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UM SOL MENOS QUENTE



Mila, desde que você se foi, meus dias são menos dourados. Não cinzas, pelo menos não sempre. Mas são sempre mais opacos sem o reflexo do sol no seu pelo. Já faz mais de sete meses que o papai e a mamãe se mudaram com você para essa casa, mas nunca te encontrei aqui. Você se foi antes que pudéssemos nos encontrar, e ainda não consigo pensar em você sem ter que segurar o choro. Sei que você foi feliz aqui e eu também sou, mas nunca fomos felizes juntas nessa casa. Às vezes minha cabeça cria imagens nítidas de nós duas aqui, mas sei que são miragens. Olho para a casa e sinto ela tão vazia. Minha primeira noite aqui foi recheada de angústia. De medo de nunca te ver aqui dentro, nunca viver essa casa com você. Dói demais saber que estava certa. Dói demais saber que as primeiras impressões são as que ficam, e agora tudo aqui me lembra daquela noite e da sua ausência.


A casa é linda. Tem um quintal enorme, do jeito que você gosta. Tenho um quarto maior, mais espaço para receber meus amigos, tudo, ou melhor, quase tudo é perfeito. Papai e mamãe inventaram de colocar aqueles interruptores inteligentes, touch, seja lá o que isso significa. Para mim eles parecem meio burros, porque precisam ser programados para funcionarem direito. O meu não foi, e pisca sem parar. Não fui atrás de consertá-lo nos últimos sete meses. O interruptor que pisca é meu protesto silencioso. Ele é o único elemento físico que concorda com o que eu sinto, é minha única evidência: essa casa é disfuncional, tem algo de errado nela. Algo que para muitos pode ser discreto, imperceptível, mas eu percebo sempre, e logo penso em você.


A verdade é que, para mim, todas as casas serão disfuncionais sem sua presença e eu trocaria qualquer uma delas para ter você comigo. Todo sol será menos quente, toda manhã será menos completa, toda grama será menos verde e menos viva. Como um espelho, meu eu reflete tudo isso. Sou menos quente, menos completa, menos colorida e menos viva. Levo você dentro de mim, mas sou menos você. E isso me entristece profundamente. Escrevo isso enquanto faço sua atividade favorita: aquecer no sol. Já falei que, agora, ele é menos quente, e tenho certeza disso. Mas é com ele que mais sinto você, porque sei exatamente onde você estaria nesse momento: do meu lado. Sinto falta de passar a mão pelas suas madeixas e receber o calor do seu corpo contra a minha pele. Sinto falta de te apertar, gordinha. Agora, ocupo minhas mãos com o teclado desse computador enquanto penso em você — que é quase o tempo todo.


Quando outras preocupações tomam meus pensamentos, me sinto culpada. Como pude te esquecer tão rápido? Como pude deixar de nutrir-lhe no único campo que tenho acesso a você, no meu imaginário? Quando entrei de luto, pensei que o mundo deveria parar, pelo menos uma vez. Não queria viver mais nada que não a dor de te perder. Mas ele não parou, nunca para. Cabe a nós fingir costume e seguir a vida. Mesmo com culpa, mesmo com saudade, mesmo com medo de perder as pessoas tão subitamente como te perdi. Se eu pudesse virar o relógio, cancelar aquela passagem, deixar a faculdade e o carnaval de lado, deixar tudo de lado, eu o faria. Mas não posso. Então continuo pensando em você — na maioria das vezes, não tão intensamente como nesse momento — e no que eu poderia ter feito diferente, e não tem uma vez que eu chegue em casa e não me sinta um pouco esquisita. Ainda é estranho não ser recebida na porta por sua respiração ofegante.


Te vejo em todo lugar, se me esforçar um pouco, posso sentir você debaixo dessa cadeira deitada em cima dos meus pés. Te vejo nessa casa, te vejo no meu apartamento, te vejo no sol de cada manhã e, às vezes, recebo sua visita nos meus sonhos. E por mais que doa muito e que tudo pareça uma grande injustiça, sou grata. Grata de ainda lembrar da textura do seu pelo, dos sons que você emitia e de como era gostoso te dar um cheirinho. Grata de saber de cabeça cada reação e carinha sua e conseguir imaginar perfeitamente como você se comportaria em cada cômodo, mesmo você não estando aqui. Grata por saber que você foi muito feliz, inclusive nessa casa que ora me parece triste. Prometo tentar vê-la com os seus olhos, só não garanto que vou ajustar o tal do interruptor tão cedo. Por aqui, sigo protestando sua partida. Por aí, siga me lembrando da sua presença.


Autoria: Fernanda Abdo

Revisão: Artur Santilli e André Rhinow

Imagem de capa: acervo pessoal


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