UMA LONGA VIAGEM

No Espaço Aberto de hoje, o aluno Matheus Santos de Oliveira traz uma reflexão sobre si, tangenciando o processo de escrita e brindando com uma importante conclusão - a beleza nas pequenas coisas.

Em uma viagem de cerca de doze horas não há muito o que fazer, ainda mais quando já se dormira por grande parte da viagem. Tentei ler, fui de Cortella a Machado, mas a minha inquietude não possibilitou outra coisa a não ser escrever. Então, peguei meu “pc” – em outros tempos era caneta e papel, o que a faculdade fez comigo? – e pensei: “ok, uma nova crônica, há tempos que não escrevo uma”, porém me deparei com um problema de natureza extremamente grave: sobre o que devo escrever?


Quando me deparei com esse problema, resolvi tentar algo pra ver se fluiria. Pincelei algo sobre uma menina: não saiu, muito cedo, talvez. Pincelei algo sobre primeiros encontros, afinal eles são divertidos, não se sabe o que deve esperar e às vezes te surpreendem, mas também não era motivo de uma crônica. Por fim, acatando todos os clichês que Cartola, Veloso e Buarque já deixaram comigo por meio de suas músicas, resolvi escrever sobre o amor. No entanto, parece que Nando Reis chegou de fininho ao meu ouvido e me disse: “desculpe, está um pouco atrasado”. Assim, realizei que, para escrever sobre algum tema, é necessário sentir, mas isso não é algo novo, né, meu caro amigo!? Já tínhamos falado sobre isso, só que naquela ocasião eu falava do grande amor que tinha por escrever.


Lembrei-me de Machado quando, em meio a uma conversa informal, me contará o caso de um pobre rapaz que se tornara auferes, e que, por receber tamanho cargo, adquirira dupla personalidade: uma interna e outra externa. O problema é que a externa superara a interna e este passara a ser somente o Sr auferes. Diante dessa lembrança, acredito que com o tempo também passei a ter dupla personalidade, entretanto antes que lhe assuste, meu caro amigo, elas não estão em rota de colisão. Pelo contrário, se complementam.


Uma de minhas personalidades é exatamente quem eu sou: um cara alegre, descontraído, risonho e até um pouco convencido. Essa todos conhecem. Porém, aos poucos em quem confio para lerem minhas crônicas: sou um cara apaixonado, mas não se iluda, meu amigo, sou apaixonado por tudo e não somente por uma pessoa. É o caso de reconhecer a beleza da vida nas pequenas coisas, como diria outro grande amigo, o Almir: “Cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”. Penso que, para termos uma vida repleta de felicidade, é preciso reconhecer a beleza em tudo que nos cerca, por exemplo: foi dessa angustiante viagem de 12 horas que saiu esse texto. Ainda não sei se é bom, mas já é algo.

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