“SE EU ERRAR, O PT VOLTA...”



“Não critique, se não o PT volta” .... Frase constantemente afirmada pelos apoiadores mais ferrenhos do presidente Jair Bolsonaro em resposta a qualquer crítica feita ao seu governo durante os últimos 4 anos.


E o PT voltou. Na eleição mais disputada desde a redemocratização e, possivelmente, desde o início da República, o candidato Luís Inácio Lula da Silva (PT), superou o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) por 50,9% a 49,1%, com 2,1 milhões de votos a mais.


É inegável que algumas estratégias adotadas pelo presidente eleito Lula funcionaram: a aliança com Geraldo Alckmin garantiu uma alta votação no estado de São Paulo, culminando em uma vitória por 53,54% a 46,46% na maior cidade do país. O apoio de diversas figuras historicamente voltadas ao centro contribuiu para uma maior aceitação entre os eleitores moderados, entre elas o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o incansável candidato Ciro Gomes e o jurista Miguel Reale Jr., ironicamente um dos autores do impeachment de Dilma Rousseff, a última petista a ocupar o cargo da Presidência da República.


A aliança de Lula com Simone Tebet também se mostrou de grande importância para a reta final do segundo turno. A senadora apareceu no horário eleitoral e participou de palanques, não apenas declarando o seu voto em Lula, mas também contribuindo ativamente em sua campanha.


Entretanto, da mesma forma que o antipetismo foi um dos principais fatores para a vitória de Bolsonaro em 2018 (que continuou com um bom desempenho nas urnas em 2022), o “antibolsonarismo” foi um dos principais fatores que garantiu a vitória de Lula.


O PT permitiu um crescimento de Bolsonaro ao deixar o país em uma grave crise econômica e política. Com uma alta inflação, escândalos de corrupção e uma má gestão, o PT deu de mão beijada o cargo da presidência a Bolsonaro a partir de um movimento antipetista que crescia com a insatisfação de um governo mal avaliado.


Após ter a sua imagem desgastada ao longo dos últimos anos, Lula não sabia até que ponto o antipetismo ainda poderia jogar contra ele. Independente do mérito de sua prisão e da competência da Vara de Curitiba para o seu julgamento, o envolvimento de seu partido e de seus principais aliados nos maiores escândalos de corrupção já vistos na história política do Brasil recente desgastaram a sua imagem perante a opinião pública e fizeram com que, em 2018, fosse eleito o primeiro candidato de fora do PT em 20 anos.


Mesmo assim, esse não foi o único feito de Bolsonaro. Agora, no final de seu mandato, Bolsonaro conseguiu a proeza de ser o primeiro presidente em exercício a não se reeleger. E, com uma convicção tão grande de que a sua vitória era certa, também foi o primeiro presidente a não se pronunciar oficialmente nas primeiras horas após a eleição.


Até que ponto a estratégia de Bolsonaro falhou? Até que ponto um mau governo de Bolsonaro não superou o próprio antipetismo, movimento forte e estabelecido desde 2018?


Uma direita bem estabelecida e robusta com diversas figuras que surgiram após o impeachment de Dilma Rousseff assumiu o governo em 2018 e, após diversas divergências internas nos últimos 4 anos, foi se desfazendo. Bolsonaro, junto de seu clã mais fiel, não soube fazer uma autocrítica (que tanto pediu para o PT fazer), não soube negociar e não soube governar. Desde que assumiu, Bolsonaro fez um antigoverno que visava a destruição.


Na educação, Bolsonaro colecionou ministros que nada apresentavam, além de “guarda-chuva contra fake news” e propostas para “desesquerdizar” as escolas e universidades. Constantes cortes de verba materializavam a imagem passada pelos seus ministros: Ricardo Vélez, que sugeriu a filmagem do canto do hino nacional seguido do slogan da campanha bolsonarista “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.” nas escolas; Abraham Weintraub, alvo do inquérito das fake news e ativo participante em manifestações antidemocráticas; Carlos Alberto Decotelli, o economista que comandaria a educação com um currículo falso: o seu doutorado na Universidade de Rosário (Argentina) e seu pós doutorado na Universidade de Wuppertal (Alemanha), assim como seu período de professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, foram contestados pelas próprias instituições de ensino; Milton Ribeiro, denunciado pela PGR ao relacionar a homossexualidade a famílias desajustadas. Milton Ribeiro, o mesmo que “delegou” a pastores o controle do FNDE e o contato amigável estabelecido com prefeituras para apoiar a construção de igrejas. Assim como foi dito pelo ministro Ribeiro e revelado pela Folha de São Paulo, a sua “prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam. E segundo é atender a todos que são amigos do pastor Gilmar. [...] Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do Gilmar. Apoio. O apoio que a gente pede não é segredo. Isso pode ser publicado. Apoio sobre a construção de igrejas”.


