TUDO BEM GOSTAR DE ROSA?



"Até fingir que você não está atendendo a uma fantasia masculina é uma fantasia masculina… Você é uma mulher com um homem dentro assistindo a uma mulher. Você é seu próprio observador." (ATWOOD, 1993)

De acordo com a revista Psychology Today, sexismo internalizado é o hábito que algumas mulheres possuem de regularmente rebaixar ou sabotar suas próprias identidades ou as de outras mulheres e meninas. É comum que garotas rejeitem alguma característica pessoal que esteja atrelada à feminilidade em determinado período de suas vidas, desde o gosto por maquiagem até a prática de fofocar com as amigas. Talvez por causa disso, já tenhamos testemunhado variações da fala “Gosto de cultivar amizades masculinas, pois meninos não são dramáticos como nós” da boca de alguma menina desesperada por cumprir a agenda misógina da sociedade da qual fazemos parte. Eu mesma passei anos da minha vida odiando minha cor favorita, o rosa, por um motivo desconhecido. Como tomei como base experiências próprias para a escrita deste texto, tratarei, especificamente, da socialização de mulheres brancas, que difere daquela vivenciada por mulheres não brancas.


"Garota legal. Homens sempre falam isso como um elogio, não é? Ela é uma garota legal. Ser a Garota Legal significa que sou uma mulher bonita, brilhante e engraçada que adora futebol, pôquer, piadas sujas e arrotar… Que enfia cachorros quentes e hambúrgueres goela abaixo como se fosse a anfitriã da maior competição de culinária do mundo enquanto, de alguma maneira, ainda mantém um tamanho 36, porque Garotas Legais são, acima de tudo, bonitas. Bonitas e compreensivas. Garotas Legais nunca ficam bravas; elas apenas sorriem de maneira desgostosa e deixam seus homens fazerem o que quiserem. Vá em frente, me destrate, eu não ligo, eu sou a Garota Legal." A famosa citação de Gillian Flynn, autora do livro Garota Exemplar, ilustra precisamente como as mulheres podem rejeitar sua feminilidade em prol da validação masculina.


Cena da adaptação cinematográfica de 2014 de Garota Exemplar (Créditos: Pinterest)

A Garota Legal não existe, uma vez que mulheres brancas não são socializadas para possuírem interesses masculinos. Pelo contrário, elas são incentivadas a atender às expectativas do patriarcado. Você deve ser educada, delicada, amável e nunca pode estar de mau humor, caso contrário assumirei que "está de TPM". Durante a infância, meninas são presenteadas com dezenas de bonecas que vestem rosa, usam sapatos de glitter e esmaltes brilhantes. Mas quando atingem a adolescência, a sociedade vira as costas à sua própria criação. Quanto a isso, a protagonista Amy Dunne de Garota Exemplar afirma que: “Durante muito tempo, a Garota Legal me ofendia. Eu costumava ver homens — amigos, colegas de trabalho, estranhos — encantados por essas terríveis impostoras e eu queria sentar com esses homens e dizer calmamente​​: Você não está namorando uma mulher, você está namorando uma mulher que assistiu a muitos filmes escritos por homens socialmente desajeitados que gostariam de acreditar que esse tipo de mulher existe e talvez os beijaria." A partir disso, Gillian Flynn presume que o estereótipo da garota que rejeita sua feminilidade é um produto da imaginação masculina de indivíduos fracassados.


O estereótipo da Garota Legal também pode estar presente em obras produzidas por mulheres como um produto da misoginia internalizada. A exemplo disso, a voz poética da música You Belong With Me, de Taylor Swift, rebaixa as características ultra femininas da namorada do garoto pelo qual está interessada a fim de parecer relativamente superior: “Ela usa saias curtas, enquanto eu uso camisetas. Ela é a capitã das líderes de torcida, enquanto eu estou na arquibancada”. Uma fã de Swift ironizou no aplicativo TikTok que “crescer é aceitar que você se tornou a líder de torcida de You Belong With Me”. Por mais que seja inapropriado analisar criticamente um vídeo derivado dessa controversa rede social, a mensagem intrínseca no TikTok revela que a aceitação da feminilidade faz parte do crescimento de muitas mulheres brancas. Para a maioria de nós, crescer é aprender que interesses inerentemente femininos não são fonte de vergonha, mas sim um reflexo da maneira como fomos socializadas.


Líder de torcida interpretada por Taylor Swift no video clipe de You Belong With Me (Créditos: Pinterest)

A misoginia internalizada demoniza a feminilidade, mas existem poderosas representações positivas de personagens ultra femininas na mídia. No filme Legalmente Loira, a protagonista Elle Woods prova que seu interesse por atividades tipicamente femininas não a impede de se tornar uma advogada de sucesso. Pelo contrário, ela se mostra capaz de solucionar casos complicados, trazendo uma perspectiva inovadora ao campo do Direito, que é masculinamente dominado. Esse tipo de representação é escasso para mulheres que optam por manifestar seu gênero de outras maneiras. É lógico que a feminilidade não é uma norma para a expressão de gênero de mulheres, e aquelas que possuem interesses comumente associados a homens não devem ser marginalizadas. Não obstante, o problema aqui reside no completo desprezo por gostos femininos em função do atendimento de fantasias masculinas.


Elle Woods em Legalmente Loira vestindo rosa em um tribunal (Créditos: Google Imagens)

Poderíamos argumentar que homens que se sentem atraídos pela Garota Legal possuem tendências homossexuais, posto que sonham com a existência de um personagem que se resume a um homem preso no corpo de uma mulher. Não acredito que esse seja o caso. Também poderíamos inferir que a repulsa de jovens mulheres aos interesses da infância sejam apenas sintomas da rebeldia adolescente, mas isso não seria suficiente para justificar a popularidade da Garota Legal entre o sexo masculino. O patriarcado constrói o homem branco como o certo e tudo que se difere disso o errado, o outro. Jovens mulheres brancas tentam adentrar no universo de privilégios de homens brancos a partir da rejeição do que foram socialmente construídas para ser. Mas o caminho não é por aí. Enquanto as mulheres tentam se diferenciar umas das outras, o patriarcado continua reproduzindo as lógicas de opressão contra todas elas.



Autoria: Beatriz Nassar

Revisão: Bruna Ballestero e Letícia Fagundes

Imagem de capa: @Lhumberstone/Pinterest

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