca e à atriz, reafirmando coisas importantes para a moda e para as relações públicas: i) exclusividade, afinal a peça sequer é reproduzida e nem está a venda; ii) identificação, à medida que as peças reafirmam códigos da marca, saberes acumulados com o tempo e iii) desejo, pois todo mundo quer ser um ícone, ou associar-se a um. Ainda por cima, é um movimento quase imune à crítica: quem é destemperado de falar que Karl Lagerfeld (Chanel 1987), Giorgio Armani (2011), Cristóbal Balenciaga (1952) mandaram mal nas suas criações?


Outro aspecto interessante a se refletir para entender o movimento é a crescente preocupação com sustentabilidade. Eventos comerciais revolucionários como os tecidos sintéticos da década de 1970 e as ultra-fast fashion de hoje fizeram da moda uma indústria que polui muito. Isso é sabido e faz com que os consumidores reflitam que tipo de roupa pretendem consumir - uma que esteja boa e bonita mesmo depois de 30 anos - e que tipo de mensagem as marcas querem passar - jovem e atenta, sobretudo emblemática, histórica mas atemporal - num mundo que enfrenta desastres ecológicos sérios para a sobrevivência não só da indústria, mas da própria espécie que veste a roupa. 


Será que todos pensaram igual ou seria também um movimento natural do reavivamento de códigos, dados os ciclos da moda? Um saudosismo com tempos de grande identidade e prestígio criativo de cada marca, menos pasteurizadas por pesquisas de mercado e por apelo comercial? Uma aposta das empresas para reafirmar suas marcas como partes atemporais da cultura e do estilo? Não sei. Mas o fato é que a minha avó acabou de usar na minha formatura um vestido de tule bordado com pedras brasileiras de 1987 e a Marina Ruy Barbosa também apareceu com um Chanel 1987 para assistir o Conde de Monte Cristo. Minha conclusão é que as estrelas de Cannes pensaram como ela: great minds think alike. E quem guarda, tem: para usar em maio de 1987 ou de 2024, em grande estilo, 37 anos depois.


 

Autoria: Pedro Henrique Guimarães

Revisão: Laura Freitas e Sofia Nishioka Almeida

Imagem de capa: Polaroids do desfile de primavera-verão "Tributo aos Artistas", Yves Saint Laurent (1988).

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