Na saúde, Bolsonaro foi capaz de negar os fatos científicos mais óbvios e, por uma teimosia inexplicável e uma ignorância impressionante, minimizou a pandemia. Não foi capaz de incentivar medidas de segurança cientificamente comprovadas que diminuiriam o contágio da Covid-19, como o uso de máscaras e o distanciamento social. Demitiu Mandetta, demitiu Teich, até encontrar alguém que seguisse a sua cartilha negacionista à risca. Como alegado pelo presidente em diferentes momentos, a “gripezinha” foi “superdimensionada”, já que “outras gripes mataram mais do que essa”. Pelo visto, o brasileiro pular no esgoto não foi o suficiente para evitar quase 700 mil mortes em “um país de maricas”. Também para a sua surpresa, nem o uso de um remédio sem eficácia foi o suficiente para uma melhor gestão da pandemia. Bolsonaro já tinha avisado que era Messias, mas não fazia milagre. “Todos nós vamos morrer um dia” e, por incompetência e ignorância do presidente, muitos morreram cedo demais.


No meio ambiente, passou a boiada. Em vez de incentivar a preservação ambiental, Bolsonaro sugeriu “fazer uma limpa no Ibama e no ICMBio.” Seu ex-ministro, Ricardo Salles, diminuiu a participação no Conama, revogou a resolução que protegia os manguezais e faixas de restinga do litoral brasileiro e paralisou o Fundo Amazônia. No primeiro ano de seu governo, fechou seus olhos no Dia do Fogo para as queimadas de produtores rurais da região Norte, ou abriu seus olhos apenas para ver a floresta no chão.


Nos direitos humanos, Bolsonaro nunca demonstrou perspectiva de melhora. Desde a sua época como candidato, afirmava que o “erro da ditadura foi torturar e não matar”. Dizia “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. Dizia “Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem”. Seu passado também já evidenciava qual seria sua postura quando, em 1997, afirmou que “nínguem gosta de homossexual, a gente suporta”.


Na comunicação, Bolsonaro usou suas redes sociais como plataforma oficial e as mentiras como principal método de expor as suas ideias. Lives no Facebook, ataques no Twitter e memes no Instagram que remeteriam a qualquer figurão da política nacional, mas eram as formas oficiais de comunicação do governo brasileiro nas redes pessoais do presidente.


Nas relações internacionais, Bolsonaro atacou a China, grande importador e peça chave para o comércio internacional brasileiro e se afastou de quem considerava “comunista”. Isolava-se durante eventos internacionais e usava qualquer viagem mais como conteúdo para a base de apoio interna do que uma oportunidade de construir relações externas sólidas. Na reta final de seu mandato, misturou as funções de seu cargo com o fato de estar concorrendo à reeleição, usando o enterro da rainha e o seu espaço como primeiro a discursar na Assembleia da ONU para fazer campanha.


Na infraestrutura, sempre fez propaganda para Tarcísio. Fez propaganda para melhorias na infraestrutura que sempre foram feitas e que, no governo dele, “a Globo não mostra”. Um ministério que sempre trabalhou de forma similar entre mandatos e administrações distintas foi o mais vangloriado por Bolsonaro que, na ausência de boas propostas e grandes feitos em outros ministérios, teve que achar na finalização de uma obra quase completa do Rio São Francisco algum motivo para se orgulhar.


E, mesmo com a sua vasta coleção de feitos, Bolsonaro ainda tentou se apoiar no antipetismo para se reeleger. Bolsonaro acreditou que, após 4 anos com possibilidade de mudança, de trazer novas propostas para o Brasil e de usar a máquina estatal para proporcionar alguma melhora, não fazer nada realmente garantiria a sua reeleição. Bolsonaro não percebeu que a incompetência de seu governo foi uma das principais responsáveis pela volta do PT, goste você do PT ou não.


O fato é que Bolsonaro nunca governou e nunca soube governar. Durante 4 anos na presidência, Bolsonaro agiu como um candidato que falava para os seus apoiadores e ignorava os demais brasileiros. Ao se propor a fazer diferente, a fazer a nova política e ir contra o sistema, Bolsonaro apenas se esqueceu que não se envolver em esquemas de corrupção é completamente diferente de tentar colapsar o sistema democrático, atacar instituições e reprimir a oposição.


Ao passo que Bolsonaro falhava, errava e tomava medidas dificilmente justificáveis, ou os seus antigos apoiadores o criticavam e eram taxados de “comunistas”, “esquerdistas” e “ignorantes” (como se qualquer ato de Bolsonaro fosse recheado de uma pretensão divina), ou seus fiéis apoiadores inventavam narrativas insustentáveis para defendê-lo e, por fim, afirmavam “não critique, se não o PT volta..."


Bolsonaro errou, nem se cansou de errar, ou nunca se propôs a fazer certo. O PT voltou e o principal responsável pela sua volta foi a própria incompetência de Bolsonaro que criou em um “antibolsonarismo” um movimento mais forte que o próprio antipetismo que o elegeu.


Após a derrota nas urnas, o seu silêncio ecoou protestos de apoiadores inconformados com a derrota de quem se auto-intitula “imbrochável”. Quando voltou a falar, Bolsonaro se viu sem saída e enfraquecido em um cenário no qual todos os seus aliados, além de presidentes de outras instituições, já confirmaram a vitória de um rival democraticamente eleito. Bolsonaro, porém, se recusou a fazer o mesmo em frente às câmeras. Quando apareceu pela primeira vez após a derrota, incentivou seus apoiadores a fechar as rodovias e mostrou a todos a sua inconsequência com os procedimentos mais usuais da democracia.


Bolsonaro, Lula, ou qualquer outro político pode e deve ser criticado, principalmente durante o exercício de um cargo público. Uma crítica em sua própria concepção já deveria ser algo benéfico, sendo um impulso para uma reflexão acerca dos acertos e erros. O Presidente da República deve ser constantemente criticado e questionado, uma vez que, em exercício de cargo público, deve prestar serviços de qualidade para a população brasileira. Bolsonaro, o “imbrochável” que não aceita críticas, fez em seu desgoverno um desserviço para a população brasileira e, embora não fosse coveiro, acabou cavando a própria cova.


Autoria: Thomás Furtado Danelon

Revisão: João Rafael Colleoni e Gabriela Veit

Imagem de capa: Foto de Jair Messias Bolsonaro


Referências/Fontes:

Lula: quem apoia ex-presidente no segundo turno das Eleições 2022 (opovo.com.br)

Veja como cada cidade de São Paulo votou para presidente - 30/10/2022 - Poder - Folha (uol.com.br)

Miguel Reale Jr. anuncia apoio a Lula; ele foi autor do impeachment (uol.com.br)

Cortes no orçamento de universidades federais poderão afetar mais de 70 mil pesquisas | Educação | G1 (globo.com)

O bolsolão do MEC virou o maior escândalo de corrupção do governo Bolsonaro - ISTOÉ Independente (istoe.com.br)

Governo Bolsonaro: saiba quais foram os ministros da Educação (odocumento.com.br)

Relembre as frases polêmicas de Bolsonaro sobre a pandemia (terra.com.br)

6 polêmicas do governo Bolsonaro na área ambiental (gazetadopovo.com.br)

Ricardo Salles: 10 'canetadas' e polêmicas que marcaram a gestão no Meio Ambiente | Natureza | G1 (globo.com)

Bolsonaro: 'Ninguém gosta de homossexual, a gente suporta' - Politica - Estado de Minas

Na ONU, Bolsonaro fala em ameaça "socialista", critica passaporte da vacina e defende tratamento precoce (metropoles.com)

O que se sabe sobre o 'Dia do Fogo', momento-chave das queimadas na Amazônia - BBC News Brasil

Acesso entre 30/10 e 02/